As eleições chilenas: Primavera fascista?

Atualizado: 1 de fev.




O primeiro turno das eleições presidenciais chilenas encerrou-se de maneira preocupante para o país e toda a América do Sul, com a dianteira do candidato de extrema-direita, José Antonio Kast. Obtendo 28% do total de votos computados, Kast enfrentará, no segundo turno, o ex-líder estudantil, Gabriel Boric, que ficou atrás do primeiro pela pequena margem de 2% de votos. Enquanto vencer Kast e seu projeto de “restaurar a paz e a ordem” - como dito repetidas vezes em seu discurso após a confirmação de que disputaria o segundo turno -, é, no presente, a tarefa militante mais importante dos movimentos sociais chilenos e seus apoiadores dentro e fora do país, compreender a ascensão de um candidato que defende abertamente o legado da ditadura de Pinochet, poucos anos depois da explosão de insurreições populares contra esse legado, deve ser uma das prioridades da intelectualidade latino-americana neste momento.

O estallido social - nome dado aos protestos que tomaram as ruas do Chile após o dia 18 de outubro de 2019 -, foi marcado por uma nítida negação das instituições políticas chilenas e de seus representantes. Marchando contra o precário sistema previdenciário; o sistema de ensino elitizado; o restrito acesso aos espaços urbanos; a constante violência policial; a perseguição às comunidades Mapuches; entre outras múltiplas demandas, os protagonistas do estallido tinham como ponto comum de suas demandas a exigência de superar a - ainda vigente - constituição de 1980, redigida durante a ditadura. Após semanas de contínuas manifestações nas ruas e crescente radicalização dos participantes, Sebastián Piñera, atual presidente chileno, recuou na estratégia de “guerra declarada”¹ e tentou conter os protestos por meio do “acordo pela paz social e por uma nova constituição”. Apesar de o acordo ter aberto o caminho para o plebiscito que garantiu a formação de uma nova Assembleia Constituinte - que terá a característica inédita no mundo da paridade de gênero e uma ampla participação dos povos indígenas -, o deslocamento das reivindicações do estallido social do espaço das ruas para dentro das desacreditadas instituições, reduziu, em muito, o apoio popular aos representantes dessas mudanças. Esse fato é perceptível ao constatar-se que, enquanto mais de 80% dos chilenos apoiavam as manifestações, o plebiscito pela nova constituição teve a participação de 51% da população do país.

Tendo em vista a falta de credibilidade das instituições chilenas e o receio de que a política dentro dos gabinetes contenha as mudanças, podemos compreender o sucesso da candidatura de Kast. Com um discurso restaurador que fala em colocar o Chile, mais uma vez, no “caminho do desenvolvimento”, Kast levanta como principal bandeira de sua campanha a “defesa da liberdade do povo chileno”. Ele argumenta que o “terrorismo” e a “deliquência” tomaram conta do Chile e que isso levou o país à uma situação de medo generalizado, onde a segurança das pessoas estaria em constante ameaça pela “desordem” que haveria se instalado no país. Acusando seu adversário de representar o comunismo, Kast coloca-se na disputa presidencial como o único capaz de garantir a liberdade tão ameaçada dos chilenos por conta da violência e da “ditadura sanitária” decorrentes, respectivamente, do estallido social e da pandemia da COVID-19. Além disso, o candidato que “receberia o voto de Pinochet”² localiza os problemas do Chile não no modelo político-econômico estabelecido no país pela ditadura, mas nas reformas e projetos “socialistas” que visaram combatê-lo.

Kast se aproveita da insatisfação generalizada dos chilenos com as promessas não cumpridas da modernização no país, para convencê-los de que a origem da enorme precariedade de suas vidas não está no modo de regulação do capitalismo e de governo das condutas instaurados no país pela ditadura - que construíram aquilo que Tomás Moulian chamou de “cidadão credit-card” -, e sim naqueles que tentaram romper, em absoluto, ou reformar, minimamente, este modelo. Por mais absurdas e repudiáveis que sejam suas falas e propostas, elas soam muito mais autênticas para grande parcela dos chilenos do que as promessas de sempre das instituições e seus representantes - entre eles, Gabriel Boric. Seu sucesso, portanto, não deve ser interpretado como consequência da despolitização dos chilenos, mas sim da percepção correta destes de que os problemas de nossas sociedades são grandes demais para serem resolvidos por meio das urnas. Em outras palavras, ao invés de subestimar a crise e propor soluções que partam do Estado para solucioná-la, Kast - assim como Bolsonaro, Trump, Órban, Modi e tantos outros representantes da extrema-direita no mundo - reconhece sua amplitude e defende a liberdade de cada pessoa se proteger da maneira que preferir diante do colapso que se aproxima. Para vencer a extrema-direita, não apenas no Chile, mas também no Brasil, e em todo o restante do globo, é preciso, primeiramente, que aqueles que desejam ver um futuro mais justo reconheçam a profundidade da catástrofe que vivemos no tempo presente.


Notas:

1 - Ver: <https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-50139270>


2 - Ver: <ttps://brasil.elpais.com/internacional/2021-11-17/a-nova-direita-da-america-latina-se-fosse-vivo-pinochet-votaria-em-mim.html>