• Juliana Saleme

Parece até uma distopia

Por Juliana Saleme





Títulos como os produzidos por George Orwell e Margaret Atwood há tempos deixaram de ser ficções para se tornarem alertas do que o universo que conhecemos pode se tornar.

A ficção está cada vez mais próxima de ultrapassar a linha frágil que a separa do mundo real, o que, consequentemente, facilita a percepção de seus contrastes. De maneira que o avanço conservador tal qual em O Conto da Aia, as necropolíticas em Jogos Vorazes ou O Ceifador, e a censura em Fahrenheit 45 preencheriam perfeitamente a pauta desse texto. No entanto, em todas as vezes em que as políticas internas e externas se mostraram tão escatológicas a ponto de serem comparadas a gêneros da ficção, a que mais parece ter vindo diretamente das páginas de um livro, anime ou jogo distópico é a Pandemia de Coronavírus.

Nesse caso, a autora Margaret Atwood, que costuma definir suas obras como “ficções especulativas”, poderia muito bem ter previsto o que aconteceria conosco no início de 2020. Seu romance Oryx e Crake, publicado em 2003, é uma fábula tão clara do que a autora acredita vir a seguir para a história da humanidade, que ela poderia muito bem ser lida como uma obra profética. O livro conta a história de Jimmy, agora conhecido como Homem das Neves, após sobreviver a um apocalipse que assolou a terra e relegou aqueles poucos que restaram a um amargo isolamento, reféns de seus próprios habitats. Jimmy revive constantemente em sua memória como era a vida antes de tudo se tornar um caos, assim como muitos de nós fazemos agora — “Como eu queria ir ao cinema!”, “Nunca mais vou trabalhar em home office!”, “Carnaval o ano inteiro para compensar o tempo perdido!”.

A questão a respeito disso é que reviver as memórias desse passado aprazível e distante requer algo que, assim como Jimmy, só algumas pessoas possuem — oportunidade.

No universo pensado por Atwood, seu personagem principal, Jimmy, costumava viver nos Complexos, espécies de cidades criadas pelos conglomerados multinacionais onde a elite financeira do planeta residia enquanto mantinha-se afastada da Plebelândia, a parte designada à população desprivilegiada.

Só depois de algum tempo foi que percebi que o personagem principal e todos os outros sobreviventes que aparecem ao longo do romance vieram dos Complexos. Aqueles que residiam na Plebelândia foram os primeiros a morrer, sem ao menos terem a chance de reviver a memória do mundo pré-apocalíptico, e mesmo que tivessem essa oportunidade, o livro não esconde que essas lembranças não seriam das mais agradáveis.

Depois de entender esse ponto, imediatamente observei o quanto isso se conjuga com o cenário atual e a situação do Covid-19 no Brasil e no mundo.

Dados expostos por diversos veículos de pesquisa e informação, mostram que a parcela da população mais afetada pelo vírus é aquela em situação de vulnerabilidade social. Circunstâncias de racismo, assimetrias sociais, acesso desigual aos sistemas de saúde, moradia inadequada e impossibilidade de se isolar colocaram a população mais frágil igualmente como a mais afetada pela pandemia.

Segundo a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a população mais pobre do Brasil tem duas vezes mais chances de ser infectada pela Covid-19 do que a população rica. Para o epidemiologista Pedro Hallal, reitor da UFPel e autor do estudo, mesmo que o vírus tenha chegado ao país através das pessoas com maior nível econômico, a partir do momento em que ele atinge a comunidade, aqueles em níveis mais pobres da população serão os mais afetados. A mesma pesquisa constatou que a situação se torna mais grave em relação à população indigena, principalmente pela fragilidade econômica em que se encontram muitos desses indivíduos.

Para a população preta, o cenário também é bastante negativo. De acordo com o Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde — PUC-Rio, após analisar cerca de 30 mil casos de notificações de Covid-19, sob variáveis demográficas e socioeconômicas da população, constatou-se que aproximadamente 55% de pretos e pardos morreram, enquanto 38% eram pessoas brancas. A pesquisa salientou que a porcentagem de óbitos foi maior entre pessoas negras em todas as faixas etárias e em todos os níveis de escolaridade.

Essa situação não é exclusiva do Brasil, nos Estados Unidos, dados colhidos pela “APM Research Lab” constataram que a taxa de mortalidade pela Covid-19 entre negros foi de 50,3 por 100 mil pessoas, em comparação a 20,7 para brancos.

No Reino Unido, números do “Office of National Statistics” monstram que ingleses e galeses negros têm três vezes mais chances de morrer por Covid-19 do que homens brancos.

Nas palavras de Emanuelle Góes, doutora em saúde pública pela Universidade Federal da Bahia e pesquisadora do Cidacs/Fiocruz sobre desigualdades raciais e acesso à serviços de saúde. “As pessoas negras nos EUA e no Reino Unido também são as que vivem em locais periféricos de menos acesso, menos fornecimento de serviços e com maior prevalência de comorbidades. O que muda são os sistemas de saúde”. — As palavras de Góes reforçam que o enfrentamento à Pandemia provocada pelo Coronavírus vai muito além da esfera da Saúde, e deve ser analisado dos pontos de vista social, econômico e político, na mesma medida.

Dito isso, Oryx e Crake não conta a história dos sobreviventes da Plebelândia, porque elas não tiveram a oportunidade de mostrar sua versão dos fatos, como fez Jimmy. Suas vozes foram silenciadas não pelo caos apocalíptico que abalou a Terra, mas sim pela fragilidade social em que viviam muito antes dele começar.

Da mesma forma como acontece nesse momento, fora das páginas dos livros, a covid-19 não é a única responsável pelas mortes e perdas inestimáveis, mas um agravante para um cenário de desigualdades sociais anterior a ela.

Ao meu ver, nós ainda não fomos capazes de superar as características mais primitivas do ser humano, e o que eu acredito ser uma das distopias mais antigas já criada, o Estado de Natureza hobbesiano, provavelmente esteja mais próximo da nossa realidade do que qualquer uma das ficções contemporâneas.

O ser humano está cada vez mais perto dos carros voadores e do robôs faz-tudo, — “Alexa por favor acesse o site do ONão Internacionalista” — mas ainda não consegue agir em prol da coletividade, principalmente se nessa coletividade estiverem presentes todos os indivíduos e não somente aqueles com os quais me identifico. A obra de Atwood e a Pandemia de Coronavírus têm, entre todos os traços em comum, o egoísmo e a necessidade de repensar nossa identidade enquanto ser humano.

No fim, apesar de ser uma obra muito bem escrita, a leitura de Oryx e Crake se tornou bastante incômoda quanto mais profundas se mostravam as suas intersecções com a realidade e quão espessos são os vincos que precisamos ultrapassar para controlá-la.

Fontes:

https://graphics.reuters.com/world-coronavirus-tracker-and-maps/pt/

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54339632

https://brasil.un.org/pt-br/106842-america-foi-o-continente-mais-afetado-pela-pandemia-de-covid-19-com-mais-de-850-mil-mortes#:~:text=04%20Janeiro%202021-,Am%C3%A9rica%20foi%20o%20continente%20mais%20afetado%20pela%20pandemia%20de%20COVID,cerca%20de%20850%20mil%20mortes.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-55704511

https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/09/23/mais-pobres-tem-duas-vezes-mais-chance-de-ter-covid-do-que-os-mais-ricos-aponta-pesquisa-da-ufpel.ghtml

https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/07/12/por-que-o-coronavirus-mata-mais-as-pessoas-negras-e-pobres-no-brasil-e-no-mundo.ghtml