• O Não Internacionalista

NARUTO SHIPPUDEN: UM ANIME SOBRE PODER, GUERRA E PAZ



INTRODUÇÃO AO UNIVERSO DE NARUTO UZUMAKI

Ao acompanhar a saga de Naruto Shippuden e sendo um estudante de Relações Internacionais, foi impossível para mim não fazer alguns paralelos envolvendo as duas experiências. A proposta deste texto é exatamente trazer essas percepções que tive enquanto assistia, mostrando para cada um que me lê o quanto Naruto e RI têm tudo a ver!

Durante a experiência com a saga Shippuden, somos apresentados, em vários momentos, a situações ligadas a alguns conceitos mais gerais das Relações Internacionais e objetos de estudo que todo estudante da área tem contato. A história de Naruto trata, resumida e essencialmente, de poder e o conceito que conhecemos por paz. A guerra, ou as guerras (ao todo foram quatro conflitos relatados dentro do universo de Naruto), são motivadas pelas vontades de cada país/vila de dominação de uns pelos outros. Durante todo o arco Shippuden do anime, a guerra é apresentada como um caminho para a paz (esse ponto será tratado com mais detalhes ao longo do texto). Minha ideia aqui é relacionar os dois temas para instigar o público leitor do O Não, mesmo aqueles que nunca tenham assistido ao anime.

Para ajudar quem nunca teve contato com o universo de Naruto Uzumaki, vou apresentar alguns detalhes importantes da história para que você possa acompanhar a leitura. Explico o que é o chakra, um jutsu, um kage e o que são as bestas de cauda, que serão parte interpretativa desse texto. Se você já está habituado, sinta-se à vontade para pular alguns parágrafos.

Um elemento central na história de Naruto é o chakra. Muito presente em papos esotéricos e sobre energia espiritual, na história de Uzumaki, o chakra é simplesmente a “energia natural” que os ninjas aprendem a canalizar sobre seu corpo para aprimorar suas habilidades. Usando o chakra, eles desenvolvem técnicas especiais conhecidas como jutsus, que por serem essencialmente compostas por energia natural, são baseadas em elementos da natureza: água, fogo, vento, relâmpago e terra. Além destes, existem outros tipos de técnicas especiais para jutsus que aplicam outros elementos, porém, para o propósito deste texto, vou ficar apenas com os principais. Recomendo aos leitores a descoberta dos demais!

Já o Kage (lê-se “cague”), é o título conferido a um ninja que o torna o guardião maior de cada nação, junto aos outros ninjas da vila. O Kage também é responsável por tarefas geralmente associadas a um representante do “Poder Executivo”, tais como o exercício da diplomacia com outras nações e pela organização burocrática de cada vila. Ao todo, são 5 grandes kages.

Por último, temos as bestas de cauda, conhecidas como bijuus no anime. As bestas são um aspecto bem emocionante da história. Apenas na parte final da saga Shippuden descobrimos seu propósito, que eu pretendo explorar mais adiante. Por agora, podemos classificar as bestas de cauda como “armas de chakra”. Elas são criaturas gigantes, que armazenam uma quantidade de chakra imensa, capazes de destruir vilas inteiras e semear grande discórdia no universo de Naruto. Elas deram muito trabalho nas três grandes guerras ninjas que precederam o período vivido por Naruto e seus companheiros. Ao todo, são nove bestas de cauda e o nível de poder de cada uma está associado à quantidade de caudas que elas têm.


A DIVISÃO DE TERRITÓRIOS E O EQUILÍBRIO DE PODER: O MUNDO EM NARUTO

Agora, começando de fato a abordagem proposta no início deste texto, e para quem nunca assistiu o anime, é preciso dizer que a própria interface do mundo de Naruto possui uma configuração muito similar ao Sistema Internacional de Estados que conhecemos. Na história, o território é dividido entre cinco grandes nações (País do Fogo, País do Vento, País do Trovão, País da Água e o País da Terra) e suas vilas (respectivamente, Vila Oculta da Folha, Vila Oculta da Areia, Vila Oculta da Nuvem, Vila Oculta da Névoa e Vila Oculta da Pedra). Juntas, elas formam o sistema de divisão territorial.

