• Patrícia Berniz

TRABALHO ESTRANHADO EM MARX


Karl Marx, grande estudioso das transformações sociais ocasionadas pelo advento do capitalismo, expôs em sua obra “Manuscritos econômico-filosóficos” (2010) as grandes incompletudes das explicações que a Teoria Econômica Clássica fornecia sobre os elementos formativos da Economia Política do século XIX. Segundo Marx, essa linha teórica pecava ao não relacionar conceitos como: trabalho, salário, propriedade privada e lucro. Fato esse que naturaliza os fenômenos que contrapõem esses conceitos e os encara como um fato dado, o que a torna uma análise inconsistente. Sendo assim, a teoria marxiana se lança numa tentativa de interligar esses elementos — provenientes do sistema capitalista — com os outros aspectos da vida social, a fim explicar a realidade material e suas contradições.

O conceito de “trabalho estranhado”, concepção que exerce influência significativa até os debates atuais, é trabalhado por Marx com a finalidade de explicar os movimentos da economia. Conhecido como “trabalho estranhado” ou “alienação do trabalho”, essa concepção se fundamenta na explicação de que o modelo de produção do sistema capitalista faz com que o trabalhador não exerça qualquer tipo de identificação ou reconhecimento com o produto de seu trabalho. Isso acontece porque o trabalhador se encontra, na concepção de Marx, em um estado de completa alienação, no qual não possui mais ciência da completude de sua atividade produtiva; não reconhece o resultado de seu trabalho como parte de si; não possui consciência de si no processo produtivo e encara seu quociente produtivo como alheio de si mesmo.

Uma vez que Marx entende que as relações sociais são frutos do modo de produção vigente, o autor estende a ideia de estranhamento para outros setores da vida social argumentando que ao estranhar o seu produto, o trabalhador também estranha a natureza. Entretanto, o homem compõe a natureza e se encontra em plena conexão com ela. Então, ao estranhar a natureza, o homem entranha a si mesmo, já que a natureza dá ao homem sua perspectiva fundamental, a de humanidade. Neste ínterim, a contradição da sociedade capitalista se desnuda, pois quanto mais o trabalhador produz, mais melindrosa é a sua condição.

O trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadorias cria. Com a valorização do mundo das coisas (Sachenwelt) aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens (Menschenwelt). O trabalho não produz somente mercadorias; ele produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e isto na medida em que produz, de fato, mercadorias em geral. (MARX, 2010, p.80)

Marx explana que todo o processo de alienação provocado pela objetivação do trabalho e apropriação de terceiros sobre o produto, desemboca numa negação do trabalho, tornando-o uma atividade vital ao invés de operar como uma ratificação da condição livre e consciente que os homens possuem, de forma que trouxesse sentido para a sua vida genérica. Por esse motivo, o estranhamento do trabalhador com o seu produto, em última instância, causa o estranhamento do homem com seus semelhantes, o que explica o estranhamento e oposição do trabalhador com quem se apodera de seu produto.

Por fim, é de suma importância pontuar que o trabalho não alienado dá ao homem uma dimensão de pertencimento ao todo e faz com ele enxergue a si mesmo como parte da humanidade, reconhecendo sua essência genérica. Por esse motivo, a emancipação do homem só será possível com a superação total do trabalho estranhado, o que, por sua vez, está intrinsecamente relacionado à abolição da propriedade privada.