• Gabriela Elesbão

GRANDES CORPORAÇÕES E DEMOCRACIA



A globalização transformou as relações entre Estados, empresas e seus cidadãos. Produtos das mais diversas localidades mundiais podem ser encontrados em qualquer lugar. De acordo com os princípios do neoliberalismo, quanto mais livres as políticas de mercado, mais democráticos e prósperos serão os países, portanto, a presença de grandes corporações em um território só pode ser entendida como um grande sinal de desenvolvimento e sucesso. Além disso, toda vez que o Estado não for capaz de cumprir demandas sociais, essas empresas podem colaborar com os cidadãos, através da promoção não apenas de empregos, mas também de financiamentos de projetos de caridade e outros benefícios. Mas será mesmo que essas relações entre Estados, empresas e cidadãos são tão benéficas para a sociedade?

Apesar das suposições comuns, na prática, as grandes corporações barganham com governos por isenção de impostos milionários, acordos judiciais, beneficiam-se da exploração dos recursos naturais e dos territórios de povos originários, além de utilizarem seu poder financeiro para promoverem políticas de ajuste fiscal e o enfraquecimento de legislações trabalhistas, fragmentando sistemas democráticos e contando com a ajuda do aparato repressor estatal para garantir seus interesses diante da população. Também organizam lobbies e financiam não apenas partidos políticos, mas também programas universitários voltados para promoção de sua ideologia, promovendo, inclusive, candidatos com programas políticos respaldados por seus interesses e interferindo em processos eleitorais em diferentes países.

Em 2019, o presidente boliviano Evo Morales sofreu um golpe de Estado, sendo obrigado a deixar seu cargo após ter familiares e companheiros de partidos sequestrados e linchados, com suas casas invadidas por opositores. Esse golpe foi orquestrado com o apoio do governo estadunidense e da empresa Solar City, cujo próprio dono, o bilionário Elon Musk (também dono da Tesla), publicou em seu Twitter o interesse existente entre sua empresa e os recursos minerais bolivianos, mais facilmente explorados em um governo focado no mercado externo, através da mensagem "podemos dar golpe em quem quisermos".

Outro exemplo é o caso da Vale do Rio Doce, a estatal criada durante o governo de Getúlio Vargas, com o objetivo de desenvolver uma empresa nacional de mineração. Em 1997, sob muitos protestos da população, a Vale foi privatizada e seu controle passou a ser responsabilidade de um conselho de acionistas, formado, majoritariamente, por bancos. A partir desse período, aumentaram-se as denúncias de violação dos direitos humanos, mineração em contextos inadequados e degradação ambiental. O rompimento das barragens em Mariana e Brumadinho só deixou a situação ainda mais explícita: apesar dos subsídios nacionais e das concessões em relação à exploração de minérios em território brasileiro, além das especulações políticas promovidas pelos dirigentes dos bancos que controlavam a Vale, as investigações apontaram que, desde 2003, a empresa sabia da instabilidade das barragens e seus consequentes riscos ambientais e humanitários, mas não tomou medidas cabíveis para evitá-los. Assim, mais de cinco anos após o ecocídio de Mariana, a Vale ainda nega indenizações e reparações aos familiares das vítimas, mas, principalmente, não realiza investimentos para reparar o ecossistema destruído em MG, ainda que seu faturamento seja de mais de 200 bilhões de dólares anuais

O monitoramento de informações civis também é um caminho lucrativo para os empresários: desde o atentado às Torres Gêmeas em setembro de 2001 nos Estados Unidos, as empresas ligadas à área de tecnologia investem em campanhas publicitárias que alimentam a atmosfera de medo do terrorismo, dos imigrantes e da violência cotidiana, com o objetivo de venderem para governos seus produtos capazes de captarem conversas telefônicas, localizarem smartphones e identificar biometrias. As empresas dessa área fazem parte do chamado "complexo industrial de segurança".

Em 2020, a Amazon gerou uma receita de 386 bilhões de dólares, a Tesla,281,2 bilhões e empresas ligadas à mineração, como a Vale, podem gerar receitas superiores a 208 bilhões de reais. Todo esse lucro é gerado pela exploração da força de trabalho em países da periferia do Sistema Internacional, pela influência dessas empresas diante das legislações dos países e, principalmente, pela ausência de responsabilização diante dos danos causados pela atuação dessas corporações em diferentes localidades.

Atualmente, existem uma série de problemas relativos à atuação de grandes empresas ao redor do mundo, desde a devastação dos ecossistemas planetários, condições de trabalho análogo à escravidão, serviços de espionagem até mudanças em políticas públicas em diferentes países. Em seu artigo intitulado "Com o tempo contado", o sociólogo Edgardo Lander afirma que "desigualdades profundas não são compatíveis com a democracia" e é isso que os dados demonstram em relação à enorme concentração de riquezas gerada por grandes corporações, através dos benefícios concedidos a elas pelo mercado neoliberal.