• Fábio Agustinho

ONDA PROGRESSISTA: Paraguai


O Paraguai, assim como o restante dos países da América Latina, é um país de capitalismo dependente, isto é, uma sociedade que tem na segregação social e na dependência externa os pilares fundamentais para a reprodução de sua existência. Sendo ambas características danosas para a maioria da população paraguaia, a defesa delas ocorre pela materialização do modelo mais visível daquilo que Florestan Fernandes chamou de “autocracia burguesa”. Em outras palavras, como a pobreza e a dependência são fundamentais para a manutenção de seus negócios, os grandes empresários do Paraguai as defendem por meio do completo controle das instituições estatais e de uma nítida intolerância contra as demandas populares. País pouco industrializado, com o IDH mais baixo da América do Sul, que possui uma das maiores concentrações de riqueza e de terras da região, o Paraguai é o exemplo mais evidente no continente de uma nação que ainda não solucionou os problemas com seu passado colonial. Nesse contexto de enorme distanciamento entre a atuação do Estado e as exigências da população, a gestão do progressista Fernando Lugo não poderia ser nada mais do que tímida.

Em meio a um cenário de rejeição da dominação política do Partido Colorado, a vitória de Lugo foi mais um sintoma da crise de legitimidade da política no Paraguai - e da América Latina - do que uma conquista dos movimentos sociais e partidos de esquerda do país. Levantando a reforma agrária como principal bandeira de seu mandato, Lugo rompeu com a promessa de campanha ainda antes de assumir a presidência ao indicar quadros de confiança do mercado nos ministérios da Fazenda, Obras Públicas e Agricultura e Pecuária. Além disso, Lugo também revelou que não solucionaria o problema do controle de terras rurais no país por latifundiários brasileiros - os denominados brasiguaios, cuja posse de terrenos férteis no Paraguai é estimada em um quinto do total do país - ao encaminhar acordos com o então presidente Lula e o chanceler Celso Amorim para regularizar as posses desses grandes fazendeiros. No entanto, a separação definitiva entre o governo progressista e os movimentos sociais ocorreu após o confronto gerado pela ocupação de uma área em Ñacunday por cerca de quinhentos sem-terras. Tendo em vista que o terreno ocupado então estava apropriado por um dos mais notórios brasiguaios no país, o latifundiário Tranquilo Favero, o conflito teve ampla repercussão nos meios de comunicação brasileiros e ativa participação do governo petista contra a expropriação da área.

Sem o devido apoio do governo Lugo, os camponeses não foram capazes de fazer frente à pressão dos brasiguaios e se dirigiram para o terreno irregularmente ocupado por um empresário colorado em Curuguaty, onde ocorreu mais um confronto que terminou com a morte de seis policiais e onze camponeses. Percebendo que as tensões sociais estavam aumentando, os grandes empresários e a oposição parlamentar ao governo perceberam que era necessário retirar o progressismo da presidência. Apesar das tentativas de Lugo agradar ao mercado e aos partidos tradicionais com trocas de ministros e o distanciamento dos movimentos sociais, após a abertura de um pedido de impeachment fundamentado na “incapacidade do presidente de governar o país”, a oposição rapidamente depôs Lugo e colocou o vice-presidente Frederico Franco em seu lugar, assim restituindo a normalidade da “autocracia burguesa” paraguaia.