Como lidar com a morte?

Atualizado: 13 de jun.

Falar sobre a morte é sempre uma questão delicada e não são poucas as produções que tratam sobre o tema. A série coreana “A Caminho do Céu”, lançada em 2021 na plataforma de streaming Netflix, apresenta uma visão muito particular sobre muitos dos significados, histórias e sentimentos ligados à morte que muitas vezes são imperceptíveis aos nossos olhos. O objetivo da série é mostrar que a morte não significa, exatamente, o fim, mas que precisamos nos atentar à dimensão profunda dos relacionamentos humanos, em seus dilemas e complexidades, considerando também seus aspectos sociais.

O drama conta a história de Geu-ru um jovem rapaz com Síndrome de Asperger e habilidades únicas que, ao lado de seu pai Han Jung-Woo, gerencia uma pequena empresa de “limpeza de traumas”: a Move to Heaven. Juntos, Geu-ru e seu pai são responsáveis por ir até a casa das pessoas falecidas, limpar o local, reunir seus pertences, colocá-los em uma caixa e entregá-la a um membro da família, amigo, conhecido ou responsável. A surpresa inicial, por se tratar de uma atividade incomum para nós, é logo substituída pela curiosidade a respeito das histórias únicas que acompanham cada caso. Assim, rapidamente somos envolvidos pela narrativa intrigante.

Logo no início da trama e após um fato inesperado, somos apresentados à Cho Sang- Gu, tio de Geu-ru que é um lutador e ex-presidiário. Como esperado, a chegada do novo personagem traz consigo uma extensa bagagem emocional e causa uma reviravolta, transformando as relações familiares no núcleo principal. Vale ressaltar que toda essa mudança ocorre sob os olhares atentos da jovem, amiga e vizinha de Geu-ru: a perspicaz Yoon Na-mu.

Em diálogo com traços culturais da Coréia do Sul e tecendo algumas críticas sociais, a trama apresenta questões que perpassam as perdas, sejam elas esperadas ou não, através de uma quebra constante de preconceitos e estereótipos. Em muitos episódios somos levados a pensar na morte de uma pessoa não como um caso isolado, mas como uma consequência de falhas estruturais do sistema socioeconômico que persistem por anos e beiram a negligência. Como um esforço para recobrar as histórias por trás de um número aparente, a série faz uma boa junção da perspectiva individual e coletiva dos casos abordados em cada episódio - como uma espécie de trabalho investigativo.

A produção, que contém dez episódios com pouco mais de 50 minutos cada, explora a forma como as pessoas - de diferentes classes sociais e origens - lidam com a morte e suas consequências. A série trata não somente dos falecidos, mas de todo o tecido social que envolve a perda, desde relações familiares, passando por dinâmicas profissionais e amorosas. Assim, somos levados a entender todo o processo de limpeza, recolhimento dos itens e contato com a família, a partir da perspectiva única de Geu-ru, acompanhando também o desenvolvimento de sua própria história de vida.

O drama coreano vai além das aparências, tratando com seriedade questões delicadas como: relações trabalhistas precárias, desigualdades sociais, violência doméstica, adoção, reabilitação, abandono e migrações. A série não deixa de entregar com sensibilidade, beleza e um leve humor, uma excelente história de comprometimento, respeito, família, amor e amizade que nos ensina outra forma de viver o luto e lidar com a morte.


Título: A Caminho do Céu (em inglês, Move to Heaven; em hangeul, 무브 투 해븐). Duração: 10 episódios. Plataforma: Netflix. Direção: Kim Sung Ho. Elenco: Tang Joon-Sang, Je-Hoon Lee, Seung-hee Hong.