• O Não Internacionalista

O que está por trás do conflito em Xinjiang?


Texto escrito por Isabela Matos


Ultimamente, notícias sobre a relação entre a China e sua região autônoma, Xinjiang, têm sido cada vez mais recorrentes. Mas esse estreitamento de relações não é algo recente e suas motivações são resultados de complexa problemática. Neste texto serão abordadas as questões por trás do crescente conflito entre a China e o povo uigur, o que motiva cada uma de suas ações, quais interesses estão por trás das decisões das partes envolvidas e o contexto histórico em que se desenvolvem.

A China é um Estado milenar que integra mais de cinquenta grupos étnicos, os quais se constituem sob uma unidade política, sendo o maior deles o grupo étnico Han, que compreende a maioria da população chinesa - mais de 90%. Além disso, o país é subdividido em diversas regiões, sendo Xinjiang uma delas.

Localizada no noroeste da China, a região de Xinjiang foi estabelecida pela primeira vez como província da dinastia Qing, em 1884, tornando-se, em meados do século XX, especificamente no ano de 1955, uma região autônoma, sendo atualmente uma das maiores do Estado chinês. Com área de aproximadamente 1,6 milhão de km², Xinjiang detém uma população de quase 25 milhões de habitantes, cujos indivíduos são compostos por duas etnias, majoritariamente: Uigur e Han.

Os chamados povos uigures compreendem, atualmente, cerca de 0,7% da população chinesa, com seu contingente de quase 10 milhões de habitantes. Constituem-se de uma população muçulmana cujo idioma assemelha-se ao turco. Essas características étnicas são resultado do desenvolvimento na região que sediou a antiga Rota da Seda, que estabelecia conexões diretas entre o mundo europeu e o chinês, durante um longo período.

Anteriormente ao estabelecimento oficial da província como região autônoma, os povos uigures por duas vezes, nas décadas de 1930 e 1940, declararam-se um Estado independente, denominado “Turquestão Oriental”.

Hoje, a região comporta um caráter estratégico de suma importância para o Estado chinês: faz fronteira com diversos países, mas também possui petróleo; abriga locais de teste de armas nucleares, além de ser fundamental para a nova estratégia econômica chinesa do “One Belt, One Road”. Mesmo com o fim da antiga Rota da Seda, Xinjiang permanece carregando sua história de corredor comercial. A província abriga parte dos corredores logísticos que integram a Nova Rota da Seda, sendo, portanto, fundamental para sua constituição e para a articulação chinesa com demais nações. Isso resulta em uma economia em ascensão, cujo PIB apresenta crescimento anual acima de 8%.

Além disso, há na região uma intensa política econômica de investimento, por parte do governo central, nas novas fábricas que se constituem nas novas vilas da região. Essas vilas concentram grandes oportunidades empregatícias, o que atrai novos habitantes, em sua maioria da etnia Han.

Esses fatores - especificidade étnico-religiosa, a peculiaridade linguística e o poderio econômico - influenciam as intenções, anteriormente instauradas, de independência que cerceiam a província.

Com a população composta por, aproximadamente, 45% de uigures e 40% de chineses da etnia Han, a crise étnica eclodiu no final da primeira década do século XXI. Em 2009, confrontos e disputas entre membros de ambas as etnias ocasionaram cerca de 200 mortes. Uma das estratégias utilizadas pelo governo central chinês à época para responder ao conflito foi a intensificação do envio de trabalhadores chineses da etnia Han à região.

Sob a perspectiva chinesa, os conflitos refletem um movimento separatista empenhado pelo povo uigur. Movimento que, segundo a China, é apoiado por grupos terroristas islâmicos, como a Al Qaeda, o que, portanto, faz com que o governo defina os separatistas como terroristas. Fato é que, desde a última década do século XX, várias organizações políticas e não governamentais foram criadas e alinharam-se às reivindicações separatistas em Xinjiang. Uma delas, a East Turkistan Islamic Movement (ETIM), foi oficialmente classificada pela ONU como organização terrorista vinculada à Al Qaeda. Consequentemente, o governo chinês assim classificou as demais organizações alinhadas às reivindicações separatistas. Sob a justificativa de conter o movimento, o governo chinês criou “campos de reeducação”. Para a China, Xinjiang possui tamanha relevância estratégica que não é possível permitir a ascensão de um movimento de independência.

Contrariamente, os povos da etnia uigur alegam que estão sendo alvo do governo chinês, tendo os seus direitos violados e práticas religiosas e culturais suprimidas. Alegam que o governo adota políticas, sob a falsa justificativa de contenção dos movimentos violentos de independência, para proibi-los de realizar suas manifestações religiosas. Afirmam, ainda, estarem sendo presos em “campos de concentração” onde desempenham trabalhos forçados e são privados de sua liberdade.

O conflito tem ganhado espaço no debate internacional e obtido a atenção de diversas nações. A questão em Xinjiang divide opiniões: de um lado, a ONU, conjuntamente com Japão e diversas potências norte-atlânticas, tem se manifestado contra a ação chinesa na região, afirmando que os povos uigures são alvo de genocídio e de outras violações de direitos humanos e, com isso, discutem sobre possíveis medidas contra o governo chinês como, por exemplo, um boicote às Olimpíadas de Pequim em 2022. De outro lado, países de maioria muçulmana adotam posições oficiais em defesa do governo chinês alegando a importância das medidas adotadas para o combate do terrorismo extremista na região.

A questão tem apresentado desenrolares constantes. Recentemente, no início de maio de 2021, a China emitiu pedido oficial para que países da ONU não comparecessem ao evento planejado por Reino Unido, Estados Unidos e Alemanha sobre a repressão dos uigures em Xinjiang. Segundo a missão chinesa na ONU, o evento tem motivação política e, ademais, alega que países organizadores, juntamente com outras nações, utilizam os direitos humanos como instrumento político para interferir em assuntos internos chineses.

Em meio a tantos fatos e posicionamentos, o que sobra é a certeza de que a questão em Xinjiang ainda ocupará muito espaço nos noticiários e nas discussões internacionais, estando, ainda, muito longe de seu deslinde.

Bibliografia

BBC. O que está por trás da escalada de tensões da China com potências globais. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-53511947>. Acesso em: 12 mai. 2021.

BBC. Entenda a questão dos uigures na China. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/07/090707_entenda_uigures_tp>. Acesso em: 12 mai. 2021.

MARSHALL, Tim. Prisioneiros da geografia: 10 mapas que explicam tudo o que você precisa saber sobre política global. 1. ed. Zahar, 2018.

World Affairs, 2019. Xinjiang And Uyghurs: what you’re not being told. Disponível em: < https://worldaffairs.blog/2019/07/05/xinjiang-and-uyghurs-what-youre-not-being-told/>. Acesso em: 12 mai. 2021.

Money Times. China pede que Estados da ONU não participem de evento em Xinjiang na próxima semana. Disponível em: <https://www.moneytimes.com.br/china-pede-que-estados-da-onu-nao-participem-de-evento-em-xinjiang-na-proxima-semana/>. Acesso em: 14 mai. 2021.


Sobre a autora: Nasceu e cresceu em Minas Gerais. É graduanda em Direito pela universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), atualmente cursando o 7º período. Pesquisadora na área de Direito Internacional. Monitora do Grupo de Estudos em Direito Internacional Humanitário da UFMG. Estagiária na Diretoria de Relações Internacionais da UFMG. Future Leader no programa Shaping Horizons da Universidade de Cambrigde em parceria com o Global Shapers Community Cambrigde Hub. Áreas de interesse: conflitos internacionais, direito internacional humanitário e tribunais internacionais.