O que o pós 1945 tem a ver com 2022? Entenda o conflito entre Rússia, OTAN e Ucrânia


Texto escrito por Anelise Malta


Recentemente, a região do leste europeu vem conquistando os olhares mundiais em razão de uma crescente tensão envolvendo a Rússia e a Ucrânia, principalmente. Quando falamos desses dois países, esbarramos em questões passadas que contribuíram para a formação do tabuleiro geopolítico contemporâneo. Sendo assim, para que haja uma maior compreensão do cenário atual, é preciso retornar à história e relembrar como a Europa foi remontada, sobretudo após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

Com o objetivo de derrotar a Alemanha nazista e suas ramificações, formou-se um eixo de combate, constituído, principalmente, pelo Reino Unido, França, União Soviética e Estados Unidos; os ditos aliados. Entretanto, após a vitória na guerra, as potências norte-americana (EUA), e soviética (URSS), iniciaram uma disputa em busca da ampliação de área de influência, baseada em duas ideologias completamente distintas, o socialismo defendido pela União Soviética, e o capitalismo, pelos Estados Unidos. O conflito, porém, se restringiu à dominância ideológica e não ao enfrentamento físico, daí o nome: Guerra Fria.

O mundo estava bipolarizado e as duas nações investindo assiduamente na indústria bélica. Após ambos os países dominarem a tecnologia nuclear, tomaram consciência da então destruição mútua assegurada, isto é, ao fazer uso da bomba atômica, os dois países se destruiriam completamente, uma vez que o raio de alcance da explosão era sem precedentes. Estabelecia-se, então, o que foi um impasse, e a disputa chegou ao fim no ano de 1989.

É importante ressaltar que no período em que acontecia o conflito, foram criadas duas alianças militares de mútua cooperação e defesa. Em 1949, com objetivo de conter o avanço soviético, os EUA, por meio do Tratado de Washington, comandou a fundação da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), juntamente com outros países ocidentais. Em resposta à iniciativa, a URSS firmou, em 1955, uma coligação entre os países do leste europeu: o Pacto de Varsóvia, o qual em 1991, após a dissolução da União Soviética e o fim da bipolaridade mundial, deixou de existir, diferentemente da OTAN, que perdura até os dias atuais.

Nas relações internacionais, é sabido que a relevância de um país no sistema internacional pode ser proveniente de alguns aspectos, dentre eles, a extensão territorial. Ao longo das décadas, diversas teorias foram formuladas a partir da análise geográfica dos países, a começar por Alfred Thayer Mahan (1889). O geoestrategista se notabilizou pelo conceito de superioridade naval, isto é, pensando o oceano como unidade e não como algo que separa os continentes, o país que detivesse o controle do mar, necessariamente estabeleceria uma hegemonia militar e econômica, pois teria, então, controle das rotas comerciais marítimas.

Endossando a tese de Mahan (1889), Halford John Mackinder (1904)deu, ainda, o exemplo da influência da Inglaterra, como rainha dos mares. Entretanto, defendia que o conceito de supremacia naval era válido somente até o século XIX, e que a partir do século XX, com o fim da dominância britânica, a teoria mais apropriada seria a ascensão territorial exemplificada por uma área pivô, o Heartland, localizado no centro da Ilha Mundo, no caso a junção dos continentes da Europa, Ásia e África, na qual a Rússia seria o estado pivô, visto que o país possui uma expressiva porcentagem populacional e notáveis recursos naturais.

No entanto, sua localização geográfica impossibilita o acesso a portos em mares quentes, dado que a região litorânea russa é banhada pelo mar Ártico, cujo congelamento ocorre por conta das baixas temperaturas - fato muito interessante que contribui para a construção da geopolítica russa atual. Foi pensado, então, que a integração ferroviária, ligando a Rússia ao restante da Europa e, em especial à Alemanha, remontaria o conceito de dominância territorial, abalando a estrutura da política internacional, pois “Quem domina o Leste da Europa, domina o Heartland. Quem domina o Heartland, domina a Ilha Mundial. Quem domina a Ilha Mundial, comanda o mundo” (MACKINDER, 1919, P. 186).

