• Lara Martins

Desigualdades acentuadas: as mulheres na pandemia

Por Lara Martins



A crise global que vem assolado a vida de milhões de indivíduos é mais do que uma crise de saúde. É uma crise que aprofunda desigualdades pré-existentes de todos os tipos, e uma delas é a de gênero. As mulheres constituem um dos grupos que, historicamente e sistematicamente, conviviam com injustiças e a pandemia de COVID-19 agravou alguns impasses de suas realidades.


Essa crise perpassa diferenças de classe, raça e local de moradia. Isso porque as mulheres mais pobres, negras ou que moram nas zonas rurais sentiram os efeitos de formas diferentes e até mais acentuados. Em primeiro lugar, precisamos utilizar do trabalho e do cuidado como fatores centrais para falarmos de gênero e a pandemia do novo coronavírus. Isso porque o cuidado está no centro da sustentabilidade da vida. Não há a possibilidade de discutir o mundo pós-pandemia sem levar em consideração o quanto isso se tornou evidente nesse momento de crise global, que nos fala também sobre uma “crise do cuidado”. Não se trata de um problema a ser resolvido, nem de uma demanda a ser absorvida pelo mercado. Trata-se de uma dimensão da vida que não pode ser regida pelas dinâmicas sociais pautadas no acúmulo de renda e de privilégios. A organização do cuidado ancorada principalmente na exploração do trabalho de mulheres negras e no trabalho não remunerado das mulheres é um fracasso retumbante para a busca de redução das desigualdades antes e durante a pandemia do coronavírus.


De acordo com a pesquisa realizada pelos projetos Gênero e Número e a SOF Sempreviva Organização Feminista, “Sem parar: a vida das mulheres durante a pandemia”, 50% das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém durante a pandemia. Os resultados da pesquisa demonstram que as dinâmicas de vida e trabalho das mulheres se contrapõem ao discurso de que “a economia não pode parar”, mobilizado em oposição às recomendações de isolamento social. Os trabalhos necessários para a sustentabilidade da vida não pararam. Entre as mulheres responsáveis pelo cuidado de crianças, idosos ou pessoas com deficiência, quase ¾ fizeram essa afirmação. Essa é uma dimensão do cuidado muitas vezes invisibilizada, pois não se trata de uma atividade específica como é o auxílio na alimentação, por exemplo. Em casa, os tempos do cuidado e os tempos do trabalho remunerado se sobrepõem no cotidiano das mulheres: mesmo enquanto realizam outras atividades cotidianas, como trabalhar ou estudar, seguem atentas.


As mulheres que seguiram trabalhando, cerca de 40% que responderam a pesquisa, afirmaram trabalhar mais na quarentena. É uma camada privilegiada, sem dúvidas, mas a crise sanitária sacudiu as estruturas em todas as casas de mulheres trabalhadoras. As relações entre trabalho e atividades domésticas se imbricaram e, se antes pagar por serviços era a solução possível, a pandemia mostra que a solução é a não-divisão sexual do trabalho. Elas trabalham mais porque as tarefas ainda não são distribuídas de forma equânime no ambiente doméstico.


Ademais, a sustentação da casa também ficou em risco. Dessa forma, 40% das mulheres afirmaram que a pandemia e a situação de isolamento colocaram à prova a renda da doméstica. Sendo que a maior parte das que têm essa percepção são mulheres negras (55%) que, no momento em que responderam à pesquisa, tinham como dificuldades principais o pagamento de contas básicas ou do aluguel. As mulheres negras são 60% das mulheres desempregadas, sendo que historicamente a taxa de ocupação em postos de trabalho formais sempre foi de maioria branca.


As mulheres localizadas nas zonas rurais estão experenciando a pandemia de um modo distinto das mulheres que vivem em zonas urbanas. As condições objetivas para se prevenir do coronavírus também apresentam diferenças segundo o local de moradia. De acordo com a pesquisa “Sem parar: a vida das mulheres durante a pandemia”, enquanto a quase totalidade (95%) das mulheres urbanas entrevistadas afirmaram não ter dificuldades para ter acesso aos meios de prevenção ao vírus, esta proporção caía para 79% das mulheres rurais. Entre as respostas, para as mulheres urbanas, o maior peso estava em não ter acesso regular à água e, para as rurais, ainda que em menor diferença, não ter acesso a informações sobre a prevenção.

Entre as entrevistadas, quase 64% consideraram que a distribuição do trabalho doméstico entre as pessoas que convivem permaneceu a mesma, com pouca diferença entre rurais (68% delas) e urbanas (63% delas). Ainda que não contemos com a informação de como tal distribuição acontecia previamente, é possível supor que as mulheres rurais vivenciem situações de maior desigualdade. A combinação de atividades no espaço da casa e do quintal, a infraestrutura das casas, as formas de acesso à água e à energia demandam mais trabalho e uma organização contínua do tempo.

De toda forma, a partir do momento em que ser de uma raça ou gênero afeta sua probabilidade de acessar uma oportunidade econômica, ou suas chances de sobrevivência em meio à maior crise sanitária do século, analisar os impactos socioeconômicos pandemia é discutir desigualdade. Não é uma questão menor, detalhe ou acidente.


A pesquisa, realizada por Gênero e Número e SOF Sempreviva Organização Feminista, teve o objetivo de conhecer as dimensões do trabalho e da vida das mulheres durante a pandemia.

Os eixos da pesquisa tratam dos efeitos da crise da saúde e do isolamento social sobre o trabalho, a renda das mulheres e a sustentação financeira, contemplando o trabalho doméstico e de cuidado realizado de forma não remunerada no interior dos domicílios.

http://mulheresnapandemia.sof.org.br/sobre/