INSIDE JOB e as Relações Internacionais

Atualizado: 1 de fev.

Resenha por Giulia Berro

Inside Job” (2010) é uma produção estadunidense dirigida por Charles Ferguson e que ganhou o Oscar de melhor documentário por abordar de forma clara a crise econômica de 2008, a qual ocorreu nos Estados Unidos e afetou boa parte do cenário mundial. Esse episódio consistiu na ampliação da liberação de crédito por parte de diversos bancos norte-americanos a indivíduos que estavam entusiasmados com o aumento constante dos preços do mercado imobiliário, uma vez que viam nesse setor uma oportunidade de lucrar em futuras valorizações.

​ No entanto, o crescimento dos valores provocou uma bolha imobiliária, isto é, o dinheiro emprestado pelos bancos fez com que os juros subissem e os preços dos imóveis caíssem drasticamente, o que desencadeou a inadimplência de instituições financeiras. Por consequência, houve uma falta de dinheiro para essas organizações arcarem com seus compromissos, o que gerou centenas de falências, sentidas não apenas pelos bancos estadunidenses, mas também por diversas outras economias ao redor do mundo. Em paralelo, é considerada a maior instabilidade mundial desde a crise da superprodução de 1929 – A Grande Depressão – que foi responsável pelo colapso do capitalismo e do liberalismo econômico em diversos países.

É evidente o objetivo de Ferguson em mostrar que a ocorrência dessa instabilidade não foi algo novo para a economia liberal estadunidense. Ele deixa claro que não se tratava de um fato ocorrido espontaneamente e que diversos indivíduos enriqueceram durante esse momento de terror para a maioria das pessoas. Para demonstrar isso, o autor apresenta as micro crises que vinham acontecendo há décadas nos Estados Unidos por meio do crescimento das desregulamentações do setor financeiro, o qual passou de instituições voltadas ao financiamento local, para um mercado predatório que tinha o objetivo de enriquecer os financiadores e desenvolver um monopólio. Além disso, o cineasta demonstra que não houve punição para aqueles que contribuíram com os eventos que geraram a maior instabilidade financeira mundial desde a crise de 1929. Ao invés disso, mantiveram-se capitaneando seus lucros e conseguiram grandes cargos no governo, objetivando defender seus interesses, que eram contrários à regulamentação.

As implicações feitas por Ferguson demonstram quão frágil é a economia capitalista e liberal dos Estados Unidos, a qual se utiliza da busca por um livre mercado, sem burocracias e regulamentações, e visa desenvolver monopólios capazes de desestabilizar o mundo e o próprio país, em nome do enriquecimento de poucas pessoas. No entanto, esse sistema faz com que a população acredite que é mais livre para se desenvolver do que nos países emergentes. Nesse sentido, a crença dominante é a de que esses territórios se tornariam democracias instáveis caso houvesse uma maior regulamentação. Esse fato estimula muitos estadunidenses a acreditarem que as críticas ao sistema capitalista dos EUA existiriam apenas por um ódio infundado dos países do sul global contra os norte-americanos, beirando uma inveja pela sua liberdade.

Essa vitimização dos EUA é analisada pelo autor Fareed Zakaria, em sua obra “O mundo pós Americano” (2009), escrita pouco depois da crise de 2008. Em seu livro, ele busca entender como seria a transferência de um mundo unipolar para um multipolar. Zakaria relata que enquanto os estadunidenses acreditam que os países emergentes os odeiam, eles estão, na verdade, em franco desenvolvimento e interessados em outras partes do globo (ZAKARIA, 2009). Isso implica que o próprio sistema norte-americano gerou a desaceleração que é vista hoje na influência e liderança do país no mundo, uma vez que o que era antes visto como apenas um ambiente hostil aos estadunidenses, tornou-se alternativa a eles, como é o caso do Brasil, China e Índia. Tal afirmação continua embasada em Zakaria, que afirma que os aspectos culturais, financeiros, sociais e industriais estão sendo distribuídos para outros países (ZAKARIA, 2009).

Entretanto, o autor considera que o mundo ainda enfrenta uma unipolaridade no que concerne aos tópicos militar e político (ZAKARIA, 2009). Esse ponto demonstra que a obra tem que ser entendida, em algumas partes, como datada, isto é, restrita ao período de sua escrita. De fato, os Estados Unidos ainda são o país com maior poderio bélico no mundo, porém algumas nações vêm desenvolvendo esse setor, tornando-se potências regionais e descentralizando a influência dos EUA. Esse é o caso da China, a qual, conforme dados do Instituto Internacional de Estudo Estratégicos possui o segundo maior investimento militar do mundo (IISS, 2019).

​ No campo político, os chineses também são exemplo na ruptura da predominância norte-americana, visto que o crescimento econômico chinês proporcionou a alavancada de sua influência em todo o planeta. É indubitável que a autoridade dos Estados Unidos ainda é muito clara e presente. Contudo, o aumento da confiança na China, juntamente com o seu protagonismo em muitas entidades internacionais e a inserção de recursos chineses em determinados países, favoreceram o desenvolvimento do prestígio do país asiático.

​ Dessa forma, fica claro que a crise de 2008 apresentada no documentário é apenas uma grande expressão do declínio da hegemonia norte-americana constatada por Zakaria. Contudo, esse processo já vinha ocorrendo há tempos e está centrado no sistema econômico e social que o país possui. Além disso, torna-se explícito como a desregulamentação provoca movimentações individuais capazes de colocar a estabilidade de uma nação em risco, como foi apresentado pelo o autor de “Inside Job” ao relatar o favorecimento histórico de poucas pessoas com as recessões tanto dos Estados Unidos quanto dos demais países que sofrem a influência dele.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ZAKARIA, Fareed. O Mundo pós-americano. W. W. Norton & Company. Nova York e Londres. 2009.

INSIDE Job. Direção de Charles H. Ferguson. Nova York: Sony Pictures Classic. 1 VÍDEO (108min). Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1SWjqGkotsaFmYIyL44pHEYKBybjY2Y zp/view?usp=sharing. Acesso em: 20 out. 2020

GASTOS com defesa no mundo têm maior salto em uma década. DW Brasil. 2020. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/gastos-com-defesa-no-mundo-t%C3%AAm-maior-salto-em-uma-d%C3%A9cada/a-52384687. Acesso em: 21 out. 2020