Os acontecimentos que se sucederam após o fim da Guerra Fria moveram as peças do xadrez e reformularam a visão estratégica dos atores internacionais no que seria o tabuleiro geopolítico atual. Após o desmantelamento da União Soviética, os países que a integravam foram conquistando sua independência, e o que antes era uma só potência, foi desmembrada em várias regiões, sendo a Ucrânia uma delas. O país conquistou sua independência em 1991, tendo Leonid Kravchuk como presidente. Esta movimentação colocou a Rússia em uma posição vulnerável e enfraquecida perante o restante do mundo. Paralelamente a esses episódios, em 1992, após a assinatura do Tratado de Maastricht, nasceu a União Européia, como símbolo da recuperação europeia perante os avanços estadunidenses

No que diz respeito às raízes identitárias, tanto a Ucrânia quanto a Rússia possuem descendência eslava. No século X e XI, a região da Ucrânia era denominada “Rus Kievana”, tida pelos povos eslavos do leste como um seio cultural e estado-potência perante o cenário atual da época, tomando como pátria o que hoje nós conhecemos como Kiev, capital ucraniana. A identidade como fonte de conflito é uma pauta bastante recorrente quando se trata de Rússia e Ucrânia, pois ambas disputam sobre quem seria os descendentes verdadeiros, e mesmo que muitas famílias tenham as duas nacionalidades em sua árvore genealógica, dos 50 milhões de habitantes da Ucrânia, 25 mil, concentrados no leste e sul, falam russo como primeira língua, ameaçando, assim, não só a identidade do país, como também sua soberania. Esta que por sua vez nunca foi bem recebida pela Rússia.

Acentuando a tensão entre as duas nações, saliento que a região do Mar Negro - historicamente pertencente a Turquia, que possui um passado conflituoso com a Russia, abrandado após a Convensão dos Estreitos (1841), fica no território ucraniano, na região da Crimeia, especificamente, sendo o único acesso, por parte dos russos, ao porto de Sebastopol, o que atenua o isolamento do país. Juntamente a sua vulnerabilidade geográfica, é observado, através da topografia, que a região russa é formada, majoritariamente, por planícies, caracterizadas pela falta de barreiras naturais que funcionem como defesa para possíveis invasões de seu território - como fizeram os antigos povos mongóis em Kiev. Isto posto, nota-se que a Rússia sempre teve planos expansionistas a fim de conquistar os países que a permeiam, com o objetivo de estabelecer imponência, fronteiras melhor estabelecidas e, no caso da Ucrânia, manter o acesso às rotas comerciais.

Os atores internacionais estão em constante movimentação, fazendo com que os arranjos do sistema internacional se reorganizem de tempos em tempos, diante de uma mudança na dinâmica. Dito isso, no momento em que a União Europeia e a OTAN observaram certa retração da Rússia após o desmembramento das ex-repúblicas soviéticas, iniciaram uma política expansionista adicionando novos membros, sendo alguns deles esses países recém emancipados. Após a dominância soviética durante a Guerra Fria ter alcançado metade da Alemanha, o ocidente monitora o leste europeu com muita atenção e, apesar das justificativas dessas expansões serem a implementação de regimes democráticos e políticas de mercado nessas regiões, à primeira vista pacifista, se trata, também, de uma política de contenção ao antigo território da URSS.

Do ponto de vista russo, o monitoramento é o mesmo, porém com o adendo de que em função da preservação da segurança de seu território, o país assume uma postura irredutível quando o assunto é a entrada dos países fronteiriços em organizações ocidentais, enxergando qualquer movimento nesse sentido como uma ameaça evidente. Sendo assim, em 2008, após a tentativa da Geórgia de anexar a República da Ossétia do Sul, região onde a maior parte da população é russa, e certa inclinação por parte do país ao ocidente, o exército da Rússia invadiu a Geórgia e reafirmou sua posição a respeito das ações ocidentais. Visto que a Rússia estava investindo em desenvolvimento bélico em busca de se reerguer como potência, os Estados Unidos e a União Europeia optaram então por conter a expansão da OTAN.

Desde sua independência, a Ucrânia é um país que enfrenta constantes instabilidades políticas e econômicas, dificultando sua afirmação como nação. Após 1991, o país vem tentando fazer a transição para o modelo capitalista, porém em meio a um governo marcado pela corrupção, e algumas questões envolvendo o Fundo Monetário Internacional (FMI) - este que cancelou um acordo de empréstimo de 15 bilhões de dólares com a Ucrânia após o então presidente, Victor Yushchenko, promover um aumento de salário e das pensões da população. Yushchenko (2005 - 2010)possui um posicionamento pró-ocidente, inclusive liderou a Revolução Laranja (2004) na Ucrânia antes de ser eleito, entretanto, não cumpriu suas promessas e contribuiu para a falta de transparência do governo. Somado a essas questões, posteriormente, o partido ultranacionalista Svoboda promoveu, na Ucrânia, o fomento ao nacionalismo, xenofobia contra russos e judeus, dentre outras pautas nazi-fascistas.