Já a organização social e burocrática de cada nação/vila remonta a um sincretismo entre o Estado moderno e um modelo feudal. Nessa estrutura, o topo da hierarquia de cada grande nação é ocupado por um senhor feudal (apresentado dessa maneira no anime, sendo uma espécie de monarca). Esse senhor, por sua vez, é cercado por um Conselho que elege um kage. O kage exerce seu poder comandando as forças ninja de cada vila e protegendo o seu país, atuando como um comandante militar. Entendendo esse sistema, ingressamos na primeira imersão importante do paralelo entre os dois espaços: As Bestas de Cauda e o conceito de equilíbrio de poder.

A força das bestas de cauda sempre foi usada pelas cinco grandes nações como uma arma de guerra. Para uma nação, ter uma das bijuus sob seu domínio significava potencializar seu poder militar em relação às demais, afinal, elas são monstros gigantes! Na história, as bestas de cauda estão inseridas nos corpos de alguns personagens, conhecidos como jinchuuriki (1), sendo o próprio Naruto um deles (2). Os jinchuuriki, são portadores do poder da besta, e conseguem difundir este poder com seus corpos, em maior ou menor grau, por isso são usados, muitas vezes, como armas militares de suas vilas. O Gaara do Deserto e sua besta, o Shukaku (besta de uma cauda), são um bom exemplo de jinchuuriki usado como arma de guerra.

Nas Relações Internacionais, o conceito de equilíbrio de poder, empreendido por Hans Morgenthau no livro Política entre as nações, explica que quando várias nações aspiram o poder, de forma a alterar ou manter o status quo, levam necessariamente a uma configuração que se chama de equilíbrio de poder, bem como ao desenvolvimento de políticas que buscam este equilíbrio. De maneira geral, essa balança seria o elemento estabilizador de um sistema de estados soberanos, em que, ao se imaginar uma projeção de poder de algum dos agentes (Estados), pode gerar, através de uma aliança entre os demais, um novo equilíbrio, em resposta à projeção. No universo de Naruto, a distribuição dos jinchuuriki ilustra o equilíbrio de poder proposto por Morgenthau. Considerando que cada nação tem pelo menos uma bijuu em seu poder, o fluxo entre as bestas durante a história pode alterar o status quo do sistema de nações, fazendo com que elas se aliem ou rivalizem, de acordo com essa dinâmica. (Atenção, daqui em diante tem spoilers!). Essa dinâmica é ainda mais evidente quando as bestas de cauda passam a ser caçadas e capturadas por um grupo de ninjas conhecido como Akatsuki. Esse é um ponto muito interessante para o desenvolvimento da história sobre o qual falo na sequência.


AKATSUKI: UM EXEMPLO SOFISTICADO DE GRUPOS PARAMILITARES

A Akatsuki é uma organização ninja composta por membros renegados (expulsos) de seu país/vila de origem. Para o objetivo deste texto, podemos interpretar a organização como um dos fenômenos sociais estudado pelas RI. A Akatsuki é muito semelhante a uma força paramilitar pelo fato de não ser controlada ou ter relação direta com nenhuma das cinco nações, além de executar crimes que desestabilizaram todo o sistema de organização do poder no anime. Ao empreender a caçada pelas bestas, os ninjas renegados são investigados e procurados por todas as nações do mundo ninja, e seus membros exercem grande influência na história. Ao longo da trama, a organização consegue se infiltrar no território de todos os países na caçada pelas grandes bestas, e isso é flagrante para percebermos uma atuação intensa, semelhante a de um grupo paramilitar ou organização criminosa como conhecemos no nosso espaço e estudamos nas Relações Internacionais.

O motivo por trás da caça das nove bestas, empreendida pela Akatsuki, é a execução de um plano de dominação do mundo ninja elaborado por seu líder, Obito Uchiha (que até o final do arco Shippuden assume a identidade de Madara Uchiha, um importante personagem e vilão da trama sobre o qual falarei adiante). Em seu plano original, Obito busca, com a fusão das nove bijuus em um único receptáculo, recriar a besta de dez caudas: uma criatura de pura energia natural de chakra, que controla perfeitamente todas as forças da natureza, praticamente invencível. Com a besta sob seu controle, Obito planeja aplicar um jutsu de ilusão (3), o Tsukuyomi Infinito (4), em todo o mundo. É importante mencionar que com a besta, nasce a Árvore Divina, que esclarece ao espectador a história por trás do chakra e da aparição dos ninjas, bem como a consequente busca pelo poder que o domínio do chakra levou às nações do universo de Naruto. Na próxima parte, explico o que o poder e a paz têm a ver com o anime!


