O boicote diplomático aos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022

Atualizado: 1 de fev.



Por Anna de Holanda e Rafael Reis



2022 será um ano de muitos eventos importantes no mundo esportivo, entre eles os Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim (Beijing), que ocorrerão de 4 a 20 de fevereiro e que já causam polêmicas. Porém, desde o final de 2021 já se viam notícias sobre o chamado “boicote diplomático” aos Jogos, promovido, especialmente, pelos EUA e adotado também por outros países. Tal boicote consiste na decisão de não enviar nenhuma representação governamental para Pequim, sendo esse direito resguardado apenas aos atletas, que, apesar do boicote, não serão prejudicados e competirão normalmente, ganhando o apoio e a torcida de seus respectivos países.

A argumentação estadunidense para engajar-se na promoção desse ato simbólico é sustentada nas alegações de violação dos direitos humanos na China, em especial na região de Xinjiang. Esse ponto se prova a partir da fala de Jen Psaki, porta-voz da Casa Branca: “O governo Biden não enviará nenhuma representação diplomática ou oficial para os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Inverno de Pequim 2022, devido ao genocídio em curso na China e aos crimes contra a humanidade em Xinjiang” (CNN Brasil, 2021). Além disso, acrescentou: “A representação diplomática ou oficial dos EUA trataria esses jogos como normais em face dos flagrantes abusos dos direitos humanos e atrocidades da China em Xinjiang, e simplesmente não podemos fazer isso” (CNN Brasil, 2021). Assim sendo, as falas de Psaki são importantes para entender o posicionamento dos EUA e o tom utilizado no tratamento da questão.

É sabido que, há tempos, grupos de ativistas pelos direitos humanos criticam o Comitê Olímpico Internacional (COI) por conceder, pela segunda vez, a sede dos Jogos à China, mesmo que as condições dos direitos humanos não tenham melhorado no país desde a Olimpíada de Verão de 2008, também ocorrida em Pequim. Dentro dos EUA, além desses grupos, também havia pressão política, inflamada pelas tensões entre EUA e China, para que alguma postura do governo quanto a isso fosse tomada. Assim, o que pode ser observado é que de fato o Governo Biden se posicionou, e que o posicionamento estadunidense, que ainda possui muito peso no cenário internacional, influenciou outros países a também demonstrarem os seus.

Dessa forma, vimos alguns países se colocando favoráveis aos argumentos levantados pelos estadunidenses e aderindo ao boicote, entre eles, Canadá, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia, Bélgica e Lituânia, os quais já fizeram seus pronunciamentos oficiais. Por outro lado, houve aqueles que se mostraram abertamente contrários, como a Rússia e a Coréia do Sul. Este último frisou a necessidade de boas relações e de uma cooperação constante com a China. Já no que diz respeito ao posicionamento europeu, não há concordância sobre a postura que deve ser adotada, embora Alemanha, França e Itália já tenham anunciado que não vão aderir, principalmente estes dois últimos, que sediarão as próximas Olimpíadas de Verão (2024) e de Inverno (2026), respectivamente.

Em meio a este cenário, vemos uma reação chinesa que já era esperada. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, deixou claro, por meio de suas falas, que os boicotes diplomáticos trariam consequências aos países que aderiram, voltando seu discurso especialmente para os EUA. O Governo chinês apresentou um protesto diplomático formal em relação ao boicote e, embora não tenha especificado quais represálias seriam feitas pela China, advertiu que elas aconteceriam. Segundo a reportagem de Macarena Vidal para o El País (2021), “o porta-voz qualificou as denúncias americanas sobre a situação em Xinjiang como a ‘mentira do século'."

O argumento chinês coloca que os EUA estão tentando violar a neutralidade esportiva e fazer das Olimpíadas um grande palco político para defender seus interesses ideológicos, mas que, no fim, isso só trará consequências que minarão a credibilidade e a influência norte-americana no mundo. Nota-se, dessa maneira, que este episódio inaugura mais um capítulo das tensões entre EUA e China. É interessante perceber como, mesmo que em termos práticos e esportivos o boicote diplomático não signifique muita coisa, na política internacional esse ato simbólico tem grande peso, visto que até mesmo o risco iminente de rompimento de laços bilaterais em “áreas importantes” foi citado por Lijian. Em suma, vemos, mais uma vez, a China inclinar-se para o que alguns chamam de “diplomacia dos lobos guerreiros”, ou seja, uma diplomacia vista por muitos como assertiva, ou até mesmo agressiva, quando se trata de defender os interesses chineses.