Durante o governo de Viktor Yanukovich, inspirado pelo desenvolvimento da Polônia - que é uma ex-república soviética - o país iniciou um aceno para a UE, que foi retribuído e estimulado, de certa forma. Foi proposto, então, um acordo de livre-comércio entre o país e o bloco econômico, porém, as negociações falharam e a população foi às ruas de Kiev em forma de protesto. O povo estava dividido entre a parcela da população ucraniana separatista, mais inclinada à Rússia, e a que desejava a aproximação com a União Europeia, entretanto, esse movimento não fazia parte do plano de ação russo. Os líderes europeus abandonaram a população ucraniana - que foi violentamente detida pela polícia - e alegaram que a responsabilidade seria do então presidente. Em 2014, aproximadamente um mês após a derrubada de Yanukovich, foi votado, na Crimeia, por mais de 90% da população, que o território seria anexado à Federação Russa, ferindo a soberania ucraniana.

As tensões recentes tiveram início em 2021, quando a OTAN se inclinou em direção à Ucrânia. Vladimir Putin, atual presidente da Rússia, ao tomar conhecimento da movimentação, iniciou um processo de posicionamento de mais de 100 mil soldados na fronteira com a Ucrânia. Ao tomar essa atitude no intuito de inferir sua influência, não só no país que seria seu principal Estado-tampão, mas também para mostrar ao ocidente que a nação russa não aceitaria a entrada da Ucrânia em blocos ocidentais, conquistou os holofotes midiáticos principais. Detentora de uma localização privilegiada e muito estratégica, a Ucrânia, que já flertou tanto com Moscou quanto com o ocidente, recebe, agora, apoio dos Estados Unidos e da União Europeia, reforçando a ameaça à segurança territorial russa.

Não se sabe ao certo as reais intenções do Kremlin, e mesmo que Putin tenha se pronunciado e informado que uma invasão não está em seus planos, ao mesmo tempo coordena exercícios militares na fronteira, o que causa intimidação dado o tamanho do exército russo comparado ao ucraniano, logo mundo se encontra apreensivo em razão de um cenário imprevisível. O governo estadunidense - que já causa uma desconfiança russa em função de, no governo Trump, ter saído do acordo firmado durante a Guerra Fria, de eliminação de mísseis nucleares de curto e médio alcance, principalmente, - tem encarado a invasão como uma possibilidade real e, além de ter enviado armamentos à Ucrânia, posicionou 3 mil soldados em países aliados e comunicou que, caso a invasão se concretize, irá promover sanções econômicas imediatas a Moscou.

A Europa está dividida. O Reino Unido se alinhou aos EUA, contudo, a União Europeia adotou um posicionamento mais cauteloso, na linha da diplomacia e mediação, feita, principalmente, pela França. Emmanuel Macron tem se reunido com líderes políticos na tentativa de demonstrar que a UE tem a capacidade de dialogar com a Rússia, sem a intervenção dos Estados Unidos. Outro posicionamento interessante é o chinês, que recentemente firmou parceria com a Rússia e está sediando em Pequim os Jogos de Inverno de 2022, distanciado a invasão russa, em função da Trégua Olímpica, além de que que ambas as nações criticam a hegemonia estadunidense proporcionada, também, pela OTAN

A Alemanha se encontra em uma situação um tanto delicada, dado que 40% do gás natural do país é proveniente da Rússia e, em razão dessa relação, em 2011, foi inaugurado o segundo gasoduto, Nord Stream 2, que liga o oeste da Rússia e o nordeste da Alemanha, passando sob o Mar Báltico. Logo, se houver, de fato, um ataque e os países tomarem um lado, a Alemanha, mesmo que apoiasse os EUA, estaria correndo o risco de se prejudicar energeticamente. Diante da crescente tensão, tem sido cobrado do país um posicionamento mais preciso ao passo que acusações de compassividade são feitas tanto pela Ucrânia quanto por países ocidentais. Frank Walter Steinmeier, atual representante alemão, na intenção de responder às acusações, declarou que: “Como vemos, a paz não pode ser dada como certa. Sempre se tem que agir para preservá-la, no diálogo. Mas, quando for necessário, é preciso dizer as coisas claramente, mostrando dissuasão e determinação”, acusando então a Rússia por ameaçar a paz.

É reconhecido o poder bélico da Rússia e o comportamento evasivo de Putin, sendo possível somente a constatação de que o país irá proteger a todo custo a dominância no Ucrânia, visto que assegura sua segurança territorial, ao passo que embora tanto os Estados Unidos quanto a OTAN, tenha consciência de que um afastamento por parte de ambos, conteria os ânimos, porém promoveria também o aumento de força da Rússia, retardando o processo de contenção realizada anos atrás, o que não converge com a política externa estadunidense e plano de ação da OTAN. Portanto, lê-se o cenário atual como profundamente instável, o que demanda um constante acompanhamento dos desdobramentos das negociações a fim de que haja alguma formação de plano de ação por parte dos atuais governantes, uma vez que a dinâmica internacional foi afetada, o que exige um rearranjo da atual ordem mundial.


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