• O Não Internacionalista

Violência, Gênero e Desenvolvimento

Por Mainara Gomes e Lara Martins



Nessa semana de colaboração com o Grupo de Estudos e Pesquisa de Gênero e Relações Internacionais, MaRIas, constituído por alunes da pós-graduação do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP) conversamos com Beatriz Azevedo (IRI-USP) acerca da sua pesquisa sobre gênero, desenvolvimento e política internacional.

A dissertação de Beatriz Azevedo (IRI/USP) foi sobre gender-mainstreaming em regiões pós-conflito, investigando o caso sobre a Libéria, explorando as políticas de gênero focadas no combate a violência de gênero e sexual. O enfoque foi na primeira presidenta democraticamente eleita do país, suas políticas, ações e os desafios encontrados. Dentro da pesquisa, analisou a influência das leis de costumes e da cultura na criação das políticas de gênero.

Mainara (O Não): Qual foi a teoria feminista que você utilizou no seu trabalho e por que você acha que ela é a melhor para análise da sua pergunta? O que você encontrou como resultado na sua pesquisa?

Beatriz: Por conta dessa resistência em trabalhar com o tema da desobediência civil, optei por mudar de zona temática. E foi aí que eu pensei que queria trabalhar com mulheres e quando comecei a pesquisar, surgiu o caso da Libéria e, principalmente, a figura da presidenta na época Ellen Johnson-Sirleaf. Pensei “essa mulher é incrível, ela ganhou o Nobel da Paz, quero pesquisar o trabalho dela” e comecei a estudar o caso. Teve um capítulo que eu fiz todo um histórico sobre como as teorias de gênero e desenvolvimento se davam principalmente dentro do mainstream da academia, do que é mais consolidado dentro do campo. Busquei fazer uma correlação entre isso e as ondas feministas, mas depois eu pensei “estou falando sobre África, preciso colocar vozes africanas dentro desse trabalho”.

Acho que isso definiu muito o caso que eu estudei especialmente porque antes dela ser presidenta ela já era uma figura muito importante na Libéria. Ellen se casou muito jovem e logo teve 4 filhos, foi fazer faculdade e depois o mestrado nos Estados Unidos. Nesse meio tempo começou a sofrer violência do marido. Ellen se separou do marido, perdeu a guarda dos filhos porque na Libéria a guarda fica com o homem. Apesar de toda essa história, ela conseguiu trabalhar em alguns governos, foi ministra das finanças, trabalhou em lugares como a ONU e o Banco Mundial. Ela era alguém conhecida tanto no cenário nacional como no cenário internacional, era alguém que fazia esse meio de campo, que andava muito bem em todas as áreas.

Ellen Sirleaf conhecia os banqueiros do exterior, mas também conhecia o seu país profundamente. Por conta disso, em vários momentos ela ficou em posições difíceis porque teve que conciliar esses dois interesses, essas duas visões, de acordo com Beatriz.

Beatriz: Essa é uma das grandes questões na questão do pós-conflito, do peacebuilding. A ONU impõe uma cartilha para ser seguida e os Estados precisam se adaptar a essa cartilha. Eu acho que a minha escolha de teoria acabou refletindo um pouco isso, o que o Norte estava pensando e qual era a visão das mulheres do Sul global. Tem todos esses dilemas, todos esses problemas no meio do caminho.

O objetivo de Beatriz foi encontrar respostas para as perguntas: como se reconstrói um Estado destruído? Como se deu o projeto de peacebuilding da Ellen Sirleaf ? O fato dela ser uma mulher influenciou em algo?”

No entanto, quando pensamos gênero no contexto da Libéria, sendo uma parte constituinte do continente africano, precisamos nos ater nas diferentes acepções de gênero. De acordo com Beatriz, as relações de gênero, na Libéria, não acontecem da mesma forma que no Norte Global, como Europa e Estados Unidos.

Mainara (O Não): Não tem como nós falarmos das mulheres dessa região, com essa situação de pós conflito, a partir de lentes teóricas de regiões que não vivenciam isso e que nunca vivenciaram. Por que você se interessou na questão do “pós-conflito”?

Beatriz: Acabou sendo muito natural, sinceramente, eu escolhi porque queria falar da Ellen e o conflito veio junto. E como eu falei no início, eu vim de um Instituto que é voltado para a guerra, para defesa, para questões civis-militares, para peacebuilding, para peackeeping. Eu fazia parte de um grupo de estudos do Profº Thiago Rodrigues, no qual a gente estudava R2P. Então não era um tema estranho para mim. Eu tinha familiaridade com aquele tema.

