• Mainara Gomes

FUTEBOL E SOFT POWER: O CASO DO CATAR POR MEIO DO PSG.

Nas relações internacionais não existe uma definição consensual sobre o que é o poder. No entanto, a descrição mais comumente utilizada é a de Joseph Nye, um cientista político bastante estudado nas Relações Internacionais. Para o autor, o poder refere-se à capacidade de se obter os resultados desejados e à habilidade de influenciar os outros para que seus objetivos sejam alcançados (NYE, 2004, p. 1-2 apud PIZARRO, 2017). Nesse sentido, Nye divide o poder em dois tipos: o hard power e o soft power. O hard power refere-se ao “poder duro”, ou seja, à capacidade que determinado Estado possui de fazer com que outro Estado exerça as suas vontades através da coerção (sendo medido pela quantidade de armas nucleares, exércitos, PIB, por exemplo). Já o soft power, um conceito criado em 1990 em contraposição ao hard power, para Nye, significa “uma capacidade persuasiva de poder, ou seja, a capacidade de um Estado obter algo através de um efeito de atração e não por coerção ou pagamento, e assenta fundamentalmente no potencial atrativo da universalidade da cultura de um país, dos valores políticos, e das suas políticas” (LOBO-FERNANDES, 2005, p. 169).

Em outras palavras, o soft power diz respeito à habilidade que um Estado possui de exercer seu poder ou influência por meio das ideias. Ele é baseado na persuasão, ao contrário do hard power, que é fundamentado na coerção, e pode ser exercido por meio da cultura, dos valores políticos, da política externa, do cinema ou por meio do esporte, por exemplo (PIZARRO, 2017). Para alguns países, então, o esporte e, principalmente, o futebol, se constitui como uma ferramenta de soft power, como é o caso do Qatar.

O Qatar é um emirado situado no Oriente Médio e seu sistema político consiste em uma monarquia hereditária na qual governa um Emir. Embora seja um dos menores países do mundo, o Qatar é, também, um dos mais ricos, por ser um grande produtor de gás natural. Isso justifica sua importância estratégica na região.

Desde que se tornou independente do Reino Unido, em 1971, o emirado utiliza o esporte como uma maneira de construir a sua identidade nacional. O envolvimento com o esporte, portanto, não é algo totalmente novo. Em 1979, foi criado o Comitê Olímpico do Qatar e em 1980, após seu reconhecimento pelo Comitê Olímpico Internacional, o país foi percebido, de fato, como uma nação independente. Porém, foi a partir de 2004 que o Qatar decidiu incrementar seu envolvimento com o esporte, fazendo dele um mecanismo de influência no sistema internacional a fim de se tornar um país mais relevante. É importante ressaltar que o Qatar já sediou diversos torneios internacionais: o torneio de tênis Qatar Open, em 2006; os Jogos Asiáticos e o torneio de futebol da Copa da Ásia, em 2011, dentre outros. Em 2022, o país sediará a Copa do Mundo.

De muitas maneiras o futebol pode se transformar em uma prática de “sportswashing”, ou seja, uma ferramenta usada para esconder a “real” imagem de um país e para desviar a atenção internacional dos crimes e violações que ocorrem em seu interior. Em tradução literal, seria uma espécie de “lavagem esportiva”. O futebol, assim, se torna um instrumento político e, desde o início das duas Guerras Mundiais, vem sendo usado dessa forma por alguns países. Este esporte, portanto, foi e é utilizado para esconder crimes e violações de direitos humanos como ocorreu, por exemplo, no caso da Alemanha nazista e nos países latinoamericanos à época da ditadura, ou mesmo para tentar melhorar a popularidade de um líder, como no Brasil de Getúlio Vargas e de Jair Bolsonaro, na Rússia de Putin, sendo também, atualmente, o caso do Qatar.

Em 2008, por exemplo, o Qatar lançou o chamado “Qatar National Vision 2030”, um plano que tem como objetivo alterar a sua imagem perante o sistema internacional (já que o país é associado ao terrorismo, acusado de financiar grupos como o Estado Islâmico e a Irmandade Mulçumana, pratica diversas violações de direitos humanos e não cumpre acordos internacionais). É, portanto, visando reconstruir sua imagem internacional, exercer influência no cenário internacional e, de certa forma, tentar se distanciar da Arábia Saudita - país onde há uma maior rigidez em relação aos direitos e liberdades políticas e ideológicas -, ou até mesmo dos países vizinhos, que o Qatar investe no futebol como mecanismo de soft power. Porém, além de buscar relações diplomáticas e comerciais com outros países e aumentar sua relevância no sistema internacional, o uso do futebol como instrumento de soft power pelo Qatar possui outro objetivo: a diversificação da sua economia, atualmente baseada na exportação de recursos finitos como petróleo e gás.

