• Fábio Agustinho

BIDEN VENCEU: E AGORA?

Atualizado: Fev 5




Após uma eleição histórica com recorde de participação, Joe Biden venceu Donald Trump na disputa pela presidência dos Estados Unidos da América. Apesar da importância de se retirar a extrema-direita do poder nos EUA, esse evento não deverá trazer consigo mudanças significativas para a população mundial. Isso se deve por dois motivos: o papel histórico assumido pelos EUA no sistema internacional desde 1945 e os fundamentos sob os quais se apoia o novo nacionalismo autoritário do século XXI.

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Primeiro, para se compreender o significado da administração Biden para os povos do mundo é importante atentar-se à história da política externa estadunidense e do pensamento político do presidente eleito. Desde a implementação da Doutrina Monroe no século XIX, os EUA atuam no continente americano como uma potência expansionista responsável por orquestrar uma série de intervenções diretas e/ou indiretas nos outros países da região. Essa atuação tomou escala global após o fim da Segunda Guerra Mundial e a ascensão do país como grande potência internacional. Desde então, os EUA se apresentam como os "Líderes do mundo livre", planejando golpes de Estado, invasões militares e políticas de boicote econômico contra qualquer governo que carregue um mínimo grau de ameaça à sua hegemonia no sistema internacional. Seria um erro afirmar que Joe Biden representaria uma ruptura com a tradição da política externa estadunidense. Assim como Trump, Biden defende a posição de liderança dos EUA no sistema internacional, porém, sua política externa difere daquela de seu antecessor por apostar no multilateralismo e na institucionalização dos assuntos internacionais, sendo as três principais áreas de sua agenda internacional o combate à corrupção, a defesa contra o autoritarismo e o avanço dos direitos humanos ao redor do mundo. A aparência fraternal da prioridade concedida à essas questões, no entanto, não deve ser interpretada como o fim da política externa que Joe Biden procura implementar, mas como uma máscara de moderação para a essência belicosa presente nelas. Enquanto a agenda anticorrupção foi o que, de acordo com reportagens do The Intercept, aproximou as administrações Trump e Obama da Operação Lava Jato no Brasil; a defesa contra o autoritarismo foi mobilizada contra a vitória de Evo Morales nas eleições bolivianas de 2019 e a proposta de garantir os direitos humanos ao redor do globo é uma carta constante na manga dos EUA para atacar seus párias internacionais (China, Venezuela, Rússia, Irã, Coreia do Norte, Cuba, entre outros). Com exceção do que se refere às políticas de migração, a política externa defendida por Biden não deverá apresentar diferenças significativas da implementada por Trump, sendo o principal desafio do novo presidente o mesmo que o de seu antecessor: conter a ascensão chinesa no cenário internacional.

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O segundo ponto que revela o porquê da vitória do partido democrata não significar uma grande mudança no sistema internacional é a persistência dos fatores que sustentam o novo nacionalismo autoritário do século XXI. Esses novos nacionalismos de hoje - representados não apenas por Trump, mas também por Bolsonaro, Duterte, Orban, Salvini, entre outros - fundamentam-se nos valores conservadores de defesa de uma suposta identidade nacional, na narrativa antissistêmica e no ataque constante à figura de um Outro que estaria ameaçando a existência dessa nação idealizada. Devido ao caráter atomístico e belicoso desse fenômeno, ele apenas consegue se reproduzir caso canalize um agudo sofrimento social no sentido do combate aos representantes e nas instituições vigentes. Em outras palavras, o cenário de grande penúria, violência generalizada e socialização dos prejuízos do começo do século XXI - sendo a crise econômica de 2008 um marco significativo na consolidação dessa conjuntura - fez com que os sentimentos de indiferença, medo e ódio, característicos do capitalismo neoliberal; tomassem proporções globais e fossem convergidos pelos novos nacionalismos autoritários em políticas concretas para tentar solucionar o mal-estar da civilização. Figuras como Donald Trump não diferenciam-se do estado de coisas por suas propostas políticas, econômicas ou sociais; mas por governarem com e através da agressividade presente no seio da sociedade. Os democratas podem ter ganho a eleição, mas a ausência de um horizonte político emancipatório e a defesa de um retorno aos EUA pré-Trump não extinguirá o sofrimento social generalizado presente no país e no restante do mundo. Assim como os outros representantes do novo nacionalismo autoritário seguem governando através da politização da agressividade, Donald Trump seguirá inflando o sofrimento social contra o establishment político estadunidense mesmo após se retirar da Casa Branca. Se Biden não escutar as demandas populares de desinvestimento da polícia, de implementação de um sistema de saúde universal, de abolição do colégio eleitoral, de cancelamento das dívidas das famílias estadunidenses, de aumento do salário mínimo, de taxação de grandes fortunas; e nem procurar soluções definitivas para a atomização do tecido social reproduzida pelo capitalismo neoliberal, logo mais poderemos ver uma nova e ainda mais fortalecida ascensão do nacionalismo autoritário de Donald Trump.


Referências:

https://theintercept.com/2020/03/12/lava-jato-driblou-governo-ajudar-americanos-doj/


https://www.foreignaffairs.com/articles/united-states/2020-01-23/why-america-must-lead-again


DANIEL AUGUSTO FELDMANN O “SALTO MORTAL” DA MERCADORIA, A CONTRADIÇÃO EM PROCESSO DO CAPITAL E OS SENTIDOS DO NOVO NACIONALISMO AUTORITÁRIO NO SÉCULO XXI


Escrito por Fábio Agustinho (fasjunior8@gmail.com)