• Fábio Agustinho

Notas sobre marxismo e o Sistema Internacional


Diferente das outras teorias de relações internacionais que tentam explicar o Sistema Internacional a partir de uma suposta natureza humana que também afetaria as condutas dos Estados soberanos, o marxismo interpreta a realidade a partir do pressuposto de que você não compreende um objeto de estudo sem compreender a maneira como ele reproduz a sua existência. Portanto, a dinâmica do Sistema Internacional está diretamente relacionada com a produção e reprodução da existência material daqueles que são os principais atores do Sistema Internacional: os Estados.

Para o marxismo, o Estado não surge devido à assinatura de um contrato social, mas sim devido à necessidade do modo de produção capitalista de ter um terceiro agente que legitime a relação contratual entre patrão e empregado. Como o fundamento do capitalismo se dá nessa relação social, onde os donos dos meios de produção e reprodução da existência exploram o trabalho daqueles que não são donos desses meios de produção, o Estado é, portanto, uma construção social necessária para a existência do capitalismo. Pois o que garante o direito de propriedade de poucas pessoas aos meios necessários para garantir a reprodução de toda a população humana é a legitimidade que o Estado confere a esse direito de propriedade, devido ao seu caráter supostamente neutro e não diretamente ligado à esfera da produção.

Em síntese, o Estado é produto da luta de classes e, sendo assim, ele também é influenciado por ela. As pessoas que ocupam ele, suas ideologias, seus interesses materiais e a força das oposições às políticas que ele implementa, são todos elementos que afetam a conduta do Estado tanto na esfera doméstica quanto na internacional. Desse ponto de vista, as relações internacionais como as conhecemos apenas podem existir dentro de um modo de produção capitalista mundializado, onde a propriedade privada dos meios de produção é, não apenas admitida, mas também defendida por todos os Estados do Sistema Internacional como pressuposto do progresso e do desenvolvimento.


Referências:


ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privado e do Estado. Alemanha. 1884.

MASCARO, Alysson. Estado e forma política. São Paulo. Boitempo. 2013.