Em adição, naturalmente se faz necessário entender a questão que centraliza o argumento para que o boicote ocorra. O conflito relacionado ao território de Xinjiang e o povo uigur remonta ao século XX, em 1949, quando a China comunista passou a controlar a região que se localiza a noroeste do território chinês. Nos dias atuais, existem atividades econômicas de suma importância para a China: a região é rica em petróleo e gás natural, abriga locais de testes de armas nucleares e a proximidade com a Ásia Central e Europa é vista como um importante elo comercial. A Região Autônoma de Uigur de Xianjiang abriga cerca de 12 milhões de uigures – povo muçulmano, falante de uma língua semelhante à turca, e culturalmente ligado a Ásia Central. Nas últimas décadas identificou-se uma intensa migração de chineses para Xinjiang e, nesse contexto, grupos ativistas enxergam esse fenômeno como uma tentativa do Estado Chinês diluir a população uigur.

Alguns grupos de direitos humanos – como Anistia Internacional e Human Rights Watch, são os principais responsáveis pelas acusações de crimes contra a humanidade e um possível genocídio contra o povo uigur. Algumas das denúncias incluem trabalho forçado, esterilização de mulheres, tortura e abusos em “campos de reeducação”. Em suma, acredita-se que há uma intenção clara de reprimir as tradições culturais e religiosas e atuar de forma incisiva com o objetivo de destruir o grupo. A China admite a existência dos campos de reeducação, contudo, nega pontualmente todas as alegações de abusos de direitos humanos em Xinjiang. O governo afirma que a repressão no território é essencial para prevenir o terrorismo islâmico e crê nos campos como uma ferramenta eficaz na reeducação dos detentos.

É fato que o boicote dos Estados Unidos é mais simbólico do que substancial. Embora seja um ato relativamente pequeno, ainda pode ter consequências geopolíticas, mesmo que a mensagem que envia à China não altere as políticas do governo ou realmente mude o curso dos Jogos Olímpicos. Ainda sendo improvável que um boicote diplomático provoque mudanças tal qual um boicote completo faria, ele pode cumprir um propósito mais restrito: mostrar desaprovação e aumentar a polêmica – estimular a divulgação sobre as denúncias de abusos de direitos humanos na China, sem penalizar os atletas.

A relação entre Estados Unidos e China já demonstra uma certa fragilidade, e os embates recentes indicam um vínculo com o boicote. Na economia, o governo de Joe Biden aprovou, em 2021, um investimento de 2,3 trilhões de dólares em infraestrutura e leis de valorização de trabalho com o objetivo primário de reverter a crise e frear a distribuição desigual de riqueza. A avaliação é de que a China tem ocupado cada vez mais um espaço econômico desproporcional ao poderio geopolítico e militar no mundo. Portanto, a tendência é que os Estados Unidos procurem métodos de competir com o modelo desenvolvimentista¹ da economia chinesa. A postura do governo estadunidense pôde ser medida logo após a posse - em janeiro de 2021, com a indicação do novo diretor da CIA, William Burns, que analisa a relação entre os países como antagonista e predatória. Para ele, "a China é o primeiro desafio que os Estados Unidos enfrentam neste governo." (WASHINGTON POST, 2021). Assim, é visível que a motivação é justamente aumentar a pressão sobre os chineses. O Governo Biden, ao mesmo tempo que acusa como genocídio o que acontece em Xinjiang, não se prontifica nem mesmo a realizar um boicote completo.

Existem exemplos de quando boicotes, ou ameaças de boicotes, se tornam agentes de mudança – como em 1968, quando as nações africanas prometeram abandonar os Jogos se a África do Sul mantivesse o regime racista. Assim, durante vinte e oito anos, o país se manteve fora dos Jogos Olímpicos. Algumas ações, pontuais ou mais agressivas, impactam na política internacional para além dos esportes. Essas atitudes intensificam rivalidades e fragilizam ainda mais os embates ideológicos e políticos. Em 1980, o presidente estadunidense Jimmy Carter boicotou os Jogos de Moscou para se posicionar contra a invasão soviética do Afeganistão. Em relação à China, alguns chefes de Estado já usaram de sua ausência para sinalizar seu descontentamento. A então chanceler alemã, Angela Merkel, não compareceu aos Jogos Olímpicos de Verão de 2008 em Pequim, e altos funcionários alemães não compareceram às cerimônias de abertura - embora Berlim insistisse que sua ausência não deveria ser vista como um boicote relacionado à repressão da China no Tibete.

