• Pedro Ernesto

Bolívia e o Heartland Sul-Americano

Por Pedro Ernesto


No meio acadêmico é muito comum estudarmos sobre o termo Heartland, que foi criado por Halford Mackinder, o grande teórico da geopolítica clássica, para se referir a região da atual Europa Oriental, cuja posse seria uma condição indispensável para a hegemonia mundial. A área se estendia na direção norte-sul do oceano Ártico aos desertos da Ásia Central, e na direção leste-oeste dos confins da Sibéria ao território russo situado entre os mares Branco e Cáspio, e por conta de suas características naturais fazia daquela região ilhada um baluarte natural. Nas célebres palavras do autor “Quem controla o Heartland, domina a pivot-area e quem domina a pivot-areacontrola a ‘ilha mundial’, e quem controla a ‘ilha mundial’ domina o mundo.”


Esse conceito, que já foi testado e atualizado pelo autor em 1919 e 1943 (haverá um texto sobre em breve), também é frequentemente utilizado em outros contextos histórico-geográficos. No caso, é sobre a sua adaptação à realidade sul americana que falarei hoje, trazendo uma breve análise sobre a importância estratégica da Bolívia, que possui um papel integrador e único na região, com potencial de amplificar a inserção regional e mundial a partir de algumas particularidades geopolíticas.

Antes de mais nada, é fundamental expor a teoria dos dois antagonismos de Mário Travassos, que cria duas contradições: Atlântico versus Pacífico e Prata versus Amazônia. A primeira que abrange todo continente e se traduz pela oposição entre as duas vertentes continentais, a Atlântica a leste e Pacífica oeste, sendo divididos pela Cordilheira dos Andes e se diferenciando pelas características topográficas e hidrográficas. A segunda, que é focada na vertente atlântica, opõe as duas grandes bacias da região a do Amazonas ao norte e a do Prata ao sul. Com o continente dividido em quatro, a Bolívia é o único país cujo território ocupa todos os espaços.


Assim como o Heartland eurasiático, a Bolívia é uma área mediterrânea central, possui imensos recursos naturais e que encontra-se em uma fortaleza natural ao mesmo tempo em que está sujeita a sofrer ameaças de todos os lados, Brasil a Nordeste, Chile e Peru a Oeste e Argentina e Paraguai ao Sul. Ainda de acordo com Travassos, dentro desse espaço, há um triângulo estratégico que liga Santa Cruz de La Sierra, Cochabamba e Sucre, incluindo outras cidades como Oruro e a histórica Potosí. É nessa zona, segundo o autor, que se confrontam os interesses brasileiros (vertente amazônica) e argentinos (vertente platina) pela supremacia geopolítica do subcontinente.

Outros autores passam a incluir o norte argentino, paraguaio e o centro-oeste brasileiro nessa região rica em gás natural, petróleo, minérios e terras férteis, passando a identificar o espaço como estratégico para toda a região, sendo vital para um processo de integração regional, podendo ser uma plataforma de interligação do comércio regional e bioceânico (Atlântico x Pacífico). Apesar de não haver historicamente um agente estatal que colocasse todo esse potencial em prática nos últimos anos, o debate sobre a geopolítica dos recursos bolivianos é longo e antigo, uma vez que nesse território se encontram três riquezas muito apreciadas pelo capitalismo global nos dias de hoje: Petróleo, Gás e Lítio.


Os dois últimos são os mais explorados, e fazem parte dos 4 ciclos de exploração da Bolívia, junto com a prata e o estanho. No entanto, o gás e o lítio foram foco da manutenção dos direitos de extração e produção por parte do Estado boliviano, que tinha como objetivo democratizar os lucros obtidos pela exploração desses recursos, promovendo políticas públicas que visassem ao fim das desigualdades no país. Segundo Bernardo Salgado, infelizmente isso não foi possível devido ao “caráter excludente da sua conformação e a sua persistente subordinação a forças externas”.

Embora ainda seja um projeto com falhas, a nacionalização dos direitos aos recursos naturais, mesmo encarecendo os produtos, traz uma compensação “em termos de poder, ensejando uma política estratégica insubordinada, que vise aos anseios dos povos da região”, e que se feita de forma integrada pelos países sul americanos em conjunto, pode favorecer a balança de poder global a favor dos povos deste tão rico e diverso continente.


Referências

MACKINDER, Halford. O pivô geográfico da história. GeographicalJournal, 23, 1904

MELLO, Leonel Itaussu Almeida; Quem tem medo da geopolítica?. 2a ed., São Paulo: Hucitec-Instituto Leonel Itaussu, 2015.

RODRIGUES, Bernardo Salgado; O heartland sul-americano — a importância geopolítica da Bolívia para a América do Sul. Revista Oikos, Rio de Janeiro, Volume 13, nº 1, p. 40–56, maio de 2013.

TRAVASSOS, Mario; Projeção Continental do Brasil. 2ª ed., São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935.

VESENTINI, José William; Novas Geopolíticas. 5a ed., São Paulo: Contexto, 2016.