• O Não Internacionalista

Dr. Strangelove, a Guerra e o "Wargasm" de Payne

Por Laís Sankari


“How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb” é o subtítulo da obra kubrickniana de 1964, Dr. Srangelove, onde o célebre diretor, Stanley Kubrick, satiriza o medo americano de um conflito nuclear entre a, então existente potência, União Soviética e os Estados Unidos. A sátira de Kubrick se constrói por intermédio da atuação de Peter Sellers – que, assumindo o papel de três personagens centrais – caracteriza-se como o nome-título do filme, Dr. Strangelove, um especialista em poderio nuclear e nazista reformado cujo conselhos na Sala de Guerra – durante a ameaça de destruição mútua entre os grandes poderes nucleares – chocam o espectador com sua causalidade e “absurdismo”. Dentro da teoria das relações internacionais o filme é de fácil associação; podendo ser diretamente relacionado a questões de guerra, dinâmicas de poder, dilema de segurança e segurança nacional.

Nesse sentido, seria óbvio trabalhar esses questionamentos como elementos centrais de uma resenha e, eles serão, essencialmente, aqui abordados, mas como explorado por Payne (2019) em sua dissertação “Grappling with Dr. Srangelove’s “Wargasm” Fantasy” pouco se discute, dentro das relações internacionais o papel do patriarcalismo na constituição da ideia de guerra satirizada por Kubrick em sua obra e as implicações da mesma na tomada de ações, que no filme, levariam à destruição mútua de ambas as potências e, consequentemente, do mundo. Analisando o filme a partir de uma lógica realista – utilizando autores como Waltz (1989) e Mearsheimer (2001) – Dr.Strangelove se fundamenta como a clássica “cautionary tale”.

A ideia central do filme gira em torno da exploração do dilema de segurança, mas em uma situação de extrapolação lógica clara: ambas as potências – vivendo uma situação de incerteza intensa agem com agressividade e tomam ações pouco racionais – armam-se nuclearmente e, mesmo frente ao possível conflito, continuam a fazê-lo escalando a situação e levando ao estabelecimento de uma crise cuja única solução, dada por Strangelove, seria a de “selecionar parte da população e esconder-se no ‘underground’, enquanto o resto do mundo é destruindo nuclearmente”. Descontando o absurdo da constatação tem-se a ideia de que é mais fácil se armar, se destruir mutuamente e destruir o mundo do que, em um consenso, agir racionalmente e finalizar o conflito.

A sátira do filme se baseia, nesse sentido, na tomada de decisões por parte de homens para homens pensando em homem – o famoso “10 to 1 women-man ratio” – e, dentro da construção narrativa crítica analisada nas relações internacionais, se encaixa claramente em uma discussão temática neorrealista. Payne (2019) ao abordar uma perspectiva diferenciada aponta que, acima de tudo, Dr.Strangelove faz parte das chamadas “Sex Comedy” e, como dito no subtítulo, trata-se de aprender a amar a bomba. Essa visão é, predominantemente, construída com base na ideia de “wish-fullfillment” masculino e patriarcal; a exploração do dilema de segurança e a busca incessante por superar a potência dos armamentos do lado oposto como um reflexo claro dos fundamentos patriarcais das relações internacionais.

Tickner (1988) determinou que as relações internacionais são pouco atrativas para as mulheres e, pautando-se nas ideias de feminilidade tradicionais, de fato, vê-se pouco espaço para presença feminina em um mundo construído sobre uma ótica intrinsecamente masculina. No War Room kubrickniano não existem mulheres – e isso reflete a realidade da época – e as discussões dominadas por Muflley, Strangelove e Turgidson são determinadas por suas visões caracteristicamente masculinas da realidade. A extrapolação satírica de uma visão de guerra neorrealista feita por Kubrick, mesmo que acidentalmente, aponta para uma tendência clara da área de trabalhar-se com ideias claramente precipitadas pelo cálculo racional e, muitas vezes agressivo, nascido de uma ideia arcaica sobre “war fighting”, masculinidade e “the men’s view”.

Enquanto, de fato, uma análise das dimensões das incertezas de cálculo, arrogância estatal e perigos dos armamentos nucleares poderia ser entendida como mais pertinente a temática, Payne (2019) aponta que a ideia de uma explosão nuclear, mais do que a própria guerra, é fundamentada nas noções de virilidade e poderio. A grandiosidade do poder de ambas as nações – URSS e EUA – enquanto portadoras de armamentos nucleares apresenta no filme um tom claramente sexualizado, que pode ser transportado para a realidade e, ainda mais relevante para o argumento aqui feito, para as relações internacionais. A ideia de que as grandes teorias da área são desenvolvidas por meio de uma lógica paulatinamente patriarcal não é nova, embora seja pouco debatida e o filme “Dr.Strangelove” é uma ferramenta extremamente interessante para o apontamento dessa questão.

A mistura de uma sátira política com uma sex comedy fornece ao espectador a oportunidade de analisar o filme para além do óbvio. Talvez, se as relações internacionais se pautassem em visões mais tradicionalmente feminilizadas sobre a guerra, a sátira de Kubrick tomaria outras formas. Da maneira que é Dr.Strangelove é uma genial exploração de temáticas tradicionais do neorrealismo, especialmente, da corrida armamentista, que devido aos altos níveis de incerteza, falhas de comunicação, políticas, sinceramente, pobres, paranoia e o pensamento patriarcal de “go bigger or go home” levam a destruição mútua de duas grandes potências – que agindo irracionalmente deixam de agir com prudência e, como despontado por Waltz e Mearsheimer deixam de prezar pela sobrevivência – e é, também – uma exploração de como dito por Payne (2019) do “Wargasm” que permeia as relações internacionais, o imaginário popular e o cinema.


Referências:

DR. STRANGELOVE. Direção: Stanley Kubrick. United States: Columbia Pictures 1964. DVD (94min).

MEARSHEIMER, John. Anarchy and the Struggle for Power. The Tragedy of Power Politics. New York and London: W.W Norton & Company, 2001. 568 p.

PAYNE, Rodger. Grappling with Dr.Strangelove’s “Wargasm” Fantasy. International Studies Review (2019).

TICKNER, Ann. “Hans Morgenthau’s Principles of Political Realism: A Feminist Reformulation.” Millennium: Journal of International Studies n14. vol3. 1988. 438–40.




Referências:

DR. STRANGELOVE. Direção: Stanley Kubrick. United States: Columbia Pictures 1964. DVD (94min).

MEARSHEIMER, John. Anarchy and the Struggle for Power. The Tragedy of Power Politics. New York and London: W.W Norton & Company, 2001. 568 p.

PAYNE, Rodger. Grappling with Dr.Strangelove’s “Wargasm” Fantasy. International Studies Review (2019).

TICKNER, Ann. “Hans Morgenthau’s Principles of Political Realism: A Feminist Reformulation.” Millennium: Journal of International Studies n14. vol3. 1988. 438–40.




Laís Sankari Nogueira Ribeiro cursa o quinto período de Relações Internacionais na Universidade Federal de Santa Catarina. Curitibana, reside atualmente em Florianópolis (SC) integra o Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Política Internacional Contemporânea e possuí interesse nas áreas de Análise de Política Externa, Teoria Crítica Feminista, Segurança Internacional Filosofia Continental e Críticas Literária e de Cinema.