O fenômeno guerra: a defesa e o ataque

No que se diz respeito ao início de uma guerra, ela se dá com a defesa, e não com o ataque como se é esperado, dado que a defesa possui como objetivo repelir o ataque, que é, portanto, um pré-requisito para que ela exista. Assim, a defesa, que é o lado que introduz primeiro o elemento da guerra e que faz com que existam duas partes em conflito, é o que estabelece as leis iniciais da guerra. Nesse sentido, a guerra não se inicia com o ataque, pois o maior propósito do ataque não é o combate/conflito e sim a posse daquilo que se almeja.


A defesa na guerra é a capacidade de contra-atacar; posição na qual se deseja manter o status quo, ou seja, defender aquilo - como o território - que se tem posse. Logo, o contra-ataque deve ser visto como uma tendência inerente à defesa. Tendo o defensor obtido uma vantagem importante sob o ataque, ele também deve atacar, visto que apenas se defender de golpes é contra a natureza inerente à guerra, que certamente não consiste apenas em resistir, ou estaria buscando a sua própria destruição.


O ataque na guerra é assumir a iniciativa; posição na qual se possui o desejo de modificar o status quo, ou seja, modificar aquilo que se tem posse, como invadir um território alheio. O fim é colocar o inimigo “de joelhos”, ou pelo menos privá-lo de alguma parte de seu território, e não somente estar em uma posição de iniciativa/ataque. Após o propósito do ataque ter sido atingido, por exemplo, invadir um território, termina o ataque, e a defesa assume o controle, visto que há de se conservar e defender aquilo que acabou de ser conquistado. Nesse sentido, dependendo dos acontecimentos, pode-se dizer que ações ofensivas transformam-se em ações defensivas, assim como os planos defensivos transformam-se em planos ofensivos.


Comumente se pensa que em um conflito entre dois países, aquele que está atacando com certeza está em vantagem, visto que possui meios para tal. Entretanto, seria mesmo essa a realidade? Por mais estranho que pareça ser, na realidade, a defesa é a forma mais forte de combate. Em primeiro lugar, a defesa possui a vantagem da espera: o passar do tempo é benéfico pois é mais fácil manter uma posição já estabelecida do que modificá-la e, caso não haja uma iniciativa de mudança de status quo, o defensor continuará a manter seu objetivo de defesa.


Em segundo lugar, há a vantagem da posição: quem se defende possui o benefício de estar mantendo uma posição específica e de ter maior conhecimento a respeito do que é defendido, enquanto quem ataca não compartilha tanto do nível de conhecimento encontrado nos defensores, pois não possui controle sobre aquilo que almeja.


Em terceiro lugar, o defensor, tem a vantagem logística, uma vez que permanece em seu território e perto de suas fontes de abastecimento, (armamento, mantimentos, demandando uma logística menos custosa e mais viável). O atacante, por outro lado, está mais vulnerável por se locomover e, assim, estar distante de seu centro de abastecimento e de sua logística.


Por fim, o defensor, por estar “em casa”, pode contar com o apoio moral e material de sua população, que pode se armar e defender seu país, e é capaz de possuir melhores e maiores fontes de informação a respeito da guerra, visto que possuem confiança em seu povo. Quanto mais perto de centros urbanos o conflito se encontra, maior será o apoio moral que as tropas receberão de sua nação. Enquanto isso, o defensor encontra-se cada vez mais distante de seu povo conforme avança ofensivamente, inviabilizando, progressivamente, as vantagens encontradas na posição de defesa.


Por outro lado, em relação ao ataque, à medida que o atacante avança, ele se enfraquece cada vez mais, e mais rápido que o defensor, ou seja, os custos relativos do avanço são maiores que os da defesa. Parte de suas forças terão de ser deixadas para trás para que as suas fontes de abastecimento e a logística sejam mantidas seguras. Há a necessidade do ataque de se manter, de se abastecer e de se organizar a logística. Por isso, quanto mais se avança, mais dispersa a tropa se encontra. Quanto maior o avanço, mais territórios alheios são dominados e menores são os números de aliados e, consequentemente, há um maior desgaste das forças morais.


Conclui-se que devido ao fato de estar em seu território, a defesa possui vantagem no combate, enquanto o ataque, além de gastar mais de sua energia e poder militar, está em posição de desvantagem por estar progressivamente longe de seu território. Visto isso, além de ditar o início da guerra, a defesa também pode adotar posições de ataque, ao mesmo tempo que o ataque pode vir a defender, fazendo com que a dinâmica da guerra mude constantemente e ações ofensivas transformem-se em ações defensivas, e planos defensivos transformem-se em planos ofensivos.

REFERÊNCIAS


CLAUSEWITZ, CARL VON. Da Guerra. [S. l.: s. n.], 1832. Disponível em: https://www.amigosdamarinha.com.br/wp-content/uploads/2018/04/Da-Guerra-Carl-Von-Clausewitz.pdf. Acesso em: 9 mar. 2022.


GAT, Azar. Clausewitz on defense and attack. Journal of Strategic

Studies, v. 11, n. 1, 1988.


HEUSER, Beatrice. Theory and Practice, Art and Science in Warfare: An Etymological Note. In: MARSTON, Daniel; LEAHY, Tamara. War, Strategy and History: Essays in Honour of Professor Robert O’Neill. [S. l.]: ANU Press, 2016. cap. 12, p. 179-196. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/j.ctt1dgn5sf.17?seq=1#metadata_info_tab_contents. Acesso em: 9 mar. 2022.

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