No Qatar, o exercício de soft power se dá por meio do clube Paris Saint-Germain (PSG). Em 2011, o time francês foi comprado pelo Qatar Sports Investments que pretendia torná-lo uma referência no esporte. Desde sua aquisição pelo Qatar, o PSG investiu mais de 1 bilhão de euros em contratações. Em 2017, o clube fez a transação mais cara do futebol até o momento, ao comprar o jogador brasileiro Neymar, pagando a multa rescisória de 222 milhões de euros (o equivalente a aproximadamente 1,4 bilhões de reais). Para além de uma estratégia de marketing, o Qatar exerceu soft power sobre os países do Golfo que haviam rompido relações diplomáticas após o país ser acusado de financiar o terrorismo. Desta maneira, o Qatar utiliza o futebol como soft power, principalmente através do PSG, para alterar sua imagem no cenário internacional. É, nesse sentido, uma constatação evidente de que o Qatar pretende se afirmar internacionalmente por meio do futebol.

Entretanto, o país não conseguiu se desvincular da imagem antiga e ainda enfrenta inúmeras denúncias que destoam daquilo que deseja transmitir para o mundo, principalmente porque ainda é acusado de financiar grupos considerados terroristas; acusado de comprar votos para sediar a Copa do Mundo de 2022 e de perpetrar violações de direitos humanos. Por essas razões, o Qatar tem mobilizado esforços para construir uma “branding” (marca) associada às ideias de modernidade, desenvolvimento e segurança. Isso se deu, sobretudo, com a contratação de Neymar que representou, ao mesmo tempo, uma valorização do PSG e uma “propaganda” do objetivo do Qatar em construir uma nova imagem no cenário comercial, financeiro e geopolítico. Para o Qatar isso significa, portanto, ser reconhecido como um país moderno, próximo dos valores ocidentais.


REFERÊNCIAS


BRANNAGAN, P. M; GIULIANOTTI, R. Soft power and soft disempowerment: Qatar, global sport and football’s 2022 World Cup finals. Leisure Studies, v. 34, n. 6, p. 703-719, 2014.


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CNN. Sportwashing: what is it and who practice it?. Disponível em: <encurtador.com.br/lrsz0>. Acesso em: 21 jun. 2021.


DRUMOND, M. A projeção internacional do Catar por meio do Paris Saint-Germain. Nexo Jornal, 2018 Disponível em: <encurtador.com.br/fhtCP>. Acesso em: 20 jun. 2021.


FOLHA DE PERNAMBUCO. Em nove anos, sonho do título europeu custou R$8,4 bilhões ao PSG. 2020. Disponível em: <encurtador.com.br/hiksv>. Acesso em: 21 jun. 2021.


G1. Transferência de Neymar ao PSG é golpe de ‘soft power’ do Catar a países do Golfo, dizem especialistas. 2017. Disponível em: <hencurtador.com.br/ipuRU>. Acesso em: 20 jun. 2021.


LOBO-FERNANDES, Luís. Soft power: o jogo de atracção cultural e as vantagens da cooperação. Relações Internacionais, online, n. 6, p. 169-172, jun. 2005. Disponível em: < encurtador.com.br/tvxT7>. Acesso em: 20 jun. 2021.


MS EM MOVIMENTO. Saiba o que é soft power e sportswashing e como essas práticas unem PSG e o Qatar na final da Champions. Disponível em: <https://msemmovimento.com.br/?p=15077>. Acesso em: 20 jun. 2021


PIZARRO, J. O. FIFA e o soft power do futebol nas relações internacionais. Recorde, Rio de Janeiro, v. 10, n. 2, p. 1-19, jul/dez. 2017. Disponível em: <https://revistas.ufrj.br/index.php/Recorde/article/view/14337/9603>. Acesso em: 20 jun. 2021


UOL. Champions e violação de direitos humanos: Catar escancara dilema no esporte. 2020. Disponível em: <encurtador.com.br/fhmI9>. Acesso em: 20 jun. 2021.