• O Não Internacionalista

O CONFLITO ISRAEL-PALESTINA: O PRIMEIRO GRANDE DEBATE DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS NA PRÁTICA




A questão Israel-Palestina se configura como um dos maiores desafios das análises de conjuntura do sistema internacional. Suas origens remontam ao pós-Segunda Guerra Mundial, quando, após perseguição sistêmica de judeus pelo Estado Nazista Alemão, tomaram forma movimentos sionistas e protecionistas aos judeus, que culminaram na criação do Estado de Israel dentro do território que costumava abarcar a Palestina.

Nesse contexto, a Organização das Nações Unidas (ONU) teve papel crucial para a partilha da região – que contém importância histórica e pontos geográficos sacros para a religião judaica –, da mesma forma que a Liga das Nações colaborou quando, após o fim do Império Otomano, responsabilizou a Inglaterra para administração do território da Palestina (BBC, 2014). A tentativa de solucionar a problemática de forma aparentemente pacífica e justa, buscando atender às demandas de autodeterminação do povo judaico por seu próprio território, contrasta brutalmente com os conflitos violentos observados na atualidade, motivo pelo qual, sob a luz da Teoria das Relações Internacionais, pode-se perceber ecos do primeiro grande debate da área entre liberalismo e realismo.

Em primeiro plano, a alocação dos povos judaicos em seu próprio território e sua posterior divisão tiveram como força motriz o conceito de autodeterminação dos povos, além da salvaguarda dos seguidores reprimidos da religião judaica. Quando se analisa o conflito com esse conceito em mente, nota-se a existência de dois povos lutando por seu direito à autodeterminação, bem como pelo seu território, para exercício de jurisdição e expressão de cultura. Nesse sentido, Woodrow Wilson – político americano e expoente da corrente liberalista das relações internacionais – fez contribuições que viriam a ser aplicadas posteriormente nos processos de tomada de decisão da ONU, especialmente quanto à emancipação dos povos e criação do Estado de Israel para os judeus, pois

a disseminação da democracia, na visão de Wilson, seria uma consequência automática da implementação do princípio da autodeterminação. [...] a concessão de um estado a cada nação, definida pela unidade étnica e linguística. Só pelo autogoverno, afirmou ele, poderiam os povos expressar seu desejo de estimular a harmonia internacional (KISSINGER, 2015, p. 259).

Entretanto, perante a perspectiva realista das relações internacionais, dois pontos levantam apreensões sobre a real motivação para que órgãos internacionais fossem movimentados com vistas à instalação judaica no local, considerando a implantação do Estado de Israel no Oriente Médio – região econômica e geopoliticamente estratégica – pela maior potência colonial da época – a Inglaterra –, e o recente financiamento estadunidense do exército militar israelense diante de práticas notoriamente colonialistas ante palestinos. Edward Carr, historiador e teórico associado à corrente realista, explora em sua obra Vinte Anos de Crise (1919-1939) a habilidade intrínseca das grandes potências em mascarar interesses nacionais sob pretexto do bem comum. Nas palavras de Carr:

Os povos de língua inglesa são mestres consumados na arte de ocultar seus interesses nacionais egoístas sob o manto do bem geral, e este tipo de hipocrisia é uma peculiaridade especial e característica da mente do anglo-saxão. [...] As teorias da moral internacional são, pela mesma razão e em virtude do mesmo processo, o produto das nações ou grupos de nações dominantes (CARR, 2001, pp. 104-105).

