Cinema como soft power norte-americano


A arte é um retrato de seu tempo. Stephen King afirmou que “Os filmes são apenas uma ilusão de movimento formada por milhares de fotografias imóveis” (KING, 2010). A captura de memórias, de emoções, a transmissão de valores: todas essas características são profundamente enraizadas na história da humanidade. Ora, os hominídeos muito antes do audiovisual cinematográfico já deixavam sua marca nas paredes de cavernas. Uma gruta em Lascaux, ao sudoeste da França, por exemplo, abriga mais de novecentas pinturas de animais: cavalos, veados, bisões e alguns já até extintos como o rinoceronte-lanudo. Há também as “mãos em negativo” como são chamadas pelos historiadores da arte. Essas pinturas eram feitas ao colocar uma das mãos com os dedos afastados na parede da caverna e então soprar pigmentos, deixando a área em torno da mão pintada. Essas curiosas marcas são encontradas em todo o mundo, da Indonésia à Austrália, da África às Américas.

Embora seja difícil para os historiadores concluírem a real razão de nossos ancestrais pré-históricos terem feito tais pinturas, é uma teoria fundamentada acreditar que os homens daquele tempo buscavam retratar suas descobertas, seu cotidiano, e até seus rituais ou crenças. É o conhecimento empírico humano, acreditar que, uma criança na pré-escola com um lápis e papel desenha o contorno de sua mão e sente uma excitante sensação ao deixar sua marca semipermanente no mundo. A natureza humana exprime a ânsia de dar ao mundo aquilo que sentimos ou possuímos, registrar uma pequena captura de nossa própria percepção.

Até a invenção do cinescópio, permitindo a captura da imagem-movimento, os gregos e suas tragédias já buscavam transparecer suas angústias através do teatro. Mas somente a partir do século XX que a indústria cinematográfica tomou as rédeas de como os filmes se tornariam um instrumento coercitivo, sendo capaz de influenciar e afetar o modo de vida das pessoas. Os filmes são poderosos, desde o entretenimento popular, até os com propósito didático ou doutrinário. Em síntese, é uma ferramenta sutil que induz os indivíduos, sendo capaz de moldar preferências e estabelecer princípios e práticas que são legitimamente respaldadas pelo detentor das grandes produções e premiações.


O que é soft power?


No contexto da disciplina de Teoria das Relações Internacionais, há um termo empregado para definir um fenômeno que pode ser aplicado ao contexto da presença de Hollywood no cenário global, o soft power. O termo foi utilizado pela primeira vez pelo cientista político Joseph Nye em seu livro Soft Power The Means to Success in World Politics. Ele discorre como as relações de poder entre os Estados estão suscetíveis a diferentes abordagens, sendo assim, diferentes métodos do Estado obter os resultados que se deseja. O poder de um Estado pode fluir pelo hard power e soft power.

O hard power é o modelo mais conhecido e antigo de demonstração de poder. Ele reside na demonstração do poder militar, econômico, um tipo de dominação comum durante todo o decorrer da história. O soft power, enquanto isso, atua de maneira sutil, a partir da influência, do convencimento, com construções sociais e estereótipos que atuam para reforçar ou manchar a imagem do que se convém alcançar.


"O soft power de um país pode residir na sua cultura (atratividade para outros agentes a partir de lugares, eventos, produtos culturais), nos seus valores políticos (a forma de se relacionar com os outros países) e, na sua estratégia de política internacional (pela legitimação ou autoridade moral)" (NYE. 2004, 2011).


Por muitos anos os "valores superiores" que todo cidadão norte-americano atualmente conhece foram estimulados pela imensa propaganda do governo. Esse modelo se tornou popular e foi peça central na manipulação das massas e utilizado nas grandes disputas pela supremacia durante o século XX. Os filmes norte-americanos tiveram um papel fundamental como máquina de propaganda anticomunista na Guerra Fria, por exemplo. James Bond e Rambo enfrentando soviéticos e vietnamitas estimulavam uma visão estereotipada que cumpriam o papel de demonizar seus rivais: reduzindo-os a uma espécie capaz das maiores atrocidades. Por outro lado, os Estados Unidos da América representado como protetor da liberdade e do sucesso e avanço da humanidade. Ao mesmo tempo que estimula sua própria civilização a aceitar suas decisões políticas, o governo norte-americano passa a influenciar e persuadir outras culturas ocidentais.




