• Patrícia Berniz

PERSPECTIVAS SOBRE O FUTURO DE PAÍSES LATINO-AMERICANOS: entrevista com Carolina Pedroso



A Carolina Pedroso é bacharela em Relações Internacionais pela PUC-SP, mestre e doutora pelo programa de pós-graduação San Tiago Dantas e atualmente leciona a matéria de teoria política na UNIFESP. A teórica foi a nossa convidada para uma da entrevista que tinha como objetivo traçar um panorama da atual conjuntura da América Latina, uma vez que possui experiência com assuntos relacionados aos países latino-americanos.


1- Semana passado tivemos o resultado oficial das eleições peruanas, que foram bastante acirradas. Desta forma, como você avalia a conjuntura nacional e internacional para o mandato de Pedro Castillo e por qual motivo você acredita que mesmo reivindicando um legado familiar diante dos setores sociais mais conservadores, a candidata Keiko Fujimori não venceu?

Resposta: De fato, desde o primeiro turno, as eleições peruanas foram bastante perturbadas, pois num primeiro momento o cenário eleitoral contava com quatro candidatos promissores, mas o segundo turno foi disputado por figuras extremas no espectro político. De um lado temos a Keiko Fujimori, que é filha do ex Fujimori e tentou resgatar o legado do pai que foi presidente do Peru entre os anos 2000, e do outro temos o Pedro Castillo, que se configura como uma novidade da política peruana, pois o país possui um histórico de liderança de direita ou centro direita e Castillo é professor sindicalista que ganhou visibilidade numa greve pela educação em 2017 e representa uma vontade de mudança à esquerda.

O primeiro ponto que chama atenção na vitória de Castillo é o fato dele não ser um político tradicional, esse será o primeiro cargo nacional majoritário que ele ocupará, o que carrega um aspecto positivo, visto que os últimos anos no Peru foram extremamente instáveis no âmbito político, fato que desembocou no envolvimento de todos os presidentes eleitos de 2001 até 2021 em escândalos de corrupção. Neste sentido, o Pedro Castillo descola desses escândalos. Tratando rapidamente dessa corrupção, um episódio interessante é que ela é bastante similar ao caso brasileiro, pois se trata de envolvimentos ilícitos de presidentes com empreiteiras brasileiras, o que se encaixa dentro dessa lógica que chamamos de lava-jatismo. Proveniente disso, certamente, depois do Brasil o Peru foi o país que mais sentiu politicamente os efeitos das investigações sobre lavagem de dinheiro e corrupção. Voltando a falar de Castillo, o que potencializou o desejo de mudança da população e acabou por levar o educador à presidência foi o fato de o Peru ter vivenciado um dos piores cenários pandêmicos da região, contando com o maior número de mortos, proporcionalmente falando, e com diversos protestos juvenis contra a corrupção. Um outro aspecto interessante sobre sua figura é a rejeição que ela sofria pelas classes médias, altas e sobretudo por Lima, a capital do país, que possui tradicionalmente uma inclinação conversadora e que ao longo da campanha tentou relacionar Castillo ao chavismo e ao perigo do comunismo, pois ele de fato se apresenta como um candidato marxista-leninista, mas possui uma trajetória muito diferente de Chavéz, que possuía desde o começo um projeto bastante militarista para a Venezuela, algo que não se vê na campanha do peruano. Por um outro lado, o interior da nação, fez com que Castillo garantisse a vitória contra Keiko.

