O diálogo entre o transfeminismo e as relações internacionais

Atualizado: 1 de fev.

Com o fito de questionar a implantação do patriarcado, junto a monopolização do poder social, político e econômico pelos homens, o feminismo luta para que as mulheres deixem de ser vítimas de diversas formas de opressão social e econômica, a fim de erradicar discussões e práticas sexistas.

Nesse sentido, observa-se que o machismo estrutural expressa-se no meio social através de violações contínuas e inadmissíveis às mulheres. Entre elas, pode-se destacar o assédio e a violência sexual, a representação política feminina ínfima no Congresso Nacional, a alta mortalidade materna, a criminalização do aborto e a educação sexista. Em síntese, infere-se que o movimento feminista, apoiado e defendido por um grupo denso de mulheres ao longo dos anos, existe, essencialmente, com o objetivo de erradicar o sofrimento feminino diante dessas e das demais injustiças e desigualdades sociais, as quais são resultantes de uma mentalidade machista enraizada na sociedade.

Todavia, um grande desafio é imposto a esse movimento no momento em que essas mesmas mulheres se conscientizam que, apesar de estarem postas em um mesmo grupo, elas não são iguais e, portanto, não gozam dos mesmos direitos e privilégios. A fim de exemplificar esse cenário, observa-se que mulheres brancas e negras são vítimas de machismo, entretanto, essas últimas ainda sofrem com o racismo e, com isso, elas se distinguem, à medida que não recebem o mesmo tratamento no meio social. Ainda, podemos destacar as mulheres transgêneras, as quais sofrem com a transfobia e, por isso, possuem pautas e necessidades diferentes do restante desse imenso grupo de feministas mainstream.

A partir disso, o movimento feminista foi ramificado com a criação de diferentes vertentes teóricas, as quais objetivam a não exclusão de pautas e agendas relevantes a diferentes congregações de mulheres. Tendo em vista essa realidade, a presente publicação pretende apresentar e esclarecer as pautas de uma corrente feminista pouco divulgada e aludida: o Transfeminismo. Sob essa ótica, também serão discutidas as questões de gênero no campo das Relações Internacionais.

Por definição, o Transfeminismo é uma corrente feminista voltada especialmente às questões de transgeneridade. Com isso, essa baseia-se em uma forma de pensamento e prática que discute a subordinação morfológica do gênero e o entende como uma construção psicossocial do ser humano, a qual pode ser influenciada pelos padrões históricos e culturais uma vez estabelecidos a cada um de nós.

A frase de Simone de Beauvoir "Não se nasce mulher, torna-se mulher" expressa justamente a ideia supracitada. Nesse sentido, torna-se problemático acreditar no determinismo biológico e na ideia de uma suposta natureza feminina, uma vez que existe uma construção e uma imposição social, estabelecida antes mesmo do nascimento, em relação ao que é ser mulher. Quando menina, a criança é estimulada a gostar de rosa, não devendo brincar com carrinhos, mas sim com suas bonecas. Esse cenário revela a existência de uma construção social - e não biológica - do feminino e exige-se que a mulher se enquadre nela.

No entanto, o Transfeminismo salienta que a compreensão das diferenças entre sexo - como biologia - e gênero - como construção psicossocial - se restringe à academia, não sendo incorporados majoritariamente pela sociedade, especialmente em seus elementos legais e burocráticos. E, por isso, uma pauta importante dentro da agenda transfeminista baseia-se no combate à violência físico-verbal, a qual reflete uma violência discursiva institucionalizada, com o uso de palavras e discursos que deslegitima e ojeriza a pessoa trans.

Ademais, a respeito da agenda transfeminista, tem se como pauta importante o combate a violência cissexista, a qual estabelece que as pessoas trans devem estar abaixo de pessoas cis, afirmação que se baseia em um conjunto de noções e pensamentos discriminatórios. Junto a isso, a temática de corpo-positividade e empoderamento às pessoas trans também é evidenciada no movimento, a fim de erradicar a invalidez projetada à essas pessoas e em seus genitais e corpos, dentro de uma perspectiva biológico-cisgênera, a qual enxerga a mulher como possuidora da vagina e o homem como possuidor de um pênis.

Nesse sentido, o movimento vai contra as opressões baseadas na norma binária, a qual insiste na classificação e separação rígida entre o feminino e o masculino, estabelecendo funções sociais específicas e divergentes aos homens e as mulheres. Assim sendo, os fundamentos de tal corrente teórica são baseados na consciência política, na resistência de pessoas trans e no feminismo negro, abrangendo a interseccionalidade das opressões. Salienta-se que o Feminismo Interseccional se refere a como cada indivíduo sofre opressões com base nas diferentes categorias sociais em que se encaixa, em relação ao gênero, raça, classe, etnia, deficiência, sexualidade.

Dessa forma, infere-se que o Transfeminismo é um movimento recente, pouco divulgado e discutido no Brasil e no mundo. Assim sendo, entende-se que a visibilidade de pessoas transgêneras é de suma importância para a luta pela transformação social, a fim de proporcionar reconhecimento, inteligibilidade e igualdade de direitos a todes.