Como os Western moldaram a imagem do índio americano


"Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência européia" (Mensagem do Presidente James Monroe ao Congresso dos EUA, 1823).


A Doutrina Monroe, instituída em 1823 pelo presidente norte-americano James Monroe, tem forte relação com as atitudes imperialistas que iriam influenciar como os EUA iriam se impor nos próximos séculos. A política da doutrina permitiu que os americanos se afirmassem ante a presença europeia em seu território. As consequências foram o estabelecimento dos Estados Unidos como grande potência e a consolidação da independência das antigas colônias, além disso, dominavam as culturas e religiões, que eram impostas sobre os outros povos, embasados na Doutrina do Destino Manifesto: crença que permitiu a expansão para os territórios até então não explorados. Uma missão divina com o intuito de avançar para o oeste, ocupando territórios que pertenciam aos indígenas e mexicanos.

É nesse contexto que se inicia uma mobilização para perpetuar a cultura americana sob outras culturas, se utilizando das representações cinematográficas para classificar outros povos como vis, bárbaros e subdesenvolvidos.

Enquanto o herói branco representa valores ideais norte-americanos como a coragem e a honra, tal qual John Wayne e posteriormente Clint Eastwood, o indígena é essa figura fantasiosa, instituída ao roteiro a fim de instaurar medo, apatia e repulsa.

A partir da ascensão e do auge do Oeste Americano (estima-se que seja entre 1860 e 1890) foram formados os grandes mitos do Wild and Old West - histórias de vaqueiros, pistoleiros, apostadores, soldados, missionários, prostitutas e colonizadores. Nesse período, entretanto, a cultura e a civilização do índio americano foram aniquiladas. O indígena é a ameaça negra de todos esses mitos.

Em 1973, o ator Marlon Brando, vencedor do Óscar por seu papel em “O Poderoso Chefão” recusa a estatueta de ouro. E a razão, afirma em uma carta divulgada à imprensa, é o tratamento dos indígenas americanos de hoje pela indústria cinematográfica e na televisão. Sobre as vaias, após o ocorrido, o ator opinou: “Eles [a plateia] estavam ressentidos por eu estar arruinando sua fantasia com a intrusão de um pouco de realidade. Ninguém quer ouvir sobre o fato de que as taxas de suicídio entre os indígenas ser a maior do país". Poucos exemplos como de Brando representam de fato uma insurreição pela mudança, enquanto Hollywood lucra e contribui significantemente para o aumento da descriminação com o povo indígena.


“Quando crianças indígenas assistem à televisão - e elas assistem aos filmes - e veem sua raça retratada da maneira como ela é nos filmes, suas mentes ficam feridas de formas que nós nunca saberemos" (Marlon Brando, em discurso enviado aos jornais, 1973).


Em suma, se na necessidade de se expressar e se auto-afirmar como a única espécie capaz de produzir arte, de gerar sentimento através da música, da literatura e dos filmes, os seres humanos ainda direcionam suas grandes qualidades para persuadir, subjugar, conquistar e até eliminar nossa própria civilização. Ao mesmo tempo que nossa percepção de mundo seja mais abrangente que a de nossos antepassados, a globalização permitiu a criação de novas e mais aprimoradas ferramentas de nos destruirmos como espécie. Não se tratando somente do poderio bélico das grandes nações, mas sim das articulações que manipulam os subconscientes das massas e criam estereótipos que são transmitidos de geração para geração.






Bibliografia:


KING, Stephen. A dança da morte. Suma. 2010.


BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva do rio. L&PM Pocket. 2001.


NYE, Joseph. Soft Power The Means to Success in World Politics. PublicAffairs. 2005.

BERNARDES, Pollyana. O cinema como instrumento das Relações Internacionais. Internacional da Amazônia. 25 de Jan de 2022. Disponível em:

<https://internacionaldaamazonia.com/2022/01/25/o-cinema-como-instrumento-das-relacoes-internacionais/>.


BRANDO, Marlon. That Unfinished Oscar Speech. The New York Times. 30 de Mar de 1973. Disponível em:

https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/packages/html/movies/bestpictures/godfather-ar3.html