Como Hollywood ajudou a construir a Guerra ao Terror

Autor (nome completo): Estevão Pessoa, Marco Fernando Kaiser, Monique Silva , Thais Santana

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Definido por uma conveniência política e estratégica, o terrorismo pode ser compreendido como as ações violentas empregadas por indivíduos, grupos ou Estados, por razões políticas . Nessa atividade, a vítima direta não constitui a meta a ser atingida, mas serve de exemplo para manipular o alvo principal por meio da intimidação (NASSER, 2010). Após os eventos do 11 de setembro, esse termo ganhou os holofotes das grandes mídias. O ataque às torres gêmeas em Nova York mostrou que a maior potência do globo, também possuía as suas fraquezas, era a primeira vez que os Estados Unidos eram atacados em território continental. A hostilidade implementada pela Al-Qaeda ao território norte-americano, geraria o que ficou posteriormente conhecido como Guerra ao Terror, uma contra-ofensiva que utilizaria a força bruta — hard power —, mas também a força cultural e ideológica — soft power.

A Guerra ao Terror foi anunciada e por meio dela, o presidente estadunidense George W. Bush declarou o terrorismo uma ameaça global, quem não estivesse com os EUA, estaria a favor desta forma de violência. Como uma resposta dos Estados Unidos aos atentados ocorridos no dia 11 de setembro de 2001, o contraterrorismo foi efetivado, sendo compreendido como um conjunto de medidas empreendidas pelo governo estadunidense e por outros Estados, com o intuito de combater o terrorismo. Entre as mais evidentes, encontra,-se as intervenções em países do Oriente médio, como Afeganistão (2001) e Iraque (2003), por serem considerados Estados financiadores do terrorismo.

Ao compreenderem o Oriente Médio como uma fábrica de terroristas, as políticas do governo Bush do pós-11 de setembro não foram limitadas ao campo militar somente, mas também refletidas no campo ideológico. As intervenções seriam efetuadas pelas forças das armas, como pelo aparato ideológico fornecido pela indústria cinematográfica. Como arma de soft power, Hollywood foi utilizado na Guerra ao Terror, influenciando o imaginário social de diversos indivíduos pelo mundo, que passaram a associar a figura do muçulmano ao retrocesso e ao terrorismo.

Com o intuito de construir um pensamento global comum em relação aos terroristas e legitimar a Guerra ao Terror, os EUA utilizaram a força do cinema e o aparato cultural para impactar as comunidades globais e atingir os seus objetivos. No dia 11 de novembro de 2001, ocorreu uma reunião na Casa Branca entre Jack Valenti — líder da Motion Picture Association of America — e o conselheiro de George W. Bush — presidente dos EUA — para conversar acerca do caminho que a política externa americana iria traçar mediante a utilização da indústria Hollywoodiana (SOARES, 2018, apud VALANTIN, 2005). Produções cinematográficas que auxiliam na justificativa da Guerra ao Terror, moldando o imaginário da população, foram pensadas. Os filmes produzidos apelavam ao drama e especulação americana ao terrorismo, contribuindo com a criação de um senso comum em torno da imagem do terrorista.

É importante pontuar que o relacionamento entre o Estado norte-americano e sua indústria cultural não algo exclusivo do governo Bush, existente desde o período pós-Segunda Guerra Mundial, quando diversos filmes eram utilizados, por exemplo, para reforçar o patriotismo estadunidense, enquanto japoneses, vietnamitas e russos eram construídos como figuras vilanescas. Embora a reunião entre a Casa Branca e os principais produtores dos EUA no pós-11 de setembro não tenha sido uma novidade, esse novo encontro é caracterizado pelo alto empenho para se desenvolver uma narrativa que pudesse ser divulgada tanto no âmbito interno como externo dos Estados Unidos, bem como justificasse as medidas contraterroristas.

Impulsionadas pela Guerra ao Terror, as produções vão desde histórias sobre os atentados do 11 de setembro, até aquelas referentes a super-heróis da Marvel e DC, que possuem elementos que remetem a medidas antiterroristas. Para Correio e Correio (2019), as histórias dos super-heróis enfrentaram uma repaginada para que os enredos se assimilassem mais com a agenda antiterrorista prevista pelo presidente Bush, utilizando traumas pessoais como uma metáfora ao 11 de setembro, que motivaria o desenvolvimento heroico dos personagens perante aos abalos vivenciados, um exemplo é o personagem Batman.

Como um dos percussores dessa prática quando se considera as medidas anti-terroristas, nos filmes do Batman, como o Batman Begins estreado em 2005, em que o super-herói enfrenta um inimigo de origens orientais, espelhando-se na Al-Qaeda ou no filme Batman: O Cavaleiro das Trevas, estreado em 2008, em que ao enfrentar o Coringa, o Batman toma medidas extremas, que invadem a privacidade da sociedade em nome da segurança nacional, menções ao terrorismo e a Guerra ao Terror são empreendidas. Sendo o filme de 2008, uma clara alusão ao Patriot Act, decreto assinado por Bush que visava espionar e deter possíveis terroristas a partir do acesso do governo norte-americano aos dados de comunicação e pessoais da população (CORREIO, CORREIO, 2019).

Como arma de guerra, a mídia norte-americana foi efetivada a partir dos eventos do 11 de setembro, utilizada como promotora da Doutrina Bush. A cultura popular estadunidense passou a girar em torno de tópicos sobre a guerra e o terrorismo, enquadrando a população norte-americana no constante medo da ameaça terrorista. Esse imaginário foi sendo promovido e reforçado nos filmes como "Falcão negro em perigo (2001)", "Fomos heróis (2002)", “Star Wars: Episódio II — Ataque dos Clones (2002)”, “A Soma de Todos os Medos (2002)”. Em todas essas obras cinematográficas, a narrativa se estabelece num cenário do conflito bélico, em que o protagonista terá como missão combater uma grande ameaça que está se formando. Justificando, mesmo que de forma indireta, o contexto conflituoso que permeou o pós-11 de setembro, representam o clima inicial presente naquele momento, o medo da ascensão de um evento catastrófico e o soldado como esperança. Apesar destas obras não terem relação direta com o 11 de setembro, auxiliaram o desenvolvimento de um sentimento de constante medo e de legitimação das ações da Guerra ao Terror, sendo a grande bilheteria destes filmes uma certificação do grande interesse que o público norte-americano tinha pelo tema naquele momento.





Bibliografia

HOFFMANN, R.O.P. A indústria cultural americana na guerra ao terror : análise sobre o cinema de Hollywood. UFRGS Lume. Disponível em: http://hdl.handle.net/10183/231584. Acesso em: 05 Jun. 2022.

CORREIO, Victor; CORREIO, Henrique. Super-heróis na Era Bush: entre o apoio e a rebeldia à guerra ao terror. Vol. 21, Revista Fronteiras - Estudos Midiáticos, 2019.

SOARES, Jaíne Luiza et al. Hollywood no Pós-11 de Setembro: o papel do cinema nos governos George W. Bush (2000-2009). 2018.

NASSER, Reginaldo Mattar. Os arquitetos da política externa norte-americana. São Paulo: EDUC, 2010.