• Gabriela Elesbão

DIPLOMACIA DOS POVOS



A diplomacia dos povos é um modelo diplomático criado na América Latina, que procura ser uma alternativa à diplomacia hegemônica do Estado-nação. Por ser uma região marcada pelos processos de colonização europeia e mais tarde, já nos séculos XX e XXI, pela neoliberalização cada vez maior dos processos políticos e econômicos, garantidos através do Consenso de Washington e da hegemonia estadunidense no período pós Guerra Fria, o desenvolvimento desse modelo surgiu a partir da percepção de que camponeses, indígenas e negros são a população majoritária dos países latino-americanos, e mesmo assim, têm suas identidades transnacionais limitadas pelo ideário do Estado-nacional.

Baseado em preceitos da diplomacia indígena, esse modelo procura estabelecer não apenas trocas culturais e políticas, mas também pretende fortalecer a união e a complementaridade entre comunidades de diferentes territórios, dando visibilidade às experiências e análises desses setores. Além disso, procura resgatar os valores ancestrais andinos, tais como a valorização da Pachamama (Mãe-Terra) e do Bem-Viver/Sumak Kawsay, propondo uma relação harmônica entre seres humanos e Natureza, assim como, a integração entre países da América Latina fundamentados em pluralidade e complementaridade. Conforme Martínez (2011) "desta forma começa-se também a ver relações internacionais não apenas da perspectiva do Estado como ator principal, mas também com uma pluralidade de atores já existentes na realidade" (p.102).

Essa proposta começou a tomar forma no século XXI e se coloca como uma maneira de transformar as relações entre Estado e sociedade civil, com o intuito de empoderar movimentos sociais e suas propostas de consolidação de sociedades plurinacionais e pluriculturais, com forte apelo decolonial em âmbito internacional. Conforme Sader (2006, p. 9), citado por Martínez (p. 104)


(Se trata de) Redefinir a noção de política, dando a esta um caráter público, tornando-a um espaço de acumulação de forças sociais, culturais e diretamente políticas, quebrando a dualidade Estado/sociedade civil que pertence ao universo liberal e entra em choque diretamente com a socialização da política e do poder, objetivos fundamentais na emancipação dos homens.


A crítica da Diplomacia dos Povos às teorias clássicas de Relações Internacionais baseia-se na valorização exclusiva do Estado como único mediador de conflitos, interesses e outras situações diversas relacionadas à política internacional. Desse modo, a diplomacia dos povos promove a integração entre atores sociais e civis, estabelecendo relações horizontais entre os povos do mundo, bem como, romper com a burocracia atualmente existente na diplomacia internacional. No entanto, é preciso lembrar que o projeto não se coloca como um substituto ao modelo tradicional das RI, mas sim como uma alternativa que caminha paralelamente e pretende complementar as Relações Internacionais.

Alguns exemplos de iniciativas relacionados à Diplomacia dos Povos são: o Encontro Mundial dos Povos sobre Mudança Climática e Direitos da Mãe-Terra, realizado em 2010, em Cochabamba (Bolívia), realizado por movimentos indígenas e sociais com apoio do Estado; a Missão Milagre da Venezuela, um programa de ajuda humanitária na área da saúde, projetado para atender populações vulneráveis na América Latina eo Fórum Social Mundial, um espaço de encontro de movimentos sociais do mundo todo para discutir e promover ações políticas em temas específicos.


Referências:


MARTÍNEZ, K. D. Diplomacia de los Pueblos: Relaciones Internacionales Alternativas desde el Sur. Ci & Tróp., Recife, v35, n.1, p.95-137, 2011.