• Gabriela Elesbão

DESMISTIFICANDO CUBA: REVOLUÇÃO E SÉCULO XXI


Os protestos ocorridos em Cuba durante o mês de julho reacenderam polêmicas há muito tempo conhecidas dentro e fora da comunidade internacional: Cuba é uma ditadura? Por que os cubanos saem de seu país? Por que a imprensa ignora o embargo econômico promovido pelos Estados Unidos contra Cuba? Por que sempre ouvimos dizer que o país é tão pobre? De fato, muitos aspectos da história e do contexto social cubano são desconhecidos pela maioria das pessoas, principalmente, porque há muita propaganda contra o projeto político socialista do país, que começou com a revolução de 1959.

A guerrilha que levou à concretização da revolução cubana teve início em 1956 em resposta à ditadura enfrentada pelo país à época. Sob o governo de Fulgêncio Batista, Cuba era um território independente apenas no papel, pois seus processos econômicos e políticos eram determinados pelos interesses dos Estados Unidos e de grandes corporações como a United Fruit & Company, que dominava o controle das terras cultiváveis no país.

Em janeiro de 1959 os revolucionários tomaram a última cidade, Santa Clara e marchando para a capital Havana, declararam vitoriosa a guerrilha formada majoritariamente por camponeses. A revolução estava apenas começando, mas sua medida principal já estava definida: a reforma agrária era imprescindível para manter o compromisso com a população. O embargo econômico surge nesse contexto, pois os Estados Unidos sentiram-se ameaçados pelo novo projeto político cubano, que não apenas procurou estatizar empresas, como também expropriou terras pertencentes às corporações a fim de distribuí-las entre os trabalhadores rurais. Como consequência dessa imposição, Cuba declarou o caráter socialista da revolução e aproximou-se da União Soviética, em uma relação que também gerou polêmicas dentro do país, mas que sem dúvidas, foi muito benéfica para o desenvolvimento da revolução cubana.

O resultado do movimento revolucionário não foi a pobreza e a opressão da população, como a grande imprensa e uma parte da comunidade internacional procuram afirmar, pelo contrário, as políticas de construção de moradias, acesso gratuito em educação, saúde, serviços funerários, transporte público e itens básicos de alimentação, fizeram com que o país chegasse à década de 1980 com a distribuição de renda mais igualitária da América Latina, índice 0 de analfabetismo e mortalidade infantil e sendo declarada como um exemplo diante da Comunidade das Nações. No entanto, a década de 1990 apresentou grandes desafios ao planejamento da revolução. A queda da URSS fez com que Cuba perdesse seu principal parceiro comercial e consequentemente, exigiu um novo plano econômico e de distribuição de renda, motivo pelo qual o governo decidiu que os principais investimentos iriam para as áreas da saúde, educação e alimentação.

Posto isso, para pensarmos na sociedade cubana do século XXI, é imprescindível mantermos no horizonte o antes e o depois da Revolução no país. Isso porque houveram enormes avanços em aspectos políticos, sociais e econômicos. É verdade que Cuba não é um país rico, mas também é verdade que não procurou associar poder de consumo com cidadania e segue garantindo que sua população tenha acesso a serviços básicos, sem repressão policial, sem publicidade exagerada e sem desamparo. Como dizem os cubanos, “em Cuba ninguém está só e não há nada solto" (SANTOS, 2018). Outro aspecto relevante é que a definição de riqueza e pobreza são muito discrepantes da sociedade liberal: é melhor ser rico num país desigual ou 'ser pobre' num país com renda igualitária?

Além disso, é falso que o país não tenha eleições ou que as eleições sejam fraudadas. O sistema eleitoral cubano é composto por assembleias, que decidem mais do que os representantes da população, mas também, quais serão os principais investimentos orçamentários e até mesmo os detalhes da Constituição do país. Para concorrer às eleições não é preciso ser filiado aos partidos políticos da ilha (sim, existe mais de um partido político em Cuba) e a vitória é considerada quando o candidato assume um percentual de +50% de votos. O presidente é escolhido, atualmente, pela Assembleia de Deputados, mas essa é uma pauta de grande reivindicação da população, que quer votar diretamente.

O governo tem respaldo e legitimidade do povo cubano, mesmo que existam insatisfações. A grande questão para os cubanos não é acabar com os resultados da Revolução, mas como manter as conquistas e torná-las ainda mais participativas. Dessa forma, Cuba talvez seja o país mais democrático da América Latina.


REFERÊNCIA


SANTOS, F. L.B; VASCONCELOS, J.S; DESSOTI, F.R. Cuba no século XXI: Dilemas da Revolução. Editora Elefante, 2018.