Tendo em vista esse contexto, a presente publicação também pretende discutir tal movimento a partir das questões de gênero no campo das RI. Sabe-se que as Relações Internacionais, tanto em prática como em disciplina, existem no mesmo plano social onde os homens são dotados de centralidade. Teóricas feministas da área apontam para a clara definição de gênero na fundamentação e desenvolvimento do ambiente internacional. Conforme o apelo da disciplina foi crescendo, expandiu-se a análise para aparar, também, o pensamento feminista — em seus moldes mais gerais. Assim como a política doméstica, as relações internacionais são, e sempre foram, um campo dominado e caracterizado por colocações de gênero entendidas socialmente como masculinas. É uma área de homens, pensada por homens em termos masculinos e praticada majoritariamente por estes..

As colocações de gênero marcam fortemente o pensamento dos atores e teóricos do campo internacional. Pensa-se em guerra, economia e diplomacia em termos patriarcalistas. Se as Relações Internacionais fossem — como muitas outras áreas de estudo e atuação — pensadas com a inclinação às mulheres certamente ter-se-ia uma série de práticas completamente diferentes do que é observado corriqueiramente. As pautas feministas são, desse modo, transpostas do cenário doméstico para o internacional e as questões discutidas por suas diversas vertentes são associadas a problemáticas de larga escala no âmbito das RI 's. Assim como em sua contraparte doméstica, a construção de análises feministas no cenário internacional são dotadas de diversificações de abordagem para especificar e contemplar diferentes grupos de mulheres e suas necessidades. O modo que se pensa sobre as mulheres vítimas de crimes de guerra constantes em regiões orientais são, essencialmente, diferentes do modo que se pensa a importância da participação ativa feminina em países ocidentalistas.

De Enloe a Shepherd e de Shepherd a Tickner, mulheres vêm criando um espaço para o uso de uma visão fundamentalmente feminista em um ambiente demarcado, historicamente, pelo paroquialismo do pensamento tradicional patriarcalista. Ao longo do desenvolvimento teórico da disciplina — acompanhada pela constante mudança social, na prática — abriu-se caminho para que se possa explorar temáticas de gênero que têm se alavancado e popularizado. Ainda assim, um substrato específico das mulheres permanece à margem do pensamento feminista, bem como das estruturas básicas das relações internacionais. As mulheres trans são contempladas sob os grupos de analistas que trabalham com questões de cunho decoloniais, mas existem em um limbo social, dada a dificuldade enfrentada por estas em galgar seu lugar de fala em um ecossistema classista e profundamente tradicional.

Os estudos transfeministas e suas perspectivas são nas RI 's, assim como em outras áreas, sublocados entre estudos ‘queer’ e feministas, existindo como uma variação à margem em mais de um sentido. Do mesmo modo que critica-se o posicionamento ainda muito acadêmico do movimento interseccional - ainda não adotado abertamente nos ambiente político sociais - critica-se o movimento feminista das Relações Internacionais que, apesar de explorar certas nuances de 'gender matters', ainda falha em considerar o substrato crescente de pessoas abrangidas pela agenda transfeminista.

É essencial que conforme as pesquisas na área venham a se desenvolver, o foco do feminismo nas Relações Internacionais passe a abranger, também, as lutas do movimento transfeminista. Não se trata aqui de subsumir as problemáticas de um grupo de mulheres ao panorama amplo do feminismo mainstream, mas sim trazer maior visibilidade às questões transfeministas a partir de coligações de movimentos e abertura de espaço para vozes marginalizadas internacionalmente. Além disso, como dito anteriormente e suportado por teóricas como Shepherd - apoiadas nos escritos de Judith Butler -, às Relações Internacionais são intrínsecas ao entendimento de gênero construído socialmente.

Autores como Sjoberg (2012) tem levantado essa bandeira e apontado para a importância de se entender o privilégio cisgênero como um axis essencial para a análise político social do cenário internacional. De acordo com a autora, é sumária a necessidade de se pensar para além do óbvio e considerar "tipos de opressão tão normalizados, que se tornam invisíveis" (Sjoberg, 2012).

A intersecção entre Feminismo Interseccional e a abordagem queer são incidentais para o desenvolvimento plausível de novos modos de análise e estudo dentro da área das RI e, espera-se que com a crescente visibilidade dos movimentos de gênero, o Transfeminismo ganhe espaço como um elemento fundamental dos estudos, teoricamente, revolucionários da área.



Referências


BORNSTEIN, Kate. Gender Outlaw: On Men, Women, and the Rest of Us.

JESUS, Jaqueline Gomes de (org.). Transfeminismo: teorias & práticas. Rio de Janeiro: Editora Metanoia, 2014. 206 pp. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/article/view/1807-1384.2015v12n1p389/29672

SJOBERG, Laura. Toward Trans: Gendering International Relations? International Political Sociology vol. 6. Dec, 2012.