• Lucas Ramos

As fronteiras em um mundo multilateral

Atualizado: Fev 18


Alguns termos são sempre colocados em evidência no estudo das Relações Internacionais para que conceitos possam ser expressados de forma eficiente, um desses é o termo multilateralismo. Quando falamos de multilateralismo nas Relações Internacionais, falamos da integração de Estados uns com os outros de modo a estabelecer uma cooperação para que assim haja um ganho mútuo entre os integrantes.

Um exemplo claro do multilateralismo na política atual é a União Europeia, que abdica, até certo ponto, de uma “anarquia” entre esses Estados europeus. Devemos lembrar, também, que o multilateralismo não inclui apenas uma integração regional entre países, mas também acordos firmados de forma internacional e qualquer tipo de cooperação entre Estados de forma a atingir um fim específico.

Entendendo o conceito do multilateralismo, podemos entender a discussão que o envolve no esquema internacional neste momento em que vivemos. Podemos compreender, portanto, as escolhas que os governos de cada Estado fazem de forma a consolidar o multilateralismo ou o de deixar esse conceito, que muitos consideram como prejudicial.

Um grande exemplo disso é a própria União Europeia, que teve recessos em sua contínua busca por integração regional plena após uma forte onda política de suporte nacionalista. O que se mostrou nessa onda, entre tantos outros exemplos, foi a saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit.

Também devemos falar sobre o governo de Donald Trump nos Estados Unidos, que desde sua campanha inicial criticava as cooperações em que o país participava, especialmente o Acordo de Paris, que ditava normas de ação para políticas ambientais, além do acordo nuclear com o Irã, que era julgado pelo presidente como inefetivo. Essas são só algumas das organizações das quais os EUA se retiraram nos últimos anos, entretanto, o presidente eleito Joe Biden afirmou durante sua campanha que pretende incluir novamente os EUA nas parcerias.

A onda nacionalista também se espalhou para o Brasil na forma do presidente Jair Bolsonaro, que desde sua posse critica fortemente a presença do Brasil na cooperação internacional. Em 2019, Bolsonaro ordenou a saída do país da UNASUL e, durante a pandemia, criticou fortemente a Organização Mundial da Saúde que, por sua vez, criticava sua posição frente a pandemia da COVID-19.

Esses posicionamentos nos levam a imaginar que o sistema internacional está em direção a uma anarquia completa entre os agentes. A onda nacionalista parece não ter o mesmo impacto no oriente. A China, nos últimos anos, mostra uma política cada vez mais abrangente em relação a cooperações. Desde ações de construção de infraestrutura em nações africanas até acordos firmados, vemos que a China toma uma direção cada vez mais multilateral. Isso é mostrado claramente no novo acordo RCEP.

O “Regional Comprehensive Economic Partnership” é a parceria firmada em novembro de 2020 com liderança da China, envolvendo os membros da ASEAN, situados no sudeste asiático, além de Japão, Coréia do Sul, Austrália e Nova Zelândia. O pacto firmado entre esses países mostra-se como o maior pacto de comércio do mundo, englobando um terço da população mundial e 30% do PIB total do planeta.

É vital entendermos a importância desse pacto de modo geral para o Sistema Internacional. O mais evidente é que, com isso, a China tenta cada vez mais consolidar a si mesma como a liderança econômica mundial, rapidamente alcançando os Estados Unidos. A China também recebe mais poder para influenciar decisões econômicas na área, outro fator importante para se ter em mente.

Também devemos entender o que isso significa para o Brasil. Inicialmente, temos duas principais implicações, a primeira é que as exportações do Brasil podem ter maior competitividade, visto que a China é o maior parceiro econômico do Brasil quando falamos da quantidade exportada. Outro fator importante é que as empresas brasileiras devem ter maior facilidade para adentrar no mercado asiático, com menos processos burocráticos e maior abertura de modo geral.

As fronteiras estão mais rígidas e, ao mesmo tempo, cada vez mais voláteis. No mundo multilateral e globalizado em que vivemos, resta esperar para que possamos entender o real futuro do multilateralismo.


Referências

BBC. Como o RCEP, o maior tratado de livre-comércio do mundo, afeta o Brasil e a América Latina. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54971949. Acesso em: 7 dez. 2020.

CGTN. 15 nations sign RCEP trade pact — world’s biggest FTA. Disponível em: https://news.cgtn.com/news/2020-11-15/Fifteen-nations-sign-RCEP-trade-pact-VqTPpoULTi/index.html. Acesso em: 7 dez. 2020.

NOGUEIRA, João Pontes; MESSARI, Nizar. Teoria das Relações Internacionais: Correntes e Debates. 1. ed. São Paulo: Elsevier, 2005. p. 4–34.

REUTERS. Explainer: What happens now the RCEP trade deal has been signed?. Disponível em: https://www.reuters.com/article/us-asean-summit-rcep-explainer-idUSKBN27W0WC. Acesso em: 7 dez. 2020.

THE PRINT. Paris deal to WHO, the 11 organisations Donald Trump’s US has pulled out of, weakened. Disponível em: https://theprint.in/world/paris-deal-to-who-the-11-organisations-donald-trumps-us-has-pulled-out-of-weakened/432486/. Acesso em: 7 dez. 2020.

Escrito por Lucas Ramos (lucaslicoramos@gmail.com)