O Orientalismo

Autor (nome completo): Júlia Panissi e Rafael Reis

Instagram Autor: @juliapanissi @rafaeldssreis


Revisor 1: Júlia Angelo Pinto



Muitas das visões sobre as diversas identidades nacionais hoje existentes são tidas a partir de estereótipos pouco questionados pelas sociedades, ainda mais por aquelas mais distantes geograficamente entre si. O conhecimento dominante que se tem com relação a certas identidades são consequências de um discurso internacionalmente dominante que obtiveram maior espaço discursivo e ganharam maior presença por serem repetidos diversas vezes na literatura, na indústria do entretenimento e na política. Considerando o caráter fantasioso de muitos dos falsos estereótipos difundidos internacionalmente, se faz necessário questionar suas construções e legitimidade. Nesse sentido, indo contra a estabilização, não questionamento e pouca fundamentação na construção do imaginário identitário, surge o conceito de “Orientalismo” desenvolvido por Edward Said.

O conceito de “Orientalismo” especificamente diz respeito à constituição e à imagem obtida com relação à identidade do Oriente no decorrer de sua história. Segundo Orientalismo, o discurso hegemônico do Ocidente, com seus valores e normas vistos como superiores e inquestionáveis/corretos, seria o meio pelo qual a cultura ocidental se constitui e dá forma à identidade do Oriente. Devido à hegemonia cultural, econômica e política internacional do Ocidente, o Oriente é sempre pelo Ocidente narrado em diferença e contraposição, de maneira a ajudar a definir a identidade ocidental como sua imagem, ideia, personalidade e experiência de contraste. Os árabes são narrados sempre em diferença com o Ocidente, que é racional, desenvolvido, humanitário e superior, e o Oriente, que é aberrante, subdesenvolvido e inferior.

A imagem, realidade e vocabulário oriental se dão no e para o Ocidente, de modo que as qualidades de ambos se apoiam e se refletem. Pode-se dizer que a história que o Oriente possui, em grande parte o povo árabe, é a história que lhes é dada, ou até retirada, pelo discurso orientalista. O Oriente não é um assunto livre de discussão, sendo constantemente colonizado, descrito, governado, analisado e discutido pelo outro. Dessa maneira, o Orientalismo pode ser visto como uma instituição organizada para negociar com o Oriente, que a partir do controle das opiniões tidas sobre ele o silencia, controla, domina, reestrutura e adquire autoridade sobre.

É justamente nessa perspectiva hiperbólica do caráter exótico e supostamente barbárie do Oriente que se administra uma visão de mundo no qual o Ocidente se opõe e se apresenta como o cenário racional, civilizado e moral. Existem diversos exemplos, antigos ou recentes, que demonstram essa relação etnocêntrica para com as culturas orientais e suas múltiplas representações nas mídias.

As guerras ao terror tiveram um papel significativo na construção de uma imagem deturpada do Oriente Médio. De modo geral, isso refletiu amplamente em como os ocidentais enxergam iraquianos, iranianos, afegãos e de modo generalizado, suas culturas, tradições e religiões. Esses conflitos impactaram negativamente na vida dos muçulmanos, por exemplo, com o discurso de caça aos grupos islâmicos extremistas, e o que se identificou nos países ocidentais foi um aumento acentuado do preconceito com os imigrantes, além da criação de um sentimento de desconfiança e temor.

No contexto do século XXI, com a globalização e o alcance das novas mídias, os atentados de 11 de setembro produzidos pelos grupos extremistas islâmicos intensificaram ainda mais as atitudes intolerantes que se estendem até o ano atual. Assim, por meio da criação de um estereótipo, há um interesse claro em dar ao povo islâmico características que legitimassem os interesses econômicos e expansionistas dos Estados Unidos. Tendo em vista que essa atitude de combater um inimigo invisível – no caso, o terror - é, voluntariamente, uma ação que demonstra a disposição do país em incitar o conflito.

Enquanto os valores ocidentais ganharam força nesse contexto, a estigmatização voluntária dos povos islâmicos se estende até hoje. A percepção popular foi deturpada e normalizou-se atitudes racistas em relação a esses povos. A intolerância religiosa é de fato o que mais evidencia essa opinião manufaturada dos povos árabes. O uso do hijab, por exemplo, o véu utilizado por mulheres para cobrir os cabelos é motivo de desconfiança e piada, através não somente de um preconceito enraizado, mas também evidencia o desconhecimento e a falta de interesse na busca de informação. São recorrentes os casos de preconceito em lugares de grande circulação de imigrantes, como aeroportos e mais severos são os de mulheres e homens islâmicos espalhados pelo Ocidente.

Um dos fatores que podem, em primeira instância, explicar o receio da presença asiática nesses territórios é o potencial de um possível avanço econômico e um despertar industrial no século XIX, além de uma enorme densidade demográfica que já se identificava nessas regiões, bem como o vasto território e os recursos naturais. Existem levantamentos estatísticos que calculam que desde o ano 1 d.C. até 1820, China e Índia mantinham a maior acumulação de capital. A expropriação dos recursos naturais e saques conquistados por via de guerra (os britânicos por meio da Guerra do Ópio, por exemplo) permitiram o investimento massivo das potências europeias na industrialização.

Portanto, o sentimento xenofóbico e racista contra asiáticos consolida uma narrativa de “invasão asiática” no Ocidente e ajuda a justificar as invasões e saques, que satisfazem os interesses imperialistas. Essa ilusão de um inimigo comum ajuda a unificar os estados dominantes e garantem sua hegemonia através de uma supremacia branca. Em meio a esse iminente crescimento da xenofobia, essas doutrinas preconceituosas ganham ainda mais força por meio da conjuntura do darwinismo social. O racismo é ocultado por uma suposta tese científica, justificando, posteriormente, diversos conceitos como a eugenia, a dominação da raça ariana e o nazismo.

De modo geral, ao fim do século XIX e no começo do século XX, China e Índia passam a ser menos o foco dessa dialética racista e o Japão cresce como uma nova ameaça em potencial. Por meio do crescimento exponencial da imigração japonesa para o Ocidente, os Estados Unidos fortificam uma imagem do japonês como um povo inteligente e que tramam planos para construir uma nova ordem e expandir o Japão para o Ocidente. Essas atitudes de estereotipar o povo nipônico chegou a reforçar um apoio populacional à promulgação da Lei de Imigração de 1924 dos Estados Unidos que instituiu o Ato de Exclusão dos Asiáticos.

Ainda no contexto desse século, os povos japoneses são ainda mais alvos por meio da aliança do país com as nações do Eixo. O ataque a Pearl Harbor instigou ainda mais o ódio pelos povos asiáticos e várias restrições à cultura japonesa foram implementadas nos Estados Unidos, como a proibição da língua e o veto à circulação de jornais japoneses, e cresce a ideia de que produtos oriundos de países asiáticos são baratos e sem qualidades, inverdades difundidas até os dias de hoje. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, se acentua o antagonismo das grandes potências ocidentais com o levante da República Popular da China e a tensão da Guerra Fria e o medo do comunismo trazem holofotes novamente ao familiar sentimento anti-chinês. O perigo amarelo passa a se tornar o perigo vermelho, se perdurando até hoje por meio da pandemia da Covid-19.






REFERÊNCIAS


SAID, Edward W. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.