Solidariedade, laços e memória: a resistência de Água Negra em Torto Arado

Por Ríllari Ferreira Castro e Silva

O livro “Torto Arado” (Todavia, 2019) é extremamente sensível ao retratar a história de crescimento e luta das irmãs Belonisia e Bibiana, no interior do sertão baiano. Para quem apenas escuta falar brevemente sobre a obra, esta pode não demonstrar motivos para grande repercussão, mas, ainda nas primeiras páginas, a produção mostra toda a sua grandiosidade e poder, ao tratar de assuntos que são considerados, por vezes, “já solucionados”. O romance inicia no momento em que as duas irmãs descobrem uma faca dentre os objetos pessoais da avó e, entre as brincadeiras com o objeto, uma delas corta parte da língua. Após esse acontecimento, uma das irmãs perde parte da capacidade de comunicação e tem de se comunicar, principalmente, por meio de gestos, e através da ajuda da outra irmã. Ainda que esse acontecimento inicie a história, esta vai muito além, pois, ao mostrar as dificuldades vividas pela irmã que perdeu parte da língua e da irmã que a auxilia, a história retrata as mazelas permanentes da escravidão dentro do território nacional.

Durante toda a narrativa, a relação com a terra é uma constante, tanto para os personagens que sobrevivem no sistema de escravidão, quanto para os personagens que perpetuam esse sistema. Contudo, há visões e entendimentos diferentes sobre a função dessa terra. Para os personagens subalternos (termo cunhado pela autora indiana Gayatri Spivak) e que, consequentemente, sobrevivem ao sistema de escravidão, a terra tem uma função social, pois dela tudo se tira, dela tudo se sai. Porém, para os personagens que se auto intitulam “donos da terra”, esta é apenas uma maneira de lucrar. Com isso, a violência que estes “donos” aplicam, uma vez que a terra tem como fim o lucro, ultrapassa gerações e se torna uma variável constante na narrativa dos subalternos.

Ao se auto-intitularem “donos da terra”, esse grupo apenas reforça heranças coloniais dos seus próprios ascendentes, os colonizadores, perpetuando relações coloniais mesmo após o fim burocrático da colonização e da escravidão. Esse fenômeno de continuidade das relações coloniais, introduzido por Aníbal Quijano, é chamado de “Colonialidade”, reforçando que é um (?) erro tolo do colonialismo e imperialismo, ao acharem que retirando bandeiras e forças policiais do território colonizado, estariam “quites” com os povos colonizados (FANON, 2005).

Quijano (2010), ao expor sobre colonialidade, chama atenção para a forma que a estrutura colonial de poder produz discriminações sociais, fator latente na narrativa, especialmente quando os gerentes da fazenda (subalternos) agem com tom de superioridade para com os trabalhadores, discriminando-os, como se, de certa forma se equiparassem completamente aos ditos “donos da terra”. Assim, o subalterno crê ser superior, de alguma maneira, por conta do mito disseminado pelo colonizador (“dono da terra”), fazendo com que as relações de desigualdade se aprofundem cada vez mais.

Um ponto que chama muito a atenção é a questão dos saberes adquiridos e acumulados por Zeca Chapéu Grande, pai das duas irmãs, saberes estes que vão desde conhecimentos sobre a terra e fases da lua até o nascimento de uma criança. Dentro da comunidade, Zeca é muito respeitado e age como uma liderança interna para os seus iguais, mas para os “donos da terra”, ele é apenas mais um “zero à esquerda”. Isso acontece pois, como afirmado por Dussel (2010), a Europa se consolidou como centro e início de todo mundo, ignorando tudo que era produzido em outras partes, desconsiderando completamente conhecimentos que não eram registrados através da escrita e sim passados de geração em geração por meio da oralidade.

É possível notar, muitas vezes, o racismo religioso vindo dos “donos da terra”, dado que os personagens subalternos têm como religião o jarê, uma fusão entre religiões de matriz africana, matriz indígena e catolicismo. Zeca era o grande curandeiro e referência do jarê na região e, por isso, muitas pessoas iam até ele para tratarem seus males. Mas ao passo em que os seguidores do jarê não tinham receio algum dos dons de Zeca, as figuras que estavam na posição de dominantes demonstravam o contrário, pois, em algumas situações agiam de maneira peculiar com receio de que Zeca se voltasse contra eles e praticasse algum tipo de “feitiço”. Nesse momento, entra mais uma vez a questão da colonização, que, além de ter arrancado povos do seu local de origem, fez enormes grupos de pessoas acreditarem que apenas há apenas uma religião a ser seguida.

Assim, a obra é um romance sob a ótica singular de três mulheres ou representações ligadas ao feminino que foram silenciadas, pelo seu gênero, por sua raça, por sua forma de ser e estar no mundo. Belonisia por ter perdido parte da língua e não conseguir expressar-se tão bem; Bibiana por não ser escutada, mesmo que conseguisse falar perfeitamente e Santa Rita Pescadeira, a santa que não tem forma corpórea que não teve meios para se expressar. Assim, volta-se à questão de Spivak (2010), “pode a/o subalterna/o falar?” e, mais uma vez, se conclui que a/o subalterna/o pode até tentar falar, mas não será ouvido pela figura dominante colonizadora, que não tem a mínima preocupação em ouvi-la/o. A figura dominante não se presta a ouvir, pois sabe, inconscientemente ou não, que é culpada por ter dado início a toda a violência, não apenas a colonial.

O questionamento latente e final é: como lutar contra um sistema se, por vezes, precisa-se dele para sobreviver? Como lutar contra um sistema se não se tem a força, seja ela física ou psicológica, necessária para isso? A população de Água Negra nos responde que a união entre os seus, a união da comunidade, a resistência em conjunto é o primeiro passo. Pode não ser o mais rápido, mas, ainda assim, é um grande e poderoso passo.


REFERÊNCIAS


DUSSEL, Enrique. Meditações Anticartesianas sobre a origem do antidiscurso filosófico da modernidade. In: Epistemologias do Sul. 1. ed. [s.l.] Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses, 2010.


FANON, F. Os Condenados da Terra. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.


QUIJANO, A. Colonialidade do Poder e Classificação Social. In: Epistemologias do Sul. 1. ed. [s.l.] Boaventura de Sousa Santos e Maria Paula Meneses, 2010.


SPIVAK, G. C. Pode o subalterno falar?. Belo Horizonte, MG: Editora UFMG, 2010.


VIEIRA JÚNIOR, Itamar. Torto arado. São Paulo: Editora Todavia, 2019.