• O Não Internacionalista

SECRET CITY: UM THRILLER GEOPOLÍTICO



Muitos podem ver a Austrália e enxergar nesse país uma sociedade rica e cosmopolita, e ainda por cima com uma localização excepcional: difícil de invadir devido ao seu isolamento e, mesmo se alguma nação conseguisse invadir, a parte mais rica e povoada está protegida por um imenso deserto: o Outback. No entanto, mesmo que essa visão esteja parcialmente correta, ela se baseia em um frágil equilíbrio meticulosamente mantido pelo país austral. Essas delicadas circunstâncias são o tema da série Secret City, da Netflix, lançada em junho de 2016.

A série é protagonizada pela jornalista Harriet Dunkley, interpretada por Anna Torv, que cobre a política da capital australiana, a fria Canberra. Na primeira temporada, ao sair para correr de manhã, Dunkley vê policiais retirando um corpo de um lago e ela sente que alguma conspiração está acontecendo. Mais tarde, a jornalista descobre um elo entre esse rapaz e uma ativista pró-Tibet australiana que, recentemente, pôs fogo a si mesma como protesto, em Pequim. E para agravar a situação, os avanços territoriais chineses no Mar do Sul da China, onde por volta de 60% do comércio australiano perpassa, alarmam os Estados Unidos, que pedem ao governo australiano apoio em uma demonstração militar na região.

Apresenta-se diante de nós o desenrolar do dilema australiano, entre a aliança histórica da Austrália com os Estados Unidos, e a próspera relação econômica com Pequim, o principal parceiro comercial de Canberra. A amizade australiano-estadunidense não é nova e vem gerando frutos para ambos os países desde a Primeira Guerra Mundial, que fundamentou a tradição do país austral de enviar seus soldados para acompanhar as empreitadas militares da nação anglo-saxônica do Norte. Um exemplo recente dessa parceria é a presença australiana na Guerra do Afeganistão, igualmente retratada na série. Contudo, essa iniciativa não é pura caridade fraternal: em troca desse auxilio, os Estados Unidos se tornam responsáveis pela proteção e pelo patrulhamento da Austrália, um elo encarnado pelo pacto ANZUS - tratado internacional celebrado por Austrália, Nova Zelândia e EUA.

A relação com a China é mais recente, sendo a principal investidora na indústria mineira australiana e primeiro parceiro comercial do país ao sul do Equador. Por isso que, na série, a questão da ativista australiana cativa em uma prisão chinesa em meio aos crescentes embates militares entre as duas potências mundiais é tratada com extremo cuidado desde o primeiro momento. Esse incidente ficcional talvez seja uma referência à vez em que Dalai Lama foi recebido pelo Primeiro Ministro australiano em 2007, o que despertou o desgosto de Pequim.

Não querendo desagradar a superpotência ocidental, mas ao mesmo tempo evitando comprometer as vantajosas relações sino-australianas, Canberra encontra-se em uma situação difícil, pontuada por espionagem, desaparecimentos e ciberataques. Em pleno 2021, o mundo retratado por Secret City, em meio a Guerra Comercial EUA-China e a pandemia de COVID-19, mostra que a tensão bipolar está cada vez mais acentuada e as consequências complexas que esse processo traz ao resto do planeta não é mais mera ficção: é uma realidade.


Secret City é uma série original Netflix, de 2016 e dirigida por Emma Freeman, Tony Krawitz e Daniel Nettheim.


FONTE:

CASPIAN REPORT. “Geopolitics of Australia”: CaspianReport 2016. 1 vídeo. 14:27. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3MkZsvrxXxI&t=38s (Acesso em 25 de Junho de 2021)


DEPARTAMENTO DE NEGÓCIOS ESTRANGEIROS E COMÉRCIO DA AUSTRÁLIA. “Australia in the World: Trade”. Disponível em: https://www.dfat.gov.au/about-australia/australia-world/Pages/trade (Acesso em 24 de Junho de 2021)


EMBAIXADA AUSTRALIANA NOS EUA. “Australia-US Defence relationship”. Disponível em: https://usa.embassy.gov.au/defence-cooperation (Acesso em 24 de Junho de 2021)


EMBAIXADA CHINESA NA FRANÇA. “Conférence de Presse 12 juin 2007”. Disponível em: http://www.amb-chine.fr/fra/jrzg/t330208.html (Acesso em 24 de Junho de 2021)


SOBRE O AUTOR: Anghel Valente é bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Cândido Mendes e mora no Rio de Janeiro. Diplomacia cultural, multilateralismo, integração regional e o Sul Global são suas áreas de interesse. Instagram: @a.valente.ufo