• Maria Tereza

O processo de dissolução da Iugoslávia


A identidade nacional proposta por Tito contemplava apenas uma alusão do que poderia vir a ser. Com sua morte, os interesses políticos afloraram dentre as diferentes etnias que predominavam no país. Nesse sentido, com o fim da era Tito, o controle do Estado passou a ser do líder sérvio Slobodan Milosevic, que não conseguiu conter a crise. Os conflitos voltaram a emergir e se agravaram, principalmente entre Sérvia e Croácia. O estopim se deu em 1985, juntamente com a crise econômica que desestabilizava o país (MAIA, 2001).

Sem um líder que buscasse unificar as identidades nacionais, o sentimento nacionalista veio à tona. A população albanesa que residia no Kosovo¹ pediu independência da Sérvia para que assim pudesse se tornar a mais nova república iugoslava. Tal movimento separatista foi duramente contido pelo exército (dominado por Slobodan), exaltando assim o nacionalismo sérvio.

O movimento separatista e a severa intervenção do exército sérvio em Kosovo revitalizaram movimentos semelhantes em dois países: Croácia e Eslovênia. Com a crise econômica ascendendo de maneira explícita na Iugoslávia, foi inviável tentar manter a união entre os países. Dados os eventos na União Soviética no final da Guerra Fria, não havia ideologia para manter sequer uma aliança. Dessa forma, as diferenças raciais, culturais, religiosas e sociais, mesmo que de maneira sutil, foram ganhando força e cresceram na mesma proporção da deterioração econômica.

O movimento de croatas e eslovenos acarretou grandes tensões na região, principalmente devido à oposição dos sérvios a esta divisão. Tal tensão existiu, principalmente, porque os sérvios que viviam nesses dois países (Eslovênia e Croácia) se opuseram sistematicamente à libertação dos mesmos. Essas tensões foram sustentadas durante vários anos, pois a hegemonia política na região era sérvia. Inicialmente, isso levou eslovenos e croatas a exigirem maior representação na Iugoslávia. Essa necessidade rapidamente se tornou vontade de autodeterminação, de independência.

Quando Franjo Tudjman foi eleito presidente da Croácia, iniciou-se uma política hostil à população sérvia que lá vivia. Houve retirada dos croatas de ascendência sérvia dos postos de poder administrativo civil, alteração do nome de ruas, reivindicações à língua croata e criou-se uma nova bandeira nacional croata. Essa iniciativa de Tudjman ameaçou a formação da “Grande Sérvia”² pretendida por Slobodan, pois o presidente croata tinha intenção de constituir a “Grande Croácia”³.

Tanto Slobodan quanto Tudjman queriam a divisão da Bósnia entre eles sem levar em consideração a população muçulmana que habitava o país. Assim foram surgindo os movimentos beligerantes em busca da independência das repúblicas iugoslavas que culminaram em uma série de embates com o governo de Belgrado (capital da Sérvia). Este, incapaz de impedir a expansão territorial dos países que se tornaram independentes.

A Iugoslávia era um país com dois alfabetos (latim e cirílico), três línguas (macedônia, eslovena e sérvia-croata) e cinco grupos étnicos (Croácia, Eslovênia, Sérvia, Bósnia-muçulmana e Macedônia), além de um vasto número de minorias nacionais, a exemplo dos búlgaros, albaneses e húngaros. No entanto, era formada por seis repúblicas (Sérvia, Eslovênia, Croácia, Montenegro, Macedônia, Bósnia-Herzegovina). Foi diante dessa “colcha de retalhos”, como muitos pesquisadores se referem a esse período da Iugoslávia, que se iniciou o maior conflito em território europeu depois da Segunda Guerra Mundial.

A guerra civil começou em junho de 1991 com o anúncio da independência da Eslovênia. Foi uma guerra relativamente curta — apenas dez dias — e terminou com a formalização da independência do país. Desde então, o foco da tensão mudou para a Croácia, onde existem muitos sérvios.

Na Croácia, em fevereiro de 1992, a população sérvia que vivia em território croata autoproclamou sua independência do território da Croácia, criando um bloqueio, surgindo assim, a República Krajina com o apoio irrestrito de Slobodan Milosevic. Em decorrência disso, em março do mesmo ano, aconteceram os primeiros confrontos com a polícia croata, e em junho a Croácia se declarou independente iniciando a guerra civil na república (SILBER; LITTLE, 1996).

Porém, à medida que a independência da Eslovênia foi sendo firmada, e a independência dos croatas continuou a se desenvolver, os bósnios se viram pressionados a embarcar na mesma jornada, posto que, politicamente falando, eles perderam a maior parte do seu poder na Iugoslávia após a independência da Eslovênia e da Croácia.

A situação na Bósnia tendeu a ser mais complicada, pois reunia em sua região muita diversidade étnica e ainda agregava povos de diferentes religiões em animosidade (os bósnios muçulmanos, os bósnios-sérvios cristãos ortodoxos e os bósnios-croatas cristãos católicos). Cada um desses grupos tinham interesses diferentes em relação à Bósnia, o que é outro fator de tensão na região: os bósnios muçulmanos miravam na luta pela independência; os bósnios-sérvios não eram a favor da independência da Bósnia e defendiam a formação da Grande Sérvia; e os bósnios-croatas defendiam a adesão da região da Bósnia a Croácia.




¹Em 1380, os turcos invadiram a Sérvia e em 28 de junho de 1389, derrotaram os sérvios numa batalha na região de Kosovo Polje. A Batalha foi o evento mais significativo na história do povo sérvio. Na realidade, foi apenas uma das inúmeras ocorridas contra os otomanos que já dominavam várias partes dos Bálcãs. Apesar do exército do rei sérvio Lazar Ser multiétnico (composto por sérvios, macedônios, albaneses, bósnios, croatas e búlgaros), a literatura sérvia fez de Kosovo a semente da história, cultura, herança e da própria nacionalidade sérvia. A derrota militar foi glorificada, o rei considerado mártir e o local da batalha declarado monumento. A igreja usou a batalha para a formação da consciência nacional sérvia, associando supostos acontecimentos difundidos e a lenda criada pela literatura com simbolismos cristãos, além de erguer uma grande quantidade de monastérios e igrejas ortodoxas na região do Kosovo (AGUILAR, 2003, p. 39–40).


²Algo que era ressaltado na imagem do império medieval sérvio, ignorando completamente as fronteiras existentes da Federação Iugoslava, e dadas as grandes proibições voltadas aos não sérvios como, por exemplo, o toque de recolher, proibição de reunião, usar rios e direito a sair da cidade. (AGUILAR; MATHIAS, 2012, p. 448).


³O termo foi uma plataforma para o extremo nacionalismo croata durante a maior parte do século XX, especialmente quando o país pertenceu ao Reino da Iugoslávia, durante a Segunda Guerra Mundial (quando os croatas se aliaram à Alemanha nazista para fundar o Estado Independente da Croácia) e durante as Guerras Iugoslavas na década de 1990, que culminaram com a independência croata. (AGUILAR; MATHIAS, 2012, p. 449).