O PODER COMO UM MEIO, A PAZ COMO UM FIM: MADARA UCHIHA, UM OLHAR SOBRE A PAZ PERPÉTUA, PAZ POSITIVA E NEGATIVA

É nos sabores finais da trama que o anime destrincha toda essa perspectiva que queria trazer aqui sobre poder, guerra e paz. O plano maligno de Obito Uchiha é a pura síntese de controle e poder, quando, na tentativa de criar o Tsukuyomi Infinito, ele pretende colocar todos os habitantes do mundo ninja em um sono profundo, sob o efeito de uma ilusão eterna. Na trama, o espelho dessa ilusão é a lua. Na composição do Tsukuyomi, o brilho da lua irradiaria este jutsu de ilusão em todos, como numa noite eterna. A motivação de Obito para a execução do jutsu é justamente a reparação da “degradação do mundo ninja com guerras e vingança”, sendo seu objetivo a criação de um mundo sem essas distorções. Um mundo perfeito, criado e controlado por sua ilusão.

Essa perspectiva de controle e poder vai diretamente de encontro ao conceito kantiano de Paz Perpétua, bem conhecido entre nós, estudantes de Relações Internacionais. Para Kant a paz perpétua se daria por interações pacíficas entre os agentes (Estados), que não deveriam se sobrepor politicamente uns sobre os outros e que só fariam a guerra se fosse essencialmente necessário. A guerra, no entanto, deveria ser evitada a qualquer custo pela construção da paz perpétua. No universo de Naruto, essa é a exata premissa da quarta grande guerra ninja. Uma guerra como um caminho para a paz perpétua, através do controle, da ilusão, do poder de um agente sobre os demais.

Obito Uchiha, contudo, não está sozinho. Na realidade, sua percepção sobre a paz e sobre a corrupção do mundo ninja desencadeada por guerras e vingança, é herdada de seu líder e grande antagonista da trama, Madara Uchiha. Madara, que viveu duas gerações antes de Naruto, é um dos ninjas mais poderosos do universo. Ele foi o grande rival do Primeiro Hokage da Vila da Folha (5), e líder do Clã Uchiha naquele tempo (6). Ele retorna na quarta guerra ninja, após ser revivido por uma técnica de jutsu ultra secreta e proibida, que estabelece seu corpo jovem, no auge do poder, no mesmo espaço que Naruto, Sasuke, e todos os outros vivem. Seu retorno confirma o plano de dominação do mundo ninja, com as mesmas premissas trazidas por seu discípulo Obito.

Na realidade, Madara é ainda mais sedento por poder. Desde seus embates contra Hashirama, ele sempre quis ser reconhecido como o ninja mais poderoso, e por isso desenvolveu grandes habilidades e aprimorou seus poderes visuais (7). Essa ânsia de poder de Madara e sua rivalidade com o Primeiro Hokage acabou levando o vilão a renegar o mundo ninja e a eterna sobreposição de poder que as interações entre as Grandes Nações causavam. Ele decide então encerrar o ciclo de ódio do mundo com o plano do Tsukuyomi, por acreditar, verdadeiramente, que ciclos de paz eram impossíveis de serem alcançados nesse mundo, justamente por não serem controlados.

O discurso de Madara e sua percepção sobre as relações de poder e a guerra, nos remetem ao que entendemos nas Relações Internacionais como paz negativa e positiva, conceitos de Johan Galtung, principal fundador da disciplina de estudos sobre paz e conflitos e do Instituto de Pesquisas de Paz de Oslo. A paz negativa é caracterizada pela ausência de violência direta, porém isso não necessariamente significaria paz, na interpretação de Galtung. Para o autor, a paz seria a construção da paz positiva, que está além da ausência de violência e que pressupõe a busca por uma paz estrutural, movida por um processo de pacificação (peacemaking) articulado pelos agentes diplomáticos.

Nesse sentido, fazendo um paralelo, o que Madara pretende combater, é a consolidação da paz negativa que os ciclos pacíficos das gerações anteriores proporcionaram, mas que não necessariamente encerraram o ciclo de ódio. A construção real da paz, ou de uma paz positiva, para Madara, passaria pelo controle sobre ela, irrompendo com o mundo ninja e o colocando em ilusão eterna.


NARUTO UZUMAKI: SEU JEITO NINJA E O SISTEMA ONU

Até aqui eu escrevi sobre um bocado de coisas referentes ao anime e não cheguei a duas linhas sobre o protagonista. Pois bem. Na realidade, a visão que queria explorar sobre os conceitos de poder, guerra e paz em Naruto Shippuden vai muito além do herói principal. Porém, ele traz consigo um aspecto bastante peculiar com o qual encerrarei este texto.

