Posicionamento da FIFA e UEFA diante de manifestações políticas

Por: Mainara Gomes e Marcos Sordi


A Federação Internacional de Futebol (FIFA) é a entidade máxima do futebol. No artigo 14 de seu Estatuto, deixa evidente que é proibido manifestações políticas e religiosas em campo e, por isso, deve-se permanecer “neutro”. Entretanto, não há como ignorar o fato de que existe uma relação entre política e futebol e de que esse esporte é uma forma de manifestação de poder e pode ser utilizado como uma ferramenta política, dentro e/ou fora de campo. Assim, a relação entre ambos é indissociável.


Nesse sentido, embora a FIFA e as instituições desportivas tentem “proibir” manifestações, elas ainda ocorrem, pois a relação entre futebol e política é estreita. Isto é, desde o surgimento desse esporte, na Inglaterra, até o momento atual, são inúmeros os casos em que “o jogo nunca é apenas um jogo” e, dessa forma, possui outras dimensões, seja pelo fato de uma rivalidade política tornar-se uma rivalidade de jogo, ou porque, em algum momento, jogadores e/ou torcedores se manifestaram acerca de alguma situação que ocorrera no mundo. Porém, como mencionado anteriormente, esse tipo de atitude é proibido pelo Estatuto da Fifa e por diversas outras instituições esportivas.


É importante ressaltar que devido à globalização, surgiram vários atores internacionais para além dos Estados e das Organizações Internacionais. A FIFA, enquanto Organização Internacional Não Governamental (OING), conquistou uma grande importância no Sistema Internacional, tornando-se capaz de influenciar política e juridicamente no mundo do futebol, principalmente por meio do megaevento Copa do Mundo. Do mesmo modo, por ser uma OING, a FIFA adota algumas regras internacionais, como o respeito aos Direitos Humanos, por exemplo, além de pregar pelo não preconceito, não discriminação e pela igualdade no âmbito do futebol (SAMPAIO, 2021; RODRIGUES, 2015).


Surpreendentemente, o fato de a Instituição “defender” esses ideais não faz com que ela se posicione a respeito de algo que vai de encontro a essas questões. Por exemplo, na Copa do Mundo de 2018, a seleção mexicana foi punida pela FIFA, por ecoar hinos homofóbicos ao goleiro da seleção desse mesmo país. O que é curioso pois, ao mesmo tempo que a seleção mexicana foi punida, a Copa do Mundo foi realizada em um país onde ser homossexual é crime.


Além do mais, há situações em que a Instituição proíbe manifestações de jogadores e/ou torcedores ou pune atitudes consideradas proibidas, ao mesmo tempo em que, em alguns casos, esse tipo de medida não é aplicada. Aqui se faz a seguinte indagação: por que é proibido em alguns casos e em outros não? Por que os países ocidentais, principalmente, não sofrem punições quando “ferem” o Estatuto, mas os países orientais, sim? Houve diversas situações em que política e futebol se misturaram, de forma óbvia, mas que, para a Fifa, foi legítimo, ao passo que, em determinados momentos, a mesma atitude, agora feita por países fora do escopo Ocidental/Norte-Americano, foi considerada digna de punição.


Vale mencionar que um dos pré requisitos para que o país seja eleito como sede da Copa do Mundo é o respeito às liberdades fundamentais e aos Direitos Humanos. É imprescindível que Tratados Internacionais de Direitos Humanos sejam seguidos pelos países, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (SAMPAIO, 2021), por exemplo. O que é curioso, visto que o país sede da Copa do Mundo de 2022 será o Catar, e o Mundial de Clubes de 2021 foi realizado em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, países que são reconhecidos internacionalmente por suas constantes violações aos Direitos Humanos.


O que, paralelamente, nos leva a recordação de que a maior parte da receita anual da FIFA é gerada por mega eventos esportivos, como a Copa do Mundo, cisto que, com o aumento dos acessos aos meios de comunicação, principalmente televisivos, a FIFA passou a ter como a maior parte de sua receita anual, os direitos de transmissão. “Segundo o Relatório Financeiro da FIFA de 2014, a organização arrecadou cerca de 2 bilhões de dólares nesse mesmo ano, valor no qual 90% de sua composição é da renda relacionada a eventos” (FIFA, 2015, apud RODRIGUES, 2015, p. 67).


Não há como esquecer o fato de que não há neutralidade dentro do esporte, pois a própria neutralidade já é uma forma de posicionamento e, para além do fator “capital”, temos o fator “eurocêntrico” e norte-americano da Instituição, visto que os EUA não sofreram punições esportivas pelas instituições futebolísticas quando invadiram o Iraque, o Irã e o Afeganistão, por exemplo. Por outro lado, o Irã já sofreu sanções esportivas, em 1986, quando da Revolução Iraniana. Em 1994, a mesma Instituição suspendeu a Iugoslávia das Eliminatórias da Copa, por causa das Guerras dos Bálcãs, e a Líbia, após romper suas relações diplomáticas com os EUA e alguns países europeus, devido à sua política contra Israel - país este aliado dos EUA.


Outro caso que gerou punição pela FIFA foi quando o jogador do Sevilla, Frederick Kanouté, em 2009, após marcar um dos gols, mostrou uma camisa escrito “Palestina” em vários idiomas. Essa manifestação aconteceu após ataques de bombas feitos por Israel, que matou inúmeros civis; o que não aconteceu quando jogadores ucranianos se manifestaram contra a Rússia, a favor da paz e contra a invasão de Putin. Ainda a respeito desse acontecimento atual, a FIFA, juntamente com a UEFA (União das Federações Europeias de Futebol), órgão gestor do futebol na Europa, decidiram suspender a Rússia de competições internacionais, como a Copa do Mundo, a Liga dos Campeões, entre outros.


Ainda podem ser citados outros inúmeros exemplos: por que o Newcastle United F.C., time inglês recentemente comprado por um grupo de investidores da Árabia Saudita, não está sendo punido até o dia de hoje (21/03)? Por que o Chelsea, que era o clube do investidor russo Roman Abramovich, vem sofrendo com punições que envolvem os âmbitos financeiro e esportivo? Por que times como o Paris Saint-Germain, do xeique catariano Nasser Al-Khelaifi, não recebe punições da mesma forma que o time londrino? Ou o Manchester City, do emiradense Mansour Al Nahyanda?


Cabe o questionamento: onde estavam essas mesmas instituições quando países do Oriente Médio sofreram bombardeios, mortes e invasões dos EUA, com respaldo de Organizações Internacionais e países europeus? Por que em alguns casos, há punições e manifestações são proibidas, e em outros, não? Essa política da FIFA, de interferir em acontecimentos geopolíticos, valerá para todos os casos? Ou apenas quando não interferem no seu capital e para países que não fazem parte do mainstream? Onde está a tão defendida “neutralidade” da FIFA?


REFERÊNCIAS

DIÁRIO DO NORDESTE. Jogador recebe multa por manifestação pró-Palestina. Diário do Nordeste, 2009. Disponível em: <https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/jogada/jogador-recebe-multa-por-manifestacao-pro-palestina-1.930717?page=14>. Acesso em: 13 março 2022.


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GOMES, M; SORDI, M. Nunca é só um jogo: a relação entre política e futebol. O Não Internacionalista, 2021. Disponível em: <https://www.onao.com.br/post/nunca-%C3%A9-s%C3%B3-um-jogo-a-rela%C3%A7%C3%A3o-entre-pol%C3%ADtica-e-futebol>. Acesso em: 12 março 2022.


MIX VALE. Veja seleções que, como a Rússia, ficaram fora de Copas por guerras e razões políticas. Mix Vale, 2022. Disponível em: <https://www.mixvale.com.br/2022/03/03/veja-selecoes-que-como-a-russia-ficaram-fora-de-copas-por-guerras-e-razoes-politicas/>. Acesso em: 12 março 2021.


OLIVEIRA, D. Punições da Fifa e os contratos de jogadores que atuam no futebol russo. Conjur, 2022. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2022-mar-04/daiane-oliveira-punicoes-fifa-jogadores-futebol-russo#:~:text=Em%20resposta%20a%20essa%20invas%C3%A3o,do%20pa%C3%ADs%20at%C3%A9%20segunda%20ordem.>. Acesso em: 13 março 2022.


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RODRIGUES, M. R. O papel político das organizações desportivas internacionais: o caso Fifa. In: RODRIGUES, M. R. O poder institucional da FIFA como um ator não estatal na política internacional. 2015. 106f. Dissertação de Mestrado - Universidade de Coimbra, Coimbra. 2015. Disponível em: <https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/30120/1/O%20Poder%20Institucional%20da%20FIFA%20na%20Politica%20Internacional.pdf>.


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