A Libéria é um país localizado em uma sub-região denominada como “sub-região do Rio Mano”, junto a Serra Leoa, Guiné e Costa do Marfim. O conflito não se localizou apenas na Libéria, mas se expandiu também para essas outras localidades, então era necessário criar um “complexo de segurança” e as mulheres liberianas compreenderam isso, segundo a pesquisadora.

Beatriz: É lindo o trabalho que elas fizeram de se unir, sendo duas guerras civis que se juntaram em uma e ficaram 14 anos em guerra. Libéria é um país que tem muitas divisões étnicas, religiosas, então elas conseguiram unir isso e foram lutando. Elas chamaram os primeiros-ministros dos outros países, depois conseguiram chamar os presidentes. Mulheres que tiveram um protagonismo muito grande até porque o presidente da Libéria na época foi acusado de genocídio, ele estava enrolado em muitas questões .

Então, pensei “eu quero estudar essa presidenta que foi eleita, que participou em alguma medida desses movimentos e, principalmente, foi eleita com essas mulheres tão fortes como base”.

Sirleaf se tornou sinônimo de pioneirismo. Foi a primeira mulher eleita presidente no continente africano, em 2005 na República da Libéria, pequeno país da África Ocidental. Ela e Leymah Gbowee foram as primeiras liberianas a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, em 2011, dividido com a iemenita Tawakel Karman, líder pró-democracia do movimento pelos direitos das mulheres e pela imprensa livre no Iêmen. Ellen e Leymah foram eleitas pelos esforços de valorização das mulheres e pelas ações não-violentas para por fim à guerra civil no país. Além disso, Ellen Sirleaf foi a responsável pela primeira transferência pacífica de poder na Libéria em quase 50 anos, depois que o partido dela, o Unity Party, foi derrotado no segundo turno das eleições liberianas de dezembro de 2017.

Mainara (O Não): No meu TCC, eu pesquiso sobre a evolução histórica do uso do estupro de mulheres em conflitos armados. Como, por que e quando o estupro passou a ser considerado arma de guerra. É sabido que o estupro de mulheres sempre ocorreu em todos os conflitos, desde os tempos remotos. Porém, esse debate passou a fazer parte das RI’s apenas na década de 90, principalmente após os conflitos de Ruanda e da Bósnia. Entretanto, mesmo após surgir um movimento de securitização em torno da violência sexual em conflitos armados, a partir das resoluções da ONU sobre o tema, isso continua sendo comum e tem sido utilizado, também, em missões de paz. Nesse sentido, queria saber a sua opinião. Qual é a importância de se adotar as perspectivas de gênero, nos pós conflitos, e quais são os desafios? Porque as resoluções focam mais na ocupação de mulheres em cargos de poder. Porém, sabemos que a questão do patriarcado, do machismo e da masculinidade são estruturais.

Existe um relatório da Anistia Internacional de 2008 que afirma que o estupro, que a violência de gênero, é um problema Mundial e acontece em todos os países em maior ou menor grau, acentuando-se dentro do período de guerra. A própria Ellen Sirleaf escreveu um relatório em 2002, quando ela estava fazendo consultoria para a ONU, falando exatamente isso e descrevendo como isso acontecia dentro do conflito. Porque muitas das vezes, o indivíduo estupra alguém do outro grupo étnico para que essa pessoa engravide do seu grupo étnico e gere descendentes seus ou você provoca o aborto em uma mulher do outro grupo étnico para que o grupo étnico dela não gere descendentes. A situação de violência de gênero aumenta em conflitos.

Para Beatriz, a masculinidade não é algo que você consegue encontrar características específicas, no sentido de que é quase como se fosse um papel que os homens em geral assumem. O homem pode estar em um momento de fortalecer essa masculinidade ou não. Sendo que toda essa masculinidade gerou um processo histórico de criação do Estado, do nacionalismo, do colonialismo e isso vai se refletir em uma economia política, em todas as outras questões.

Beatriz: “Sendo que eu não acredito que só ser mulher é suficiente para que você tenha políticas que sejam voltadas para mulher. Porque nós mulheres fomos criadas dentro dessas estruturas, a gente tende a repetir esses padrões, vide várias mulheres que estão apoiando esse governo e são ministras no governo atual. Você ser mulher não necessariamente faz com que você tenha essa capacidade. Precisamos de uma outra leitura e isso é muito complicado, como é que você escolhe quem são essas mulheres?”

