• Maria Tereza

SURGIMENTO DA IUGOSLÁVIA - PARTE 1


O processo de criação do Reino dos Eslavos do Sul (Iugoslávia) se insere no final da Primeira Guerra Mundial e está associado ao colapso do Império Austro-Húngaro. A priori, este esfacelamento aconteceu para que houvesse equilíbrio do poder depois da Primeira Guerra Mundial. No novo Estado do leste europeu, coexistiam populações que não possuíam muitas coisas em comum e eram inimigas históricas em outros aspectos, o que marca a multiplicidade cultural.

A Iugoslávia tornou-se independente em 1929 e em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, sofreu um processo de fragmentação quando tropas alemãs invadiram seu território. A invasão nazista dividiu a população entre grupos favoráveis e contrários a presença dos invasores. A questão primordial dessa invasão é que a Iugoslávia conseguiu sozinha expulsar o exército nazista, graças a dois grupos de guerrilha: as Tropas Paneslavas, lideradas pelo Coronel Dragoljub Mihailovic, e os Partesanos de orientação comunista, liderados pelo Marechal Josip Tito.

Com a vitória partisan sobre os exércitos de ocupação, Tito reunificou os territórios iugoslavos sob a ideologia comunista. A nação ganhou status de federação, garantindo autonomia e soberania às suas seis repúblicas: Croácia, Sérvia, Eslovênia, Macedônia, Bósnia-Herzegovina e Montenegro, além de duas regiões autônomas na Sérvia, Vojvodina e Kosovo. Assim, a Iugoslávia era constituída por cinco nacionalidades, quatro principais religiões, três idiomas e dois alfabetos distintos. Apesar da diversidade étnica, linguística e religiosa, não ocorreu nenhum conflito nacionalista ou movimento de resistência ao Estado da Iugoslávia nos primeiros quinze anos de sua formação (SEVERO, 2011, p.68).

Por ser uma figura muito carismática, o Marechal Josip Tito ascendeu politicamente e passou a liderar a Iugoslávia. Sob seu comando, foi criada a República dos Estados Socialistas da Iugoslávia e durante o período da Guerra Fria, mesmo sendo uma República Socialista, o Estado não foi aliado direto da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). O governo iugoslavo não obedecia irrefletidamente às ordens de Moscou, tornando-se uma exceção dos países da Cortina de Ferro.

Por ser um Estado criado para tentar contemplar a divisão existente desde o final da Primeira Guerra Mundial (LOUREIRO, 2017, p. 44)*, no ano de 1918, houve a necessidade de idealizar a identidade nacional para que, desta forma, ocorresse a união política. O resultado desse processo foi a consolidação de um Estado com várias nações e com uma identidade nacional frágil, na qual não havia harmonia entre os diversos povos que formavam a unidade governamental, sendo, portanto, sua criação a busca por um senso coletivo capaz de proteger os cidadãos do que ficou conhecido como “política do medo” (sémelin, 2009, p 99). Como destacado por Keegan (1995):

A política de Tito de sobrepor uma campanha pan-iugoslava, pró comunista e anti-Eixo à teia de conflitos étnicos e religiosos, colaboracionistas e ante colaboracionistas locais já em andamento, como também de romper todas as tréguas onde quer que as encontrasse, teve de fato o efeito de transformar muitas guerras pequenas numa única guerra. (KEEGAN apud AGUILAR; MATHIAS, 2011, p. 71)


Brukner (1971) afirma que a criação da Iugoslávia só foi possível graças ao comunismo e da estratégia que utilizava o medo do ressurgimento dos massacres ocorridos nas guerras como recurso de mobilização nacional. Noutra via, as políticas implementadas por Tito foram uma tentativa de neutralizar as diferenças que poderiam ameaçar a unidade do país, objetivando fazer com que as minorias tivessem o sentimento de pertencimento àquela nação.

Como resultado, a nação muçulmana ganhou espaço, concebendo os eslavos mulçumanos, como sendo um dos poucos povos europeus identificados por esta religião. Os bósnios mulçumanos (bosniaks) também faziam parte desse grupo no qual a religião era a “definição de etnia”, ou seja, a religião definia o grupo.

Essa identidade nacional ainda seria o estopim para os movimentos de independência, pois assim que os estados que faziam parte da Iugoslávia passassem a proclamar sua independência um conflito étnico ia surgindo.



*A eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) promoveu mudanças no mapa europeu. Entre suas consequências, fronteiras foram refeitas e novos Estados nacionais formados na península balcânica. Afinal, um dos motivos para o conflito foi o escalonamento das tensões entre o Império Austro-húngaro e o Reino Sérvio, que reivindicavam controle sobre território peninsular. Ademais, com o avanço da Guerra e o enfraquecimento do Império Habsburgo, intensificou-se a disputa territorial. Essa disputa foi agravada pelo Tratado de Londres (1915), que cedia regiões com população eslava à Itália, em troca de apoio contra a Tríplice Aliança. (LOUREIRO, 2017, p. 44-45)