• Lara Martins

Novas Guerras, Novas Pazes

Atualizado: Fev 18


As novas características da violência fazem, de fato, com que as diferenças entre as zonas de combate e as zonas de paz aparente não sejam tão claras como em épocas anteriores e que, neste novo cenário, “assim como é difícil distinguir entre o político e o econômico, o público e o privado, o militar e o civil, [seja] também cada vez mais difícil distinguir entre a guerra e a paz” (Kaldor, 2001: 143 apud MOURA, Tatiana) As décadas de 80 e 90 foram marcadas por grandes mudanças nos referencias de análise dos conflitos internacionais. As chamas “novas guerras” , que ocorreram com frequência em Estados colapsados contratam com o tipo de conflito vestfaliano que a gente conhece, principalmente após o surgimento do Estado Moderno (hierárquico, ordenado e territorial). Mary Kaldor (1999) foi pioneira na definição e análise deste novo tipo de conflitos, defendendo que essas novas guerras correspondem a um NOVO tipo de violência organizada, que é diferente porque faz com que a gente não veja mais a diferença entre guerra (geralmente percebida como conflito entre países ou grupos organizados por motivos políticos), crime organizado (organizações privadas com objetivos privados) e violações de direitos humanos. De acordo com Moura, essas novas guerras resultam, dentre outros fatores, dos elevados índices de desigualdade social, do rápido crescimento das grandes cidades, da disponibilidade crescente de armas de fogo e do aumento do narcotráfico, ou seja, da agudização de violências estruturais acumulados ao logo de décadas (2005). Soma-se a isso, o fato dessa dinâmica de disseminação física da violência armada, que está em uma escala cada vez mais micro, ser presente sobretudo nas zonas de indefinição, onde a guerra se confunde com a paz. Em sociedades que vivem processos de reconstrução pós-conflito dominados por preocupações de curto prazo e por um quadro de referências políticas, econômicas e sociais de recorte ocidental e de cunho neoliberal. Alguns autores chamam essas novas guerras de “guerras privatizadas” ou “guerras informais” porque deixam um espaço cinza no ato de reconhecer o que é público e o que é privado, o estatal e o não estatal, o informal e o formal, o que faz por motivos econômicos ou por motivos políticos. São guerras que se baseiam em redes cada vez mais individuais de atores estatais e não estatais que atuam para além das competências tradicionais dos Estados. A dificuldade de delimitação de uma fronteira entre a esfera interna e internacional nestes contextos faz com que a conceptualização e análise das novíssimas guerras dependa das “lentes” com que as interpretamos: se nos centrarmos na dimensão interna veremos apenas um cenário de criminalidade e violência urbana hiper-concentradas, sem quaisquer objetivos políticos; se analisarmos as ligações entre estes fenômenos locais e as redes transnacionais de tráfico de armas e de drogas, e entendermos os impactos destes fenômenos locais no contexto internacional, veremos que estamos perante um fenômeno de tipo novo, que se está a globalizar. (MOURA, Tatiana). Nessas novas guerras, a sociedade civil é o palco e o alvo. Essas novas guerras se caracterizam, principalmente, pelo uso de crianças-soldado, utilização alargada de armas ligeiras e recurso de novas tecnologias. Além de métodos utilizados para a obtenção de controle político, a criação e manutenção de uma clima de ódio, de medo e insegurança constituem algumas características desse novo tipo de violência. A tendência é a formação de uma nova geografia da violência organizada, a uma escala cada vez mais micro, com guerras locais que têm impacto global.


REFERÊNCIAS:

Kaldor, Mary (1999), New and Old Wars: Organised Violence in a Global Era. Cambridge/Stanford: Polity Press/Stanford UP.

Tatiana Moura, « Novíssimas guerras, novíssimas pazes. Desafios conceptuais e políticos », Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 71 | 2005, posto online no dia 01 outubro 2012, consultado o 03 dezembro 2020. URL: http://journals.openedition.org/rccs/1020; DOI: https://doi.org/10.4000/rccs.1020