• Patrícia Berniz

Necropolítica, Pandemia e Bolsonaro

Por Patrícia Berniz


Mas afinal, o que realmente significa a junção do prefixo “necro”, que tipicamente remete à morte, com o termo política?

O conceito denominado “Necropolítica” foi cunhado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe (2016) em sua obra que leva o mesmo nome do termo. O objetivo central de Mbembe é trazer para o centro da discussão política o modo como nas sociedades capitalistas o poder político se apodera da morte com o objetivo de gerenciá-la e, para isso, ele se apropria de indivíduos por meio de regras, leis e normas que conduzem o cotidiano. Dessa forma, as instituições dominantes (Estado, milícias, narcotráfico etc) pegam para si o controle sobre a decisão de quem vai viver, quem vai morrer e de que forma esses indivíduos vão morrer. Para que esse domínio sobre a morte seja pleno, o tempo todo essas estruturas dominantes estão produzindo condições mortíferas como, por exemplo, ao negar o acesso de uma parcela da população a direitos básicos, ao criar regiões que não garantem a mínima condição de vida para quem a ocupa e ainda marcando esse território como um espaço onde a morte é autorizada.


Dito isso, é possível relacionar essa concepção com as atitudes do atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido) frente ao combate da pandemia do novo coronavírus. Uma vez que ao se negar a comprar vacinas, ao se voltar contra a disponibilização de auxílios financeiros à população e ao ironizar a morte de milhões de brasileiros- o número oficial já passa de 400 mil-, o presidente está gerenciando a morte de milhares de brasileiros através de atitudes hostis ou até mesmo por meio de omissão, ponto também trabalhado na obra Mbembe, que argumenta que por vezes a não ação do poder político reforça ainda mais práticas necropolíticas.


Há inúmeros exemplos de falas e ações do governo Bolsonaro que evidenciam o uso do necropoder no gerenciamento da pandemia, no entanto, dois episódios se destacam. Primeiramente recordo a frase usada pelo chefe do Executivo, logo nos primeiros meses da pandemia, para se referir às vítimas da Covid-19: “Alguns vão morrer? Vão morrer. Lamento, é a vida. Não pode parar uma fábrica de automóveis porque tem mortes no trânsito...”. Deste modo, Bolsonaro afirma que o importante é dar seguimento ao seu plano político e econômico, independente se há pessoas morrendo por todo o país.


Narrativas como essa tentam passar a ideia de que o presidente não tem nenhuma responsabilidade sobre a vida dos brasileiros, o que é uma grande falácia anunciada e entra, mais uma vez, no conceito de omissão, que como já mencionado, é um fator que impulsiona as práticas de gestão da morte, funcionando como uma legitimação do “deixar morrer”.


Mais adiante no desenrolar da pandemia, relembro o fato de Bolsonaro ter recusado a oferta que a Pfizer, farmacêutica estadunidense, fez ainda em dezembro, a qual oferecia ao país um lote de 70 milhões de doses de seu imunizante. Caso Bolsonaro tivesse aceitado, o Brasil poderia ter começado sua campanha de vacinação ainda em dezembro, o que possivelmente evitaria o colapso do sistema de saúde de Manaus, que chegou a ficar com vários hospitais com 100% de seus leitos de UTI ocupados e sem estoque de oxigênio, cedendo espaço à criação de novas variantes do vírus e acarretou centenas de mortes.

É claro que a prática da necropolítica no Brasil não é recente, ela está presente nos presídios brasileiros há décadas, bem como no cotidiano das periferias brasileiras e pode ser percebida, principalmente, quando feito um recorte de raça, visto que o próprio Mbembe (2016) argumenta que corpos negros representam a maior parcela das vítimas fatais de ações policiais, uma das formas mais expressivas do necropoder, bem como foi com a escravidão da mão de obra negra e com o sistema econômico plantation que as primeiras práticas de gestão da morte foram aplicadas, o que fez com que negros fossem as primeiras vítimas dos despautérios decorrentes do uso do necropoder. Por fim, também é evidente que há um longo caminho no confronto a essa gestão da morte, sendo o primeiro passo para sua superação a tomada de consciência de sua existência e aplicação perversa.


Referências:

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Arte & Ensaios. Rio de Janeiro, n. 32, p. 123-151, dez. 2016. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993/7169. Acesso em: 15 abr. 2021

Pfizer confirma que governo rejeitou em 2020 oferta de 70 milhões de doses de vacinas. Folha de São Paulo. São Paulo. 7. mar 2021. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/03/pfizer-confirma-que-governo-rejeitou-oferta-de-70-milhoes-de-doses-de-vacinas.shtml. Acesso em: 27 abr 2021