A partir disso, a gente observa que são dois candidatos que apresentavam uma rejeição muito grande por lados opostos da sociedade, pois mesmo não sendo muito adepta ao Fujimorismo, votou na Keiko para fugir do Castillo, da mesma maneira que as classes que têm horror ao Fujimorismo e aos anos de terror do autogolpe, poderiam até não ser amantes do sindicalista, mas preferiram ele a voltar para a tradição Fujimori. Esse pode ser um grande resumo do cenário,

Em relação aos desafios que o Castillo enfrentará, o primeiro fator será o congresso que se encontra composto, em sua maior parte, por figuras conservadoras, uma vez que seu partido conseguiu um número relevante de cadeiras, mas ainda não é maioria, o que é uma problemática marcante do quadro peruano que já levou à queda de outros presidentes. Esse fato é decorrente do poder que o congresso tem de tirar um presidente e seus ministros contando apenas com maioria simples. Além dessa situação de refém dos movimentos do congresso, ainda há a desconfiança em torno do professor e seu histórico. Sobre a derrota da Keiko, sem dúvidas os escândalos de corrupção que envolvem a família dela foram um forte motivador, inclusive, recentemente ela foi condenada por ter uma relação com um esquema de lavagem de dinheiro com a Odebrecht. Neste sentido, a Keiko até saiu fortalecida por seu partido ter conquistado o segundo maior número de cadeiras no congresso, mas ela se encontra numa situação bastante delicada no que tange à justiça, um fator bem importante para compreender sua derrota.

No Âmbito internacional, o Pedro Castillo também enfrentará polarização, principalmente em relação aos seus vizinhos, pois alguns deles possuem receio de uma radicalização política no Peru. Vamos pensar que o Peru é vizinho da Colômbia, um país tradicionalmente muito conservador; do Equador, que acabou de passar por uma mudança política ao eleger um banqueiro da direita tradicional e neoliberal e faz fronteira com o Chile, que está passando por um processo diferente. Logo, Castillo é um contraponto para essa onda conservadora. Se pensarmos, por exemplo, para o Brasil de Bolsonaro, sua eleição é péssima, pois simboliza a perda de um aliado importante.


A Bolívia ter se declarado um país plurinacional foi um marco para a luta dos povos indígenas na América Latina. Você pode comentar um pouco sobre o que significa essa plurinacionalidade e como ela é vista nas políticas do país?

A Bolívia é um caso muito interessante pois foi um país que passou por muitas mudanças políticas com a ascensão do Evo Morales. Ele foi o grande responsável, enquanto presidente, de promover uma mudança constitucional que incluiu essa questão da plurinacionalidade em toda a estrutura do Estado Boliviano. Como sabemos, a Bolívia é um país, que assim como boa parte dos países andinos, possui uma herança ancestral indígena muito forte, mas que durante séculos esse grupo não conseguiu chegar ao poder, basta olharmos o retrato dos presidentes que governaram esses países nas últimas décadas, todos eles de descendência hispânica que, de certa forma, acabavam por manter essa estrutura colonial de exaltação da cultura ocidental e europeia, em detrimento dos saberes ancestrais. Logo, o reconhecimento da plurinacionalidade na Bolívia vem justamente na contramão de toda essa tendência histórica, pois reconhece a importância desses povos, valoriza os saberes ancestrais e inclui, no ordenamento jurídico, e portanto, as políticas públicas, essa característica plural do Estado boliviano. Neste aspecto a constituição boliviana é uma das mais avançadas da América Latina, pois, por exemplo, no Brasil, nós temos um reconhecimento dos povos indígenas, que estão protegidos pela constituição e deveriam ter a suas reservas garantidas, contudo, na Bolívia a questão está para além disso, a constituição inclui o fato deles não serem apenas bolivianos, mas deles serem aymaras, ketchum. Portanto, ela reconhece essa pluralidade e pode ser vista como uma amostra da diversidade na unidade, que é o símbolo da whipala, aquela bandeira colorida que os povos andinos costumam usar, bem como inclui dentro dessa cultura eurocêntrica, que o Estado nacional, a importância desses povos, fazendo com que eles se façam representados e que tenham suas tradições preservadas. Sem dúvidas essa é uma das grandes conquistas que a Bolívia conseguiu promover nesses últimos anos.


O Chile e as lutas populares que levaram à nova constituinte são motivo de grande otimismo para os latino-americanos. Você pode explicar, de maneira mais geral, como aconteceu esse processo e como será a criação dessa nova constituição?