Fato é que a partilha definida pela ONU previa a divisão sendo a parte oriental para a Palestina e a ocidental para Israel. Por esse plano, a área definida como Palestina estava sob domínio britânico (BBC, 2021), o que é pertinente à perspectiva realista por ser estratégico à potência da época e suas práticas imperialistas e colonialistas. Nesse contexto, os movimentos que procuram expor essa faceta nefasta da partilha são com frequência rechaçados sob a alcunha de antissionistas ou até mesmo antissemitas, algo amplamente difundido, especialmente na sociedade norte-americana. Contudo, após análise dos fatos e amparado em um dos princípios formulados por Morgenthau, nota-se a necessidade da ultrapassagem de barreiras psicológicas ou moralistas para uma análise realista, pois

tendo em vista uma teoria que busca entender a política internacional como ela é, e como deve ser, face à sua natureza intrínseca, e não como as pessoas gostariam que ela fosse, é inevitável que a referida teoria tenha de vencer uma resistência psicológica que a maioria dos outros ramos do conhecimento não precisa enfrentar (MORGENTHAU, 2003, p. 28).

O conflito de interesses e poder se estendeu ao passar dos anos e passou a se configurar como uma disputa territorial envolvendo todo o âmbito internacional. Nesse sentido, retorna-se à questão liberal wilsoniana, na qual o idealismo estadunidense se põe diante de grandes realizações relacionadas à política externa, sobretudo relacionadas a acordos de paz, direitos humanos e soluções dessas problemáticas, com o intuito de proporcionar esperança ao restante do globo (KISSINGER, 2015, p. 265). Entretanto, reitera-se uma visão realista contrastante com esse ponto, pois, um Estado que defende e apoia guerras contra outra região, não representa solução pacífica ou sugere um mundo melhor. Ademais, o realismo de Carr atenta para a opinião pública e se mostra importante para o exame da maneira que os conflitos entre Israel e Palestina são televisionados pela mídia ocidental, equiparando a força militar dos envolvidos quando, na realidade, Israel apresenta um exército bem equipado e financiado, tem um dos sistemas de defesa mais articulados do mundo, e avança ainda mais sobre o território palestino, excedendo fronteiras pré-determinadas e disseminando violência aos cidadãos palestinos.

Tendo em vista o supracitado, nota-se a importância da Teoria das Relações Internacionais para investigar a discrepância entre os propósitos pacifistas difundidos em busca de justificar a criação do Estado de Israel, e os motivos vis que podem ser invocados para explicar o assentamento na região e financiamento da escalada do conflito. Além disso, a lente provida pela teoria realista corrobora para a observação mais atenta desses conflitos e o modo que a participação norte-americana ganha repercussão pelos veículos de informação. Assim, a mídia atua nivelando a força dos grupos israelitas e palestinos, camuflando as atividades colonialistas do governo israelense, e apresentando com amparo nas alegações de paz e segurança internacional a participação estadunidense. Portanto, conclui-se que a teoria liberal não atinge a dimensão explicativa fornecida pelos princípios e convicções dos teóricos realistas, como Carr e Morgenthau, considerando esse caso.


REFERÊNCIAS

BBC. 10 perguntas para entender o conflito entre israelenses e palestinos. BBC International, 29 de setembro de 2014. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/08/140730_gaza_entenda_gf_lk. Acesso em 15 de junho de 2021.


BBC. Conflito entre Israel e palestinos: o que está acontecendo e mais 5 perguntas sobre a onda de violência. BBC International, 17 de maio de 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57149552. Acesso em 13 de junho de 2021.


CARR, Edward H. Vinte Anos de crise: 1919-1939. Brasília: Ed. da UnB, 2001. Disponível em: http://funag.gov.br/biblioteca/download/40-Vinte_Anos_de_Crise_-_1919-1939.pdf. Acesso em 07 de junho de 2021.


KISSINGER, Henry. Ordem mundial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015. “Woodrow Wilson: os Estados Unidos como consciência do mundo” (pp. 257-270).


MORGENTHAU, Hans. A Política entre as Nações. Brasília: UNB, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2003, Cap I (pp. 3-28) e Cap XI (pp. 321-338). Disponível em: http://funag.gov.br/biblioteca/download/0179_politica_entre_as_nacoes.pdf. Acesso em 10 de junho de 2021.




Autoras:

Ana Maria Thomazini Rocumback Flose

Bruna Mendonça Moreira Tinôco