• Beatriz Bandeira

COREIA DO SUL, IDOLS E DIPLOMACIA CULTURAL


O termo soft power, cunhado pelo cientista político estadunidense Joseph Nye no livro Soft Power: The Means to Success in World Politics (2004), é frequentemente utilizado por internacionalistas de todo o mundo. Definido como a capacidade de “afetar e influenciar outros atores através da persuasão e cooperação e não por coerção”, o termo compreende estratégias pautadas pela difusão de ideias, valores e cultura. Como vimos em outro post do ONão Internacionalista, o conceito de soft power se contrapõe ao de hard power – que abrange estratégias de convencimento pautadas pelo uso da força através de recursos militares e econômicos.

Após as duas Guerras Mundiais do século XX, a cultura se tornou um dos pilares fundamentais na agenda governamental de política externa, ao lado da política (segurança) e do comércio (economia) (Saddiki, 2009). Segundo a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural da UNESCO (2001), a cultura deve ser considerada como o “conjunto de traços distintivos espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abrange, além das artes e das letras, os modos de vida, as formas de viver em comunidade, os sistemas de valores, as tradições e as crenças”.

Assim, a diplomacia cultural, como um dos pilares da diplomacia pública, é um exemplo de como um ator, governamental ou não, pode exercer influência no sistema internacional valendo-se de soft power. Segundo Saddiki (2009), a diplomacia cultural consiste no “intercâmbio de ideias, informação, arte e outros aspectos da cultura entre as nações e seus povos para fomentar o entendimento mútuo”, tendo como objetivos principais influenciar positivamente a opinião pública de um Estado estrangeiro, aumentar o prestígio de um país, proteger e projetar sua identidade nacional.

Entre as ferramentas usadas para o exercício da diplomacia cultural podemos citar: programas de intercâmbio cultural, a programação de visitas culturais de artistas, a difusão internacional de eventos culturais, promoção de idiomas e exportação de produtos culturais (músicas, programas de TV, culinária, beleza etc.) (Saddiki, 2009).

Neste texto, usaremos o conceito de diplomacia cultural para analisar o fenômeno da Hallyu Wave, a participação dos idols groups na política e o modo como a Coreia do Sul utiliza essas ferramentas para projetar sua cultura e estabelecer laços na comunidade internacional.

A HALLYU WAVE

A Onda Coreana, ou Hallyu Wave, é um movimento iniciado no final da década de 1980 e início dos anos 1990 na Coreia do Sul. Ele faz parte de um intenso processo de reestruturação da economia sul-coreana, que, naquele momento, sofria as consequências de uma crise de grandes proporções. Esse processo contou com um intenso esforço governamental de exportar a cultura e os valores sul-coreanos para o restante do mundo, com o objetivo de redefinir a reputação nacional ainda vinculada à Guerra da Coreia (Carvalho, 2019).

A onda atingiu primeiramente a China, com a exibição do drama “What is Love?” (1991), que teria sido assistido por mais de 150 milhões de chineses, e o Japão, com a divulgação de “Winter Sonata” (2002), posteriormente se expandindo para o restante do Leste e Sudeste Asiático (Gajzágó & Sacoman, 2019; Carvalho, 2019). Nesse primeiro momento, a difusão de produtos culturais serviu como um canal para o estabelecimento de relações mais confiáveis entre a Coreia do Sul, a China e o Japão. Durante a presidência de Kim Daejung (1998-2003) foi criada a Basic Law for the Cultural Industry Promotion (1999), que alocou US$ 148,5 milhões no projeto de difusão cultural sul-coreano (Carvalho, 2019, p.29).

Desde então, a criação de grandes agências de entretenimento, tais como a SM Entertainment, YG Entertainment e JYP Entertainment, bem como o aumento do investimento e do incentivo governamental, através do Ministry of Foreign Affairs e do Korean Culture and Information Service, na indústria cultural, contribuíram para o aumento da difusão dos valores e da cultura sul-coreana ao redor do mundo. O K-Pop World Festival, iniciado em 2011, por exemplo, é o maior festival Hallyu do mundo, co-organizado pelo Ministério de Relações Exteriores, Ministério da Cultura, Esportes e Turismo e a estação de radiodifusão pública KBS.

Hoje, a Coreia é um dos maiores exportadores de cultura da Ásia. Os produtos culturais coreanos, entre música (k-pop), filmes (k-movies) e novelas (k-dramas), já são comercializados e distribuídos para mais de 100 países, incluindo Tailândia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita, Reino Unido, França, Brasil e Estados Unidos (Carvalho, 2019).


OS IDOLS E A POLÍTICA

Na música, a fama e o reconhecimento da Coreia passam, principalmente, pela criação e desenvolvimento dos idols. Hoje já são mais de 150 grupos e artistas solo na Coreia, tais como: BoA, TVXQ, Big Bang, 2NE1, Girls’ Generation, Super Junior, 2PM, Wonder Girls, KARA, SHINee; EXO, Black Pink, Red Velvet, NCT, G-friend, Twice, Wanna One e BTS (Carvalho, 2019, p.35). Embora o posicionamento político dos idols seja expressamente vetado pela indústria do entretenimento sul-coreana, sua participação em eventos e organizações internacionais é algo que vem se tornando recorrente.