Para a gente entender um pouco mais esse processo de mudança constitucional que está começando agora em 2021 no Chile, precisamos voltar um pouco no tempo. Estamos há um ano e meio na pandemia e um pouco antes da chegada do vírus à América Latina, já haviam eclodidos protestos em Santiago que receberam bastante atenção midiática, pois durante muito tempo se criou no imaginário latino-americano essa ideia de o Chile ser um país estável, sem grandes movimentações, sem descontentamentos populares, que possuía uma economia pró-mercado e liberalizada. Sendo esse último fator muito vendido como algo positivo que ocorreu durante a ditadura do Pinochet e deixou frutos para o período democrático, mas essa ideia começou a ser desmontada em 2019 e é curioso porque o estopim desses grandes protestos de massa foi o aumento da passagem do transporte público- algo que afeta diretamente nosso cotidiano e que nós brasileiros já vivenciamos- então, é bem interessante pensar que uma decisão unilateral que prejudica a população mais pobre promoveu uma catarse coletiva que abriu portas para outras questões que estavam latentes, mas que não conseguiam espaços para se manifestar. Nessa ocasião, os estudantes se organizaram para protestar pelo preço da passagem e isso acabou abrindo margem para a sociedade questionar uma série de descontentamentos que estavam presentes, mas ainda não haviam saído à luz. Para termos uma ideia, todos esses processos de liberalização do Estado chileno acabaram implicando em políticas cujos resultados só acabaram por ser sentidos agora. Então, estou me referindo à política da privatização da previdência, que se tornou completamente privada no país, não existindo mais uma previdência governamental como temos ainda no Brasil com a estrutura da previdência social. Essa política foi decidida nos anos 1970, porém só agora houve interferência na previdência dessa população que começou a se aposentar agora, o que gerou descontentamento na prática, pois o Chile é um dos países que menos assiste seus idosos, esse grupo fica sem condições financeiras de manter o mínimo de bem-estar, pois a aposentadoria não dá conta. Neste sentido, não é à toa que o Chile tem uma das maiores taxas de suicídio da terceira idade, pois esses idosos não possuem renda suficiente para custear suas próprias necessidades e também não querem ser um estorvo para a própria família. Logo, essa situação de colapso misturada com a revolta dos estudantes se tornou o espaço perfeito para a manifestação de insatisfações com as políticas públicas e com o Estado chileno, que por mais que seja um país rico e próspero, não estava conseguindo garantir o bem-estar da maioria da população. Um outro ponto relevante de se demonstrar e que contempla essa situação de caos é que o Chile é um país no qual a educação e a saúde não são públicas, gratuitas e universais.

Diante desse contexto, quando os chilenos saem às ruas, o que eles encontram é mais repressão, o que aumenta ainda mais a revolta e o coeficiente de insatisfação. A pandemia chega no país, os protestos continuam em outros formatos ou até mesmo na rua, o que é muito importante porque o Chile tem conseguido vacinar sua população muito por conta da pressão que o povo tem feito nas ruas. Então, a partir dessa grande revolta que tem início em 2019, começa um movimento de tentar se livrar dessa grande herança da ditadura, desse contra senso democrático que é a constituição chilena de Pinochet, o que motivou desde 2020 o processo constituinte que tem característica muito importantes como a igualdade de gênero e uma ampla preocupação social. Algo que é bastante interessante, pois a América Latina estava passando por uma crise, que se agravou com a pandemia, e ver essa movimentação dando frutos é realmente uma inspiração para o restante dos continentes.


Como você avalia a integração entre os países latino-americanos nessa era de governos conservadores?

A integração regional na américa latina foi um processo que se tornou muito mais forte no final dos anos 80 e que vem passando por diferentes ondas políticas. Nós tivemos a era da redemocratização; a era neoliberal; a chamada onda rosa com caráter mais progressista e agora nós temos essa onda mais conservadora, que mesmo apesar dessas movimentações políticas, o que se observa é que independente dos debates políticos-ideológicos, a integração ainda caminha, mesmo de maneira não linear, pois ela é uma necessidade imaterial, pois se queremos nos desenvolver, precisamos no integrar. Contudo, a depender do ciclo político no qual a América Latina se encontra, a integração acaba apontando mais para um lado financeiro, econômico e comercial ou mais para um lado social e político.

