Bacurau: reflexos de dominação e apocalipse cultural



“Eis, até hoje, as batalhas da América Latina. Muitas batalhas e, com exceção de uma ou outra, quase todas elas batalhas perdidas. Mas este capítulo da História não será o último. Seguimos e seguiremos o exemplo da Inglaterra: que sempre perdeu todas as batalhas e acabou ganhando a guerra” disse Otto Maria Carpeaux (1965) na orelha de seu livro ‘A Batalha da América Latina’. Bacurau - obra de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles – é um filme repleto de associações; Tropicália, rebuliço social, o célebre movimento antropofágico e, acima de tudo, o Brasil, sua etnografia e sua polarização. Um brilhante exemplo de horror social, Bacurau, utiliza de uma ideia estereotipada do cinema para estabelecer uma crítica anti reacionária e confrontar a realidade de transformação do diferente em outro e, esse estado de “outro”, poderia ser aqui discutido em sua totalidade, mas pensando em que ângulo usar para escrever sobre um filme de tantas camadas construiu-se, então, a ideia de explorar outro tema central da obra; o apocalipse cultural e aniquilação simbólica frente o do genocídio da cultura racializada.

O conflito enfrentado pela população da pequena cidade Bacurau — localizada em um lugar desconhecido do sertão nordestino — é, essencialmente, a inquietação vinda da possibilidade clara da morte por um ente poderoso; a resistência fútil da população frente aos invasores — análogos a colonizadores e representativos da centralização cultural por nações ocidentais — se fundamenta como meio de luta contra a ameaça onisciente de apagamento cultural de camadas pobres e racializadas do Brasil. A batalha de Dornelles e Mendonça Filho contraria o dito de Carpeaux (1965) e representa uma tendência clara de reflexão da realidade; o triunfo não é dado à população de Bacurau, sua luta é fútil e sua resistência facilmente desmantelada. Os invasores fazem o que vieram fazer e a cidadezinha do sertão brasileiro é aniquilada fisicamente e, mais importante para o argumento aqui feito, simbolicamente desmantelada.

A crítica antropocena e radicalista construída em Bacurau é facilmente transposta para a realidade internacional. Os países fora do núcleo ocidentalista são — e sempre foram — constantes vítimas de invasões e violações sociais, políticas e culturais por parte das estruturas dominantes. Esse apagamento cultural via dominação sociopolítica e, em diversos casos, violência social são constantemente legitimados pelas instituições internacionais e a construção da própria disciplina de relações internacionais, que está diretamente relacionada aos interesses ocidentais e suas problemáticas bem como um reflexo da realidade objetiva. A população de Bacurau é ameaçada — e atingida – por um fenômeno de extrema normalidade; a assimilação e apropriação de culturas de povos racializados e desvinculação cultural de práticas originárias. Esses fenômenos são meios de extermínio cultural e aniquilação simbólica propagados na modernidade por países, e povos, dominantes frente a populações racializadas e suas culturas.

Variando de práticas violentas como o extermínio cultural por meio genocídio — resultado enfrentado em Bacurau — a assimilação e deturpação de objetos e práticas culturalmente carregadas a dominação sobre corpos racializados não apresenta fácil resolução – ainda mais em um cenário que como apontado por Tickner (2012) e Blaney (2012) possui diversas salvaguardas e mecanismos contra diversidade e direcionados a manutenção do paroquialismo sistemático. Dentro das relações internacionais as teorias dominantes são teorias direcionadas a uma visão eurocêntrica de mundo; ataques a países africanos, islâmicos e latino-americanos são justificados por meio de uma ótica orientalista suportadas por anos de construção intelectual fundamentadas no racismo e no privilégio das nações dominantes. Em Bacurau — de modo análogo à realidade — quem sofre é a população pobre, nordestina e racializada; é sua cultura, seus corpos e suas histórias apagadas pelos invasores, para os quais o extermino da população é um jogo onde possíveis ganhos levam a extrema crueldade e despersonalização daqueles os quais a vida é diminuída frente aos interesses dominantes.

Bacurau é, nesse sentido, um dos mais fortes argumentos anticolonialismo e apontamentos da constante aniquilação simbólica sofrida por populações racializadas em forma cinematográfica. A exposição da vulnerabilidade de uma população incapaz de se defender de uma ameaça externa; a qual é dotada de todas as vantagens possíveis é sutilmente mostrada em sequências remanescentes da antiga Tropicália brasileira sob uma ótica de exploração de estereótipos do horror social. Mendonça e Dornelles brincam com a expectativa do espectador e constroem uma trama brilhante através da exploração do sentimento de “outro” e não pertencimento. Mas acima de tudo, o filme funciona como um espelho da realidade social para além das fronteiras brasileiras; o apocalipse cultural sofrido pela simpática população da pequena e arenosa Bacurau é simétrica à realidade enfrentada por países de terceiro mundo e suas populações no paroquial sistema internacional vigente. Diferente das previsões de Carpeaux (1965) as batalhas continuam sendo perdidas e a guerra não tem sinal de término; só podemos esperar que o final dessas nações seja mais caridoso que o final dado a população de Bacurau, que apesar de todos os seus esforços acabou como muitas de suas antecessoras: um sopro na memória de quem ainda vive, fragmentada, vazia e perdida no tempo como um reflexo claro dos horrores que pairam sobre o imaginário do terceiro-mundo, suas vidas e sua cultura.


Referências:


CARPEAUX, Otto Maria. A Batalha da América Latina. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileiras S.A. 1965. p,164.


TICKNER, Arelene, B; BLANEY, David L. Thinking difference. In: TICKNER, Arelene, B; BLANEY, David L. (ed.), Thinking International Relations Differently. Routledge 2012. p. 363.