É de se considerar, portanto, que a postura assumida pelos Estados Unidos busca frear a influência e balançar as relações políticas do país asiático com o resto do mundo. Este é somente mais um exemplo de como, por meio do esporte, os Estados agem sorrateiramente para atingir seus próprios objetivos e fortificar seus alicerces - sua economia, poderio militar e, principalmente, seu domínio e prestígio com o resto do mundo. Esse ponto, por sua vez, prova que a velha máxima que visa atribuir aos esportes um caráter apolítico se mostra falha. O esporte foi, ao longo da história, e sempre será, um meio válido para que qualquer pessoa, entidade ou instituição demonstre seus interesses políticos. No fim, vemos que esporte e política não só se misturam, mas são, de certa forma, indissociáveis. Simultaneamente, cabe somente aos órgãos responsáveis instaurarem investigações imparciais para averiguar como a China tem administrado os campos de reeducação e esclarecer se realmente há violação de direitos humanos, porém, na prática, o assunto pode e é explorado em discursos que visam minar a crescente influência chinesa no mundo.



Notas:


¹ O desenvolvimentismo chinês é o nome dado ao conjunto de políticas e estratégias econômicas implantadas, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, com o intuito de acelerar a modernização econômica e configurar a China como uma potência internacional. O plano inicial teve como bases fundamentais os sistemas de modernização na agricultura, indústria, comércio, ciência e tecnologia. O denominado "socialismo com características chinesas" proporcionou um incentivo ao trabalho assalariado e capacitou uma forte entrada de capital externo em grande parte da região da China. Nos últimos anos, a estratégia utilizada foi a de conquistar margens de participação no comércio mundial. Com a introdução de características de cunho capitalista no país e a abertura das fronteiras comerciais, a China precisou assumir uma postura autoritária, formando um sistema econômico único e peculiar.



Referências Bibliográficas:


BBC. Entenda a questão dos uigures na China. 7 de jul. de 2009. Disponível em:

<https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/07/090707_entenda_uigures_tp>. Acesso em: 11 de jan. de 2022.



BBC. Uighurs: Western countries sanction China over rights abuses. 22 de mar. de 2021. Disponível em: <https://www.bbc.com/news/world-europe-56487162>. Acesso em: 11 de jan. de 2022.



CORREIO BRAZILIENSE. As consequências do boicote diplomático dos EUA aos Jogos de Inverno de Pequim. 7 de dez. de 2021. Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2021/12/4968805-as-consequencias-do-boicote-diplomatico-dos-eua-aos-jogos-de-inverno-de-pequim.html> . Acesso em: 13 de jan. de 2022.



CROSSLEY, G.; HEATH, B.; HUNNICUT, T. China ameaça retaliação caso EUA boicotem as Olimpíadas de Inverno em Pequim. CNN Brasil, 6 de jan. de 2021. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/china-ameaca-retaliacao-caso-eua-boicotem-as-olimpiadas-de-inverno-em-pequim/>. Acesso em: 13 de jan. de 2022.



DIAS, Thiago. EUA confirmam boicote diplomático aos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim 2022. Sport Insider, 13 de dez. de 2021. Disponível em: <https://sportinsider.com.br/eua-boicote-jogos-olimpicos-inverno-pequim-2022/>. Acesso em: 13 de jan. de 2022.



EURONEWS. Que países aderiram ao boicote aos Jogos Olímpicos de inverno? Bruxelas, 13 de dez. de 2021. Disponível em: <https://pt.euronews.com/2021/12/13/que-paises-aderiram-ao-boicote-aos-jogos-olimpicos-de-inverno>. Acesso em: 13 de jan. de 2022.


FAIOLA, Anthony. With ‘diplomatic boycott’ of the Olympics, Biden seeks middle ground. The Whashington Post, 13 de dez. de 2021. Disponível em:

<https://www.washingtonpost.com/world/2021/12/13/olympics-diplomatic-boycott-analysis/>Acesso em: 11 de jan. de 2022.