• Fábio Agustinho

ONDA PROGRESSISTA: Argentina


Poucos meses depois de Lula vencer as eleições presidenciais de 2002 no Brasil, e quatro anos após a vitória de Hugo Chávez na Venezuela, foi a vez da Argentina entrar na onda progressista sul-americana, com o peronista Néstor Kirchner assumindo a direção do país. Diferente de Brasil e Venezuela, que se encontravam em situações de maior normalidade política no período da chegada do progressismo, a Argentina se encontrava em uma conjuntura revolucionária devido aos efeitos da crise econômica causada pelas reformas neoliberais implementadas pela ditadura militar e radicalizadas no governo de Carlos Menem. Protestando contra o aumento do desemprego, da informalidade e da pobreza, a população construiu os movimentos piqueteros, que consistia no congelamento da circulação de mercadorias via o bloqueio de ruas e estradas; e frente ao aumento da proporção de famintos, muitas mulheres passaram a se reunir em escolas para alimentar as crianças da região, experiência que ficou conhecida como comedores populares. A mobilização popular - que entrou para a história como Argentinazo - foi tão grande que conseguiu derrubar não apenas o presidente, mas também os seus quatro sucessores.

Frente à crise política e econômica que a Argentina enfrentava, Néstor Kirchner cumpriu o papel de ser o melhor ator possível para governar um país que aparentava estar se tornando ingovernável. Defendendo a renovação das cadeias produtivas nacionais, a renegociação da dívida externa, a justiça para as vítimas do terrorismo de Estado durante a ditadura militar e a defesa de bons níveis de emprego e renda para a população, o kirchnerismo pretendeu ser um movimento a favor da constituição de um capitalismo nacional. Apesar das boas intenções, as possibilidades reais de implementação de tal projeto eram nulas devido à natureza da burguesia Argentina e do novo modelo de acumulação do capitalismo contemporâneo. Podemos ver, de maneira evidente, a primeira limitação na tentativa do governo progressista em estabelecer um sistema móvel para a tributação agroexportadora, que teve como resposta do agronegócio argentino a incitação de uma série de protestos e paralisações de suas atividades. Tendo sido aprovado no congresso, o projeto não só foi rejeitado pelo senado como o voto que definiu sua derrota foi o do então vice-presidente, Julio Cobos. Apesar de as discussões em torno da tributação das receitas agroexportadoras terem pesado significativamente na sociedade Argentina, elas mantiveram-se dentro da dimensão redistributiva do modelo primário exportador, e não de sua superação.

Tendo em vista a incapacidade de enfrentar os interesses da burguesia argentina dentro dos marcos da institucionalidade, e a ausência de compromisso em romper com essas limitações, restou aos governos Kirchner, portanto, assentar um desenvolvimento econômico centrado na exportação de produtos primários - o que acirrou o extrativismo e os conflitos nas áreas rurais - e em políticas de transferência de renda para garantir condições mínimas de vida à população - medidas necessárias em um contexto onde até mesmo um dos principais movimentos sociais do país, o CTEP, reconhece que não haverá mais emprego para todos. Por mais que essa estratégia de desenvolvimento tenha trazido ganhos no curto-prazo, ela era extremamente dependente da conjuntura internacional favorável do boom das commodities e da entrada de capital estrangeiro na Argentina. Passada a situação favorável, a economia do país começou a se deteriorar, com o aumento da inflação, do desemprego privado e do déficit fiscal, alimentando o descontentamento do povo como o kirchnerismo, levando à derrota deste nas eleições presidenciais de 2015 para Mauricio Macri.