Mainara (O Não): Como os costumes influenciaram as políticas adotadas pela presidenta? O que de fato ela conseguiu realizar? Porque essa questão do costume, querendo ou não, influencia bastante. Algumas violências nem são enxergadas como violências em algumas comunidades justamente por serem algo enraizado e que vem se repetindo historicamente por tantas gerações.

Beatriz: “A ONU começou a promover campanhas de conscientização sobre estupro e violência de gênero, com participação da Ellen. Li alguns relatos de pesquisadores que foram a campo e eles falavam que os chefes dessas tribos, ou populações locais, começaram a notar algumas pequenas mudanças nas mulheres, que já não estavam aceitando tão facilmente algumas decisões que antes eram tomadas por esses chefes mais locais. Sendo sincera, acabei não acompanhando o governo do sucessor da Ellen. Então eu não consigo te dizer se houve continuidade dessas políticas, mas o que eu acho que foi importante dentro do governo, foi uma mudança de mentalidade em alguns sentidos e a criação de infraestrutura que melhoraram o país, apesar de ainda ser necessário fazer muito.

Beatriz salienta que a Libéria possui dificuldades econômicas muito sérias. A questão da fome e da pobreza, muitas vezes vão vir primeiro que as questões de gênero. Até porque para a mulher se emancipar ela precisa ter trabalho, ela precisa ter oportunidade.

Mainara (O Não): Você menciona no começo do seu artigo que os países africanos são os mais impactados com a questão da violência sexual, principalmente por causa da quantidade de Estados falidos presentes na região. Você também cita que, pelo fato de a noção de Estado ser europeia é mais difícil para os estados africanos promoverem ações de reconstrução do estado, após o conflito, justamente porque essa ideia de Estado é europeia, não levando em consideração a questão da autodeterminação. Essa discussão sobre a violência sexual nos conflitos veio concomitantemente ao desenvolvimento das teses das novas guerras. Você concorda que esse assunto só veio à tona, principalmente, porque o estupro foi usado como arma de guerra em conflitos europeus, ou seja, se, por acaso, tal prática não tivesse ocorrido da maneira que foi, em conflitos europeus, não seria tão debatido?

Beatriz: “Eu acredito que sim. A mobilização internacional quando uma vida branca é afetada é muito maior do que quando uma vida negra é afetada. Isso é histórico, isso é mensurável, isso é claro. Houve uma preocupação muito maior com a Bósnia do que teve com Ruanda, isso é algo que pra mim é muito claro dentro das relações internacionais. Isso vai desde coisas pequenas a coisas grandes. O quanto se falou de ataques ao Charlie Hebdo, à queima da catedral de Notre Dame e o quanto a gente não fala de massacres diários na África, ou no Brasil, ou na América Latina”.

Mainara: Você acha que o processo de reeducação de gênero tanto para mulheres quanto para homens é realmente eficaz ou é só uma medida paliativa?

Beatriz: “Acredito que o processo de reeducação e de repensar o gênero seja fundamental, mas ele precisa ser ligado à outras mudanças. Mudança política, mudança institucional, acesso ao emprego, renda, educação, saúde. Todos os pilares precisam ser trabalhados. Não adianta só mudar a mentalidade se o resto da estrutura não acompanha. Ou mudar só a estrutura e a mentalidade não acompanhar. O processo precisa se contínuo e junto. Mas como fazer isso dentro de sociedades que são tão ecléticas?”

Beatriz Azevedo Coutinho é graduada em Relações Internacionais pelo INEST-UFF e mestre em Relações Internacionais pelo IRI-USP. Faço parte das MaRIas desde 2017. Atua na coordenação das áreas de comunicação e prospecção. A área de pesquisa principal é Gênero e RI, mais especificamente Violência Sexual e de Gênero; Gênero, Paz e Segurança; Gênero e Desenvolvimento; Teorias de Gênero, em especial do Sul Global. Com as MaRIas desenvolve uma pesquisa sobre mulheres na academia e como a pandemia as afetam.

Contato: beatrizazevedoc@gmail.com

Mainara Gomes é Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Sua linha de pesquisa sempre foi gênero, relações internacionais e segurança internacional . No TCC pesquisa sobre a evolução histórica da percepção do estupro como arma de guerra em conflitos armados, com recortes de gênero e segurança internacional.