Em uma visita ao Brasil em 2015, por exemplo, a ex-presidente Park Geun–hye trouxe em sua comitiva o grupo SHINee e integrantes do grupo F(x), ambos da SM Entertainment (Super Interessante, s/d). Na ocasião, representantes do Brasil e da Coreia do Sul discutiram iniciativas de cooperação nas áreas de comércio, investimentos, ciência, tecnologia e inovação, educação, cultura e energia.

Em 2017 o grupo BTS e a empresa Big Hit Entertainment, através do Comitê Coreano, firmaram uma parceria que deu origem à campanha “Love Myself” associada à #EndViolence da UNICEF que busca garantir ambientes seguros para o desenvolvimento de crianças e adolescentes ao redor do mundo. Para difundir a ação, o grupo discursou em 2018 e em 2020 na Organização das Nações Unidas. Na última mensagem, durante a 75º AGNU, os sete membros do grupo falaram sobre os desafios provocados pela pandemia da COVID-19 e seu impacto sobre os jovens, compartilhando suas experiências pessoais.



Figura 1. Os membros do gruposul-coreano BTS promovendo a campanha “Love Myself” associada ao programa #EndViolence da UNICEF.


Em 2018, o presidente Moon Jae-in levou shows de idols para sua reunião com o ditador norte-coreano Kim Jong-Un. O grupo feminino Red Velvet e a cantora Seohyun se apresentaram para oficiais do governo em Pyongyang sendo este um marco na relação entre os dois países e um dos esforços de aproximação pacífica (Super Interessante, s/d). Já em 2019, durante visita à Coreia do Sul, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e sua filha Ivanka Trump, foram recebidos pelo presidente Moon Jae-in e pelos integrantes do grupo EXO.




Figura 2. Encontro entre integrantes do grupo EXO e os presidentes Moon Jae-in e Donald Trump em 2019 na Coreia do Sul.


Notamos que a exportação de produtos culturais sul-coreanos, desde a música, passando pela culinária, até a teledramaturgia, a participação dos idol groups em eventos e organizações internacionais e o estabelecimento de canais de cooperação interestatais, reforçam o conceito de diplomacia cultural apresentado no início deste texto. Uma vez que o reconhecimento internacional dos valores e estilo de vida sul-coreanos introduz novas percepções sobre o país, os níveis de desconfiança e desinformação diminuem e com isso a Coreia consegue estabelecer relações mais estáveis com outros Estados como ocorreu, por exemplo, na Ásia, com a China, o Japão e a Coreia do Norte, mantendo o equilíbrio político na região.

Os ganhos, portanto, não se resumem apenas à projeção internacional da cultura sul-coreana, mas também no aumento da influência regional e global do país. Considerando que a diplomacia pública é um dos pilares da política externa da Coreia do Sul, segundo o Ministério de Relações Exteriores, o país hoje se coloca como uma “potência média industrial desenvolvida”, aberta ao mundo, pacífica (principalmente em contraposição ao vizinho do Norte) e com relações consolidadas em boa parte do globo (Gentil, 2017, p.6). Como vimos ao longo do texto, a indústria cultural é a chave para a inserção da Coreia do Sul no mundo. Como se o país contasse com um exército criado à sua própria maneira.




1 Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural – United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO). Disponível em < http://www.unesco.org/new/fileadmin/MULTIMEDIA/HQ/CLT/diversity/pdf/declaration_cultural_diversity_pt.pdf>

2 Disponível no site do Ministry of Foreign Affairs of Republic of Korea < https://www.mofa.go.kr/eng/wpge/m_22824/contents.do>

3 Disponível em < http://antigo.itamaraty.gov.br/pt-BR/notas-a-imprensa/9187-visita-de-estado-da-presidenta-da-republica-da-coreia-park-geun-hye-brasilia-e-sao-paulo-24-e-25-de-abril-de-2015>


REFERÊNCIAS

CARVALHO, Fernanda V (2019). Hallyu Wave: reflexos da diplomacia cultural sul-coreana na relação bilateral com a China. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Relações Internacionais), Universidade Federal da Paraíba (UFPB),

GAJZÁGÓ, E; SACOMAN, V.B.C (2019). Introdução à Hallyu: o movimento da onda coreana entre Brasil e Hungria. VII Congresso de Pesquisa e Extensão da FSG.

GENTIL, Dominique R. (2017). Diplomacia cultural sul-coreana: uma reflexão sobre o papel do KOFICE e sua atuação com as mídias brasileiras. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Relações Internacionais Contemporâneas), Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).

NYE, Joseph (2017). Soft power: the origins and political progress of a concept. Palgrave Communications.

SADDIKI, Said (2009). El papel de la diplomacia cultural en las relaciones internacionales. Revista CIDOB d’Afers Internacionals, núm.88, p.107-118.

SUPER INTERESSANTE (s/d). A Diplomacia do K-Pop. Disponível em < https://super.abril.com.br/especiais/a-diplomacia-do-k-pop/> Acesso em 5 de junho de 2021.