Para entender melhor o impacto que essa onda conservadora causa sobre a integração regional, é importante mencionar o desmonte da Unasul, que é uma arranjo político de países latino-americanos que se formou por meio de um processo que estava em curso desde os anos 1990 e tem como objetivo aproximar politicamente os países latino-americanos para criar espaços de concertação política sem a presença de potências externas. Com os anos, essa organização virou pauta política que deu base até para a fala do Cabo Daciolo que falava sobre a URSAL.

Voltando a tratar do desmonte, um fato interessante é que meses antes da pandemia chegar aqui o conselho de saúde da organização foi dissolvido, o que deixa o questionamento “o que seria de nós se esse conselho ainda tivesse ativo e pudéssemos ter articulado políticas públicas na contenção da disseminação do vírus e do controle das fronteiras?”. A falta desse órgão fez com que cada Estado conduzisse a pandemia a sua maneira, tendo algumas condutas se saindo melhores e outras piores. Uma característica muito forte desses governos conservadores é justamente destruir todo o legado da onda rosa, estando incluído nisso a UNASUL, o que não significa, como já mencionado, que esses governos estão abrindo mão da integração, um exemplo é a proposta de criação da PRÓ SUL, que seria a mesma coisa que a UNASUL, mas seria formada por governos conservadores. A única diferença é que ela não está funcionando, enquanto a Unasul tinha um poder de articulação e organização muito maior do que a pró-sul vem demonstrando ter, principalmente ante esse problema global que demanda ações coletivas. Portanto, essa é a forma como governos conservadores vêm se apropriando do ideal de integração, colocando um viés muito mais financeiro na frente da preocupação social e da promoção do bem-estar.


Você acredita que a eleição de Alberto Fernández na Argentina, os protestos na Colômbia e a nova constituição do Chile simbolizam um enfraquecimento dos movimentos conservadores na América Latina?

Eu não veria por essa perspectiva, eu diria que os movimentos conservadores na América Latina são uma constante, pois ela é uma região conservadora desde sua origem, o que simboliza uma herança clara da colonização que está presente em diversos fatores, como na maneira que nossas elites se relacionam com as potências externas e nas mentalidades que possuem uma forte síndrome de vira-lata, que despreza nossas raízes e valoriza o importado. Por isso, eu prefiro avaliar esses eventos recentes como um processo natural da AL de disputa de projetos.

É de suma importância ter em vista que a AL é constituída por movimentos que agrupam os países que a compõem. É claro que cada país possui suas peculiaridades, mas não é à toa que a América Latina possui esse nome, ele faz sentido, pois mesmo com cada particularidade, existem ciclos comuns que englobam todos os países em algum momento. Diante disso, eu diria que o atual contexto não é nem de fortalecimento nem de regressão do conservadorismo, mas sim uma conjuntura de conflitos, de tensionamentos de projetos, pois em outros momentos históricos um lado conseguiu se sobrepor ao outro, o que gerou uma certa sensação de estabilidade, mas que agora já se encontra instável. No geral, esses momentos de conflito e debate geram angústias porque não sabemos para onde a região vai, o que deixa o clima violento e inseguro, mas os saldos dessas transformações tendem a ser positivos.

Para concluir essa questão, é importante ressaltar que o nosso processo de redemocratização aconteceu há pouco tempo, a cultura democrática não está consolidada e a sociedade está aprendendo a lidar com contradições e divergências. Essa ascensão conservadora gerou uma reação em pessoas que não necessariamente tinham aversão ao conservadorismo, mas que na prática não gostaram da experimentação do fenômeno. Logo, esse é um processo de aprendizagem social, que é bastante doloroso e demorado, mas que vale muito a pena para consolidar valores que ainda não se encontram tão sólidos.