Guerra Mundial Z: Uma ficção que remonta os tempos atuais

Atualizado: 1 de fev.

Título: Guerra Mundial Z, Subtítulo: Uma história oral da guerra dos zumbis

Informações técnicas: Editora: Rocco

Autor: Brooks, Max. Tradução: Vinagre, Ryta

Número de páginas: 368, Edição: 1, Data de publicação: 01/05/2013, Idioma: Português


A pandemia de COVID-19 causou grandes impactos no mundo, não só no aspecto epidemiológico, mas também no social, econômico, político e cultural. Eles se apresentam de diversas maneiras e podem ser sentidos de diferentes formas, a depender de pontos como classe social, raça, gênero, nacionalidade, entre outros. O surto da doença intensificou problemas sociais já existentes, entre eles, questões de gênero, discriminação racial e desigualdade. Esses impactos também foram revelados na política internacional, e pudemos ver um cenário emergencial que aflorou os mais diversos comportamentos quando falamos da interação entre os atores internacionais. Em vista disso, esse texto pretende trazer uma resenha que relaciona a obra “Guerra Mundial Z: uma história oral da guerra dos zumbis” (2013), de Max Brooks, com a crise sanitária e os desdobramentos da política internacional vividos nos últimos anos.

Do universo ficcional construído pelo autor do livro podem ser extraídas muitas reflexões acerca do que se pôde ver no período da pandemia de COVID-19, no sistema internacional do mundo real. Dessa forma, faz-se necessária uma breve contextualização da obra. Max Brooks explora sua criatividade elaborando uma paródia dos guias de sobrevivência que, geralmente, são vistos por aqueles que pensam cenários apocalípticos. O autor constrói uma narrativa que foca no sentimento de histeria coletiva provocado por uma pandemia de um vírus que transforma as pessoas no que ele chama de “zumbis”, os conhecidos mortos-vivos. O personagem principal da obra é um funcionário da Organização das Nações Unidas (ONU) encarregado de criar um relatório sobre a guerra entre homens e zumbis, que por pouco não dizimou a humanidade, 12 anos antes do início de sua empreitada. Ele percorre o mundo colhendo relatos de sobreviventes de diferentes nacionalidades e que tiveram as mais diversas experiências durante a crise. Nessa missão, ele tem contato com perspectivas variadas sobre como cidadãos, países, instituições e figuras políticas lidaram com o colapso mundial.

Durante a leitura da obra, é impactante perceber como uma história ficcional escrita originalmente em 2006 tem tanto em comum com o que pôde ser observado no mundo real nos anos de 2020 e 2021. De um lado, uma pandemia de um vírus desconhecido altamente contagioso que transforma pessoas saudáveis em mortos-vivos; de outro, uma pandemia de um vírus também desconhecido e altamente contagioso e letal que transborda fronteiras e se torna uma preocupação global, exigindo, também, uma resposta transfronteiriça. As semelhanças são muitas, tanto no que diz respeito ao comportamento dos cidadãos em massa, em que vemos igualmente uma dicotomia entre aqueles que acreditam no potencial destrutivo do vírus e os negacionistas, como na necessidade de se mapear onde a pandemia tem início e, se existem culpados pelo espalhamento desta pelo mundo, quais são.

Coincidentemente, em relação ao último ponto citado, temos na realidade uma semelhança ainda mais assustadora. Na obra de Brooks, os primeiros casos de contaminação também são observados, supostamente, na China, que, similarmente à pandemia de COVID-19, assume uma postura inicial de reter informações sobre isso dentro do próprio país. No mundo real, essa atitude chinesa criou grandes desdobramentos políticos que resultaram em impactos sociais, como a criação de teorias conspiratórias que atribuíam ao país a criação do vírus e o reforço dos discursos anti-China, alimentados, principalmente, pelos EUA. Para além do caso chinês, a obra traz perspectivas nos relatos dos sobreviventes sobre alguns outros casos que também merecem destaque.

Em um dos relatos, um sobrevivente norte-americano fala sobre as ações midiáticas dos governos para fazerem propagandas, passando a imagem de que estavam no controle da situação em meio a crise. É interessante apontar que, durante a pandemia de COVID-19, observou-se governos fazendo o mesmo para se colocarem no cenário internacional como protagonistas, em geral por questões políticas. Um exemplo disso foi a China tentando se colocar internacionalmente como líder no combate ao vírus com a chamada “diplomacia das máscaras”, que consiste na capitalização de sua boa resposta à pandemia e na geração de suprimentos globais para combate ao vírus em escala mundial, disponibilizados através de doações ou vendas, sempre objetivando o aumento de sua influência global.

É também necessário ressaltar os EUA, que possui um papel central no livro. Muitos norte-americanos são entrevistados, e um deles traz um apontamento extremamente pertinente, que pode ser considerado quando olhamos a realidade na qual nos encontramos. Ele fala dos erros cometidos pelos EUA e o que o negacionismo inicial lhes custou. Também expõe sobre a mudança de postura negacionista para a aceitação da realidade e a tomada de atitude e elaboração de uma estratégia de contenção do vírus pelo país, quando, enfim, a seriedade da situação é percebida. Sua colocação mais importante se dá quando destaca que o apreço às liberdades individuais está no cerne da sociedade norte-americana, e que, numa situação em que se exige uma resposta coletiva e empática como uma pandemia, essa característica pode ser determinante para a criação de uma catástrofe. Esse apontamento é interessante pois observa-se que, em relação a pandemia real, o desempenho dos EUA e a sua postura perante ao sistema internacional está muito ligado a esse fator.

Por outro lado, a obra também aponta como a cooperação internacional é importante e excessivamente necessária em tempos de crise. Como exemplos disso, são destacados a situação de Israel, que teve uma boa resposta à pandemia e serviu de modelo e inspiração para outros países e também a cooperação entre México, EUA e Canadá para limpar os zumbis da América do Norte.

Em suma, a criação de Max Brooks é extremamente rica e carrega um enorme potencial de análise. Toda a obra é permeada por política internacional e suas críticas ficam bem evidentes ao longo da produção, críticas essas muitas vezes voltadas ao próprio país de origem do autor, os EUA.



Escrito por: Anna Karolinne