Neofascismo: a ressignificação de um processo

Por: Estevão Pessoa


Marcado por duas Grandes Guerras, o século XX presenciou o estabelecimento de um conturbado contexto histórico. Alicerçado no cenário de incertezas e instabilidades derivado da Primeira Guerra Mundial, o fascismo surge na Itália como um movimento político marcado pelo autoritarismo e oposição ao socialismo/comunismo. A ascensão de uma ideologia fundamentada num nacionalismo exacerbado, bem como a perseguição a opositores propiciou a ascensão de governos ditatoriais que estabeleceram sobre as sociedades o espectro da morte. Vale a pena ressaltar, contudo, que não é exclusividade das sociedades da primeira metade do século XX a experiência de um governo fascista. Apesar de ter provocado grandes estragos, esse movimento político não é um aspecto pertencente somente ao passado, os seus ideais continuam presentes no século XXI, assumindo uma nova roupagem, o neofascismo.

A segunda metade do século XX foi marcada pela ruptura dos acordos de Bretton Woods e pelo surgimento da Crise do Petróleo na década de 70. Ao fomentar a emergência de um cenário de incertezas econômicas, esses aspectos contribuíram para o estabelecimento de um panorama em que o desemprego, bem como os fenômenos migratórios fossem cada vez mais presentes em grande parte dos países devido à instabilidade existente. Ao contribuir com a denúncia das iniquidades do sistema capitalista, o contexto existente, todavia, colaborou também com o fortalecimento de movimentos regressivos que encontram neste período de desordem um terreno fértil para instituir uma efetiva manifestação pautada na manipulação das massas. Em companhia a uma desafeição política, o cenário de crise contribuiu com a insurgência da direita radical populista.

Quando conjunturas conturbadas adentram os Estados, extremismos dos diversos tipos são vislumbrados como uma solução. Ao assumir importantes cargos como o de chefe de Estado, os membros desses movimentos políticos vendem para a sociedade a imagem de “salvador da pátria” . Onde a burguesia detém muita força econômica e política, o caminho para sair da crise pode levar à instituição de um cenário mais hostil, articulado pela direita radical, por exemplo. Ao se utilizar a falência da democracia e do descrédito das instituições como força eleitoral, esse grupo político radical ascende dentro do Estado, alcançando postos importantes e se servindo da fragilidade dos indivíduos — advinda do contexto da crise — para constituir uma manipulação ideológica. Nas primeiras décadas do século XX, o fascismo recorreu à crise do Pós-guerra para estabelecer uma manipulação social e alavancar as suas premissas. Correlato a isso, o neofascismo se institui nas comunidades globais do século XXI, apoiando-se, sobretudo nas Crises do Petróleo (1973 e 1979) e na Crise do Subprime (2007).

É importante ressaltar que o neofascismo trouxe consigo uma ressignificação dos processos ideológicos ocorridos na Itália de Mussolini da primeira metade do século XX, reformulando e adequando certas concepções fascistas ao contexto contemporâneo. Ou seja, os velhos estigmas do fascismo estão sendo reciclados, transformando a maneira como esse movimento se manifesta. Na conjuntura em que a internet está cada vez mais presente, novas estratégias são realizadas, concedendo à ideologia fascista uma nova forma de se propagar, e portanto, de se manipular e domesticar os indivíduos. O neofascismo se adapta ao contexto em que está inserido, valendo-se das problemáticas e do período de desordem — como a crise sanitária do coronavírus no Brasil — para se propagar. A essência permanece a mesma, contudo, a roupagem é modificada.

Diferente do fascismo, o neofascismo não possui um arquipélago de regimes, isto é, não se restringe a Europa. Esse movimento político se consolida como um fenômeno mais abrangente e integrado, espalhando-se por grande parte das comunidades globais, estando cada vez mais presente nas sociedades, movimentando as massas e, principalmente, conquistando cadeiras no parlamento, mediante a um discurso de ódio. Seja na Europa ou no restante do globo, os partidos extremistas estão ganhando grande força, ascendendo gradativamente no jogo político ao conquistar fiéis e ao manipular as populações com falsas esperanças de melhorias nas mais diversas áreas como segurança e infraestrutura. Eles estão crescendo e deixando de ser apenas um fragmento ideológico para assumir uma globalidade.

Embora o neofascismo esteja inserido em um contexto diferente, ele compartilha de velhos estigmas presentes na cartilha do fascismo, sendo eles a desarticulação da educação, promovendo o anti-intelectualismo, bem como a mobilização das massas contra inimigos imaginários que deturpam velhos costumes. Além do passado mítico, da propaganda, mediante a ocultação de problemáticas ou mesmo da irrealidade quando o espaço da informação é destruído. Ao se apoiar na ingenuidade e na vulnerabilidade do indivíduo, assim como o fascismo, o neofascismo adentra as sociedades cunhando o ideário de nação, sendo instituído como uma religião política.

Como uma ideologia respaldada na “verdade”, o neofascismo avança sobre os Estados, ganhando força ao disseminar falsas concepções sociais, falácias e ataques à democracia, domesticando as sociedades em nome de um “bem-comum”. O fascismo não ficou perdido no passado, sendo uma realidade do século XXI que ganha força com a desinformação e o descrédito da democracia, utilizando as fraturas existentes na sociedade para implementar uma manipulação das massas e chegar ao cargo de chefe de Estado.


Bibliografia

García Olascoaga, Omar (2018). «Presencia del neofascismo en las democracias europeas contemporáneas». Revista Española de Investigaciones Sociológicas, 162: 3-20.

PAXTON, Robert. Anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.