Assim como os outros pontos que apresentei aqui, durante o anime, Naruto apresenta um pano de fundo com relação bem síncrona com as Relações Internacionais. O tempo todo, ele se apresenta “o melhor ninja que o mundo já conheceu”, diz “que será o Hokage e que as pessoas irão admirá-lo”, e que, no fatídico episódio da quarta grande guerra, ele seria aquele “que salvaria o mundo ninja e quebraria o ciclo de ódio”. Como esperado de todo personagem principal, durante a trama, Naruto desenvolve e aprimora seu poder de combate e sua retórica. Muitos fãs do anime dizem, inclusive, que o Naruto ganha as lutas mais no discurso do que no combate. Um palestrinha… O desenvolvimento de suas habilidades o coloca no centro das batalhas a todo momento - como um típico protagonista.

A característica centralizadora associada à Naruto, principalmente durante a quarta guerra ninja, onde ele se coloca como o “salvador do mundo” e o responsável pelo “fim da guerra”, pode ser interpretada, dentro das Relações Internacionais, como a disposição da Organização das Nações Unidas (ONU) em ser um organismo centralizador e difusor de uma agenda pacífica. No anime, Naruto entra em conflito com Madara pois não aceita que seu mundo seja dominado e coagido pela guerra promovida pelo vilão. Ele acredita que o poder da amizade e da união das forças ninja que as Grandes Nações empreenderam para derrotar Madara, conseguiria quebrar o ciclo de ódio. Há um momento específico na trama em que ele compartilha esse sentimento com Obito Uchiha, em mais um de seus diálogos de convencimento.

E não para por aí, Naruto é um personagem fundamental para a união e proximidade dos Cinco Grandes Kages nos episódios que precedem a batalha, principalmente quando enfatiza a interdependência das nações para derrotar o inimigo comum. De forma objetiva, Naruto se apresenta como um “guardião da paz” e já tem consigo como aliados todo o mundo ninja. É um paralelo bem simples de se fazer, mas que carrega algum sentido se pensarmos que a ONU tem quase todas as nações como signatárias de seus regimentos e costumes, voluntariamente.

Minha ideia foi traçar um paralelo básico sobre algumas questões envolvendo o anime e conceitos trabalhados nas Relações Internacionais, mostrando como o aspecto do poder caminha por toda a construção narrativa da saga Shippuden. Espero que você tenha se divertido e que a leitura o tenha instigado a assistir (ou reassistir) o anime com este olhar). Garanto que faz toda a diferença na perspectiva!


Notas

  1. Significado do japonês: Poder do Sacrifício Humano, aquele que carrega uma criatura dentro de si

  2. O Jinchuuriki da besta de nove caudas

  3. No anime, esses tipos de jutsu são conhecidos como Genjutsus

  4. Tsukuyomi é o “Deus da Lua” na mitologia japonesa

  5. Conhecido como Hashirama

  6. Mesmo clã de um personagem muito importante e conhecido do anime, Sasuke Uchiha

  7. Em Naruto, algumas famílias/clãs ninja carregam poderes visuais genéticos que lhes garantem bastante vantagem em relação a outros ninjas sem essas linhagens; esses poderes visuais conseguem evoluir de acordo com a busca do ninja. No caso de Madara, Sasuke e do clã Uchiha, este poder visual é conhecido como Sharingan


Referências

CÉSAR, Paulo. A garantia de paz perpétua e a educação em Kant. [s.l.]: , [s.d.]. Disponível em: <http://www.ucs.br/etc/conferencias/index.php/anpedsul/9anpedsul/paper/viewFile/96/851>. Acesso em: 31 ago. 2021.

NARUTO, Wiki. Kage. Wiki Naruto. Disponível em: <https://naruto.fandom.com/pt-br/wiki/Kage>. Acesso em: 31 ago. 2021.

NARUTO, Wiki. Tsukuyomi Infinito. Wiki Naruto. Disponível em: <https://naruto.fandom.com/pt-br/wiki/Tsukuyomi_Infinito>. Acesso em: 31 ago. 2021.

GALTUNG, Johan. ‌Johan Galtung. Galtung-Institut. Disponível em: <https://www.galtung-institut.de/en/home/johan-galtung/>. Acesso em: 31 ago. 2021.