Duna: O Messianismo político

Por Rafael dos Reis

A adaptação cinematográfica lançada ao fim do ano passado “Duna” (2021) retoma uma das mais importantes obras da literatura de ficção científica. São poucos manuscritos do gênero que manipulam com tanta maestria uma vasta diversidade de temas que permeiam atualmente a sociedade. Na obra literária original (1965), Frank Herbert se aprofunda nas questões acerca do planeta Arrakis, um deserto de grande importância : o único lugar capaz de extrair o mélange – a especiaria. Tendo a criação de mundo como o principal alicerce de sua obra, o autor aborda temas fundamentais como a religião, as guerras santas em nome do protagonista, Paul Atreides, a ecologia do planeta e todas as tramas políticas que envolvem o Imperium, uma espécie de feudalismo intergaláctico.

Em linhas gerais, pode-se deixar de lado os elementos fantásticos da obra a fim de analisar as relações políticas tão bem trabalhadas nos dois primeiros de cinco volumes, Duna e Messias de Duna. Paul é a figura central da história e herdeiro da Casa Atreides, cuja responsabilidade é administrar o planeta Arrakis. Além das relações comerciais, os Atreides precisam resolver os conflitos internos com os fremen, o povo nativo que enxerga o personagem como a figura de seu tão aguardado profeta.

Uma das indagações filosóficas mais interessantes de Herbert é a tendência natural da humanidade de se render, de tempos em tempos, à uma figura messiânica e de abrir mão de seu próprio livre-arbítrio. O termo "messias" provém do hebraico "mashiah". Diversas tradições religiosas acreditam no messias como o enviado de Deus para libertar seu povo, tal qual Paul para os fremen.

Para além da ficção, no Brasil existe uma extensa raiz histórica que evidencia o clamor público por um messias em tempos de crise. Talvez o momento mais representativo seja durante o século XIX, principalmente com a Revolta de Canudos, em 1896. A pequena cidadela localizada na Bahia, era liderada por Antônio Conselheiro, uma figura de forte influência na população local. A condição crônica das secas e do clima da região agravaram uma grande crise econômica. Junto a isso, o conflito foi impulsionado pela pressão dos grandes fazendeiros. A instabilidade política da transição republicana em 1889 com Deodoro da Fonseca na presidência, as condições de ex-escravos e sertanejos que migravam constantemente para cidade e as condições territoriais desfavoráveis: todos esses fatores contribuíram para a lástima dos estimados 25 mil habitantes. Por fim, após três tentativas de repressão militar sem sucesso, deflagrou-se uma guerra onde o Exército destruiu o Arraial de Canudos.

É importante ressaltar também a figura de Antônio Conselheiro "O Peregrino". Que agia como um sábio que dava conselhos (tal qual seu apelido). Nas suas pregações, de forte teor religioso, falava sobre uma vida santa, relacionava com as condições do sertão e prometia lugar no céu após o apocalipse.

Atualmente, é muito comum debater-se a ideia de um salvador, uma figura que livrará um povo de um mal, trazendo tempos de paz e de prosperidade.

A beleza da obra de Herbert não está somente nas relações políticas entrelaçadas, nem mesmo nas descrições de cenários estonteantes ou conceitos fantásticos. Seu fascínio – e mérito pessoal, é com a maneira de contar uma história com elementos de seu próprio contexto histórico. Existem diversos paralelos a serem traçados com as realidades socioeconômicas do século XX: as disputas pela posse do petróleo nas regiões do Oriente Médio com o mélange, por exemplo. Mas é necessário um extenso debate para se ater inteiramente a todas as analogias sem que se fuja do contexto religioso, que é o eixo principal desta tese.

O escritor Neil Gaiman, no prefácio de Fahrenheit 451, descreve este fenômeno da seguinte forma:

“(...) a ficção especulativa é muito boa em abordar o presente, não o futuro. É boa em tomar um aspecto problemático ou perigoso do presente e o estender, extrapolar esse aspecto até que ele se torne algo em que as pessoas daquela época possam ver sua realidade a partir de um ângulo ou local diferentes. Ela é preventiva”

Além da representação clara da figura messiânica em Paul Atreides, a história abrange também as consequências de uma filosofia de governo pautada na religiosidade. Os exércitos fremen partem para um jihad – uma guerra santa e cometem genocídios em nome de seu profeta. Hoje, existem poucos Estados cuja religião seja oficialmente reconhecida. Alguns dos principais exemplos são a Inglaterra, com o anglicanismo; o cristianismo ortodoxo na Grécia e na Rússia; e o islamismo em boa parte do Oriente Médio. Nesse sentido, até mesmo por não utilizar de neologismos, o autor se utiliza do termo da religião islâmica que descreve o dever dos muçulmanos de disseminar sua fé.

Após a Constituição de 1988, o Brasil se torna um país laico. Isso estabelece que crenças e doutrinas religiosas não podem influenciar nas decisões de caráter político. Entretanto, é impossível desvencilhar-se do fato de que a população brasileira é majoritariamente cristã, uma pesquisa realizada em 2020 pelo Datafolha concluiu que 80% da população se declara cristã.

Dito isso, discute-se uma imposição de uma cosmovisão cristã - de bancadas abertamente religiosas que impedem discussões racionais sobre diferentes temas que entram em conflito com sua fé. A legalização do aborto e a questão das drogas, por exemplo, que possuem barreiras culturais e ainda são tratadas com tabu. Por fim, a aproximação entre igreja-Estado nos últimos anos ainda é mais evidente. A religião é utilizada como instrumento de causas políticas evangélicas, como a tentativa do governo de perdoar dívidas no valor de R$1 bilhão e isentar impostos das igrejas.

Para tanto, a passagem a seguir de Lady Jessica, mãe de Paul, evidencia bem uma das consequências dessa convergência entre religião e política:

“– Vocês estão criando um paradoxo letal – Jéssica escrevera. – O governo não pode ser religioso e autoritário ao mesmo tempo. A experiência religiosa precisa de uma espontaneidade que as leis inevitavelmente suprimem. E não há como governar sem lei. Suas leis acabarão tendo de substituir a moralidade, substituir a consciência, substituir até mesmo a religião por meio da qual vocês imaginam governar.”

Duna é atemporal, Frank Herbert consegue articular todos esses temas que estavam em pleno debate durante a Guerra Fria e eles se mantêm atuais mesmo cinquenta anos após escrito. É uma obra essencial para grandes fãs de literatura, de ficção científica, e até para analisar questões políticas, econômicas, sociais, ambientais, biológicas e antropológicas. É uma obra que reúne grandes pensamentos filosóficos que se aplicam em diversos cenários do âmbito social. As referências de Herbert e suas analogias ficam fundamentalmente cada vez mais reais.


REFERÊNCIAS


HERBERT, Frank. Duna. 2° edição. São Paulo: Aleph, 2021.

HERBERT, Frank. Messias de Duna. 2° edição. São Paulo: Aleph, 2021.

BRADBURY, Ray; GAIMAN, Neil. Fahrenheit 451. 1° edição. São Paulo: Biblioteca Azul, 2012.

DATAFOLHA. Brasil e Religião. Instituto de Pesquisa Datafolha, Opinião Pública, dossiês. São Paulo, jan. de 2020. Disponível em: <https://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2007/05/1223870-64-dos-brasileiros-se-declaram-catolicos.shtml>. Acesso no dia 04 de janeiro de 2022.