• Mainara Gomes

As “mulheres de conforto” na Segunda Guerra Mundial

Atualizado: Fev 5



O QUE FORAM AS “ESTAÇÕES DE CONFORTO” E AS “MULHERES DE CONFORTO”?

Durante a Segunda Guerra Mundial (1932–1945),o Japão se envolveu em uma guerra imperial contra os EUA e alguns países asiáticos, conhecida como “Guerra do Pacífico”. O Japão, nesse período, estava em expansão imperial e, consequentemente, expandiu-se militarmente no continente asiático, colonizando alguns países. Durante esse processo, o Japão traficou diversas mulheres para bordéis, oriundas de suas colônias ou de territórios ocupados por suas tropas, tais como Filipinas, Taiwan, Indonésia, Vietnã, Cingapura, China e, majoritariamente, da Coreia. A partir daí, teve início as “estações de conforto”, que existiam em todas as colônias japonesas.

As estações de conforto eram formadas por mulheres e tinham como fim satisfazer as necessidades sexuais dos militares japoneses. A estimativa é que entre 80 e 200 mil mulheres foram escravas sexuais do exército japonês,das quais menos de 30% sobreviveram, sendo que 80% dessas mulheres traficadas eram coreanas. O Japão Imperial criou uma indústria de exploração sexual de mulheres e, em suas colônias, estabeleceu leis permitindo as estações de conforto, o que autorizava bares, restaurantes e empresas privadas usarem seus locais como estações.

As “mulheres de conforto”, como ficaram conhecidas, uma vez que “davam conforto” aos soldados, foram recrutadas através de raptos, coerções e promessas de emprego. Em sua maioria, as mulheres coreanas traficadas eram virgens, de 12 a 14 anose de classe baixa. Sob a lógica japonesa, a Coréia era o melhor lugar para se recrutar tais mulheres, pois, enquanto as japonesas “eram para casar” e “para ter filhos”, as coreanas eram vistas como raça inferior, logo,serviam para exploração sexual. Por considerar as mulheres coreanas inferiores, a utilização