• Lucas Ramos

Sintomas do fascismo

Atualizado: Fev 18



Quando falamos da história humana, poucos movimentos políticos se mostram tão únicos em sua capacidade de transformação de uma população quanto o fascismo. Estados fascistas como o de Benito Mussolini, Adolf Hitler e Francisco Franco se mostraram capazes de tornar sua população não só hostil perante grupos minoritários, como também ativamente genocidas.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o movimento fascista pareceu ter sido terminado de uma vez por todas, com governos concordando de forma unânime a lutar contra o ressurgimento de governos fascistas. Infelizmente, governos fascistas continuaram existindo ao redor do mundo, muitas vezes endossados pelos mesmos países que se diziam democráticos.

O que vimos nos últimos anos, porém, foi a ascensão de novos movimentos neofascistas, que agora utilizam de técnicas sutis para, aos poucos, convencerem populações que a única escolha para o progresso de seus países é o do ódio e da segregação.

De acordo com Robert Paxton, cientista político estudioso do Fascismo, em seu livro “A anatomia do fascismo”: “O fascismo tem que ser definido como uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia as liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza.”

Desta forma, é importante que entendamos exatamente o que é o fascismo, o que ele representa, e como ele pode ser derrotado. Apesar de muito diferentes entre si, cada movimento fascista tem algumas características, ou “sintomas” que podem ser percebidos de forma muito semelhante entre todos.

O primeiro sintoma que devemos discutir é o chamado “Passado mítico”. Dentro dos Estados fascistas, vemos claramente o culto ao passado, no sentido de retornar a um ponto no tempo no qual o país tinha prosperidade e problemas mínimos. Esse passado na realidade é romantizado, com problemas e dificuldades comuns para qualquer sociedade real.

Desta forma, os fascistas falam da tradição e dos “bons costumes” para justificar suas ações extremistas que ultimamente vão contra a própria existência de grupos minoritários naquela sociedade.

Outro sintoma importante é o anti-intelectualismo e a rejeição à ciência. Nos Estados fascistas o que se percebia era a rejeição a instituições de ensino, colocando aqueles como os “inimigos da nação”, além de praticarem a perseguição e substituição daqueles que não se alinham ao pensamento dominante.

“Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” essa é a frase atribuída ao ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, que mostra perfeitamente o sintoma da irrealidade no fascismo. Nesses Estados as teorias da conspiração e o fenômeno conhecido hoje como “fake news” são usados para convencer as massas do inimigo a ser derrotado.

De acordo com Hannah Arendt em seu livro, “Origens do totalitarismo”: “Elas não acreditam em nada visível, na realidade de sua própria experiência; elas não confiam em seus olhos e ouvidos, mas apenas em sua imaginação (…). O que convence as massas não são fatos, nem mesmo fatos inventados, mas apenas a consistência do sistema do qual supostamente fazem parte. Repetição […] é importante apenas porque, com o tempo, as convence da coerência com o tempo.”

Um dos sintomas mais marcantes desse movimento, porém, é o ultranacionalismo. Com isso, Estados fascistas mostravam orgulho extremo pela sua identidade como país, colocando-se acima dos demais, além de colocarem a face desta nação por eles idealizada como a face do governante fascista. Lemas como “America First” de Donald Trump foram herdados deste ultranacionalismo, que coincidentemente (ou não) é o mesmo lema de simpatizantes da Alemanha nazista dentro dos Estados Unidos na década de 1930.

Desta forma podemos perceber, como dito pelo cientista político Jason Stanley em seu livro “Como funciona o fascismo”, que “O sintoma mais marcante da política fascista é a divisão. Destina-se a dividir uma população em “nós” e “eles”.” Entendendo esses sintomas, o fascismo pode ser detectado e eliminado em seus estágios iniciais.


Referências:

ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo: Antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. 1. ed. São Paulo: Companhia de Bolso, 2013. p. 1–832.

PAXTON, Robert O.. A anatomia do fascismo. 1. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2007. p. 1–420.

STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo: A política do “nós” e “eles”. 1. ed. Porto Alegre: L&PM, 2018. p. 1–208.

TROTSKY, Leon. Como esmagar o fascismo. 1. ed. São Paulo: Autonomia Literária, 2018. p. 1–258.

WASHINGTON POST. President Trump’s ‘America First’ slogan was popularized by Nazi sympathizers. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/posteverything/wp/2017/01/20/president-trumps-america-first-slogan-was-popularized-by-nazi-sympathizers/. Acesso em: 13 jan. 2021.


Escrito por Lucas Ramos (lucaslicoramos@gmail.com)