• Fábio Agustinho

Política Econômica do Lulismo



Em junho 2009, enquanto a economia mundial se via em maus lençóis devido à crise do subprime, a revista “The Economist” colocava em sua capa a imagem do Cristo Redentor alçando voo aos céus como um foguete espacial. A ilustração fazia referência à rápida recuperação do Brasil dos efeitos da crise econômica mundial. Esses resultados, que levaram o país a ser considerado um exemplo a ser seguido pelo restante do globo, foram conquistados pela política econômica — sustentada no aumento do consumo das famílias, em uma política fiscal expansionista e uma política monetária mais branda — que levou ao crescimento econômico de toda a Era Lula. Sem desconsiderar os méritos do lulismo em possibilitar a ascensão social e econômica de grupos que antes viviam às margens da sociedade, é preciso olhar para esse período a partir de uma perspectiva crítica que revele os problemas estruturais desse modelo de desenvolvimento econômico.

A questão mais discutida nessa perspectiva é o papel do agronegócio no chamado sucesso da Era Lula. Com o “boom das commodities” — alimentado pelo crescimento da economia chinesa na primeira década do século XXI -, o setor agroexportador passou a realizar lucros extraordinários e, consequentemente, a ser um poderoso ímã de dólares para a economia brasileira. A situação externa era tão favorável que possibilitou ao governo realizar a valorização da moeda nacional sem riscos de colocar a balança comercial no negativo. A entrada de dólares na economia, por sua vez, abriu caminho para o aumento das importações que, com a redução do desemprego e o aumento do salário mínimo, foram consumidos por diversas camadas da sociedade brasileira. Apesar dos bons resultados conjunturais, o aumento das exportações intensificou o processo de reprimarização da economia e diminuiu a participação da indústria no PIB brasileiro, o que deu continuidade à “dessubstituição de importações” iniciada no Plano Real, isto é, o aumento das importações de produtos que antes eram produzidos internamente.

Além de o crescimento do consumo das famílias ser acompanhado pela deterioração das cadeias produtivas internas, a ascensão social dos mais pobres apenas foi possível às custas da transferência de dinheiro público para o setor privado, a partir de isenções fiscais e subsídios governamentais. O maior exemplo dessa tentativa de agradar a gregos e troianos foi o programa Minha Casa Minha Vida, no qual o subsídio para os moradores dos conjuntos habitacionais também foram acompanhados de subsídios muito mais vantajosos para as construtoras; juntando, assim, a materialização do sonho da casa própria de muitas pessoas com a geração de emprego e os interesses de grandes empresas. A melhoria nas condições de vida da população também foram enraizadas em programas de transferência de renda — como o Bolsa Família e o Fome Zero — e investimos públicos que apenas puderam ser postos em prática enquanto a situação seguisse trazendo ganhos para os representantes do mercado. Afinal de contas, se a entrada de dólares e a expansão do crédito eram essenciais para a política econômica lulista, era necessário que o Brasil apresentasse “confiabilidade” aos investidores privados para que eles colocassem dinheiro no país. Conclui-se, portanto, que as conquistas da Era Lula só puderam ser concretizadas graças ao recrudescimento da heteronomia da economia brasileira frente aos grandes capitais privados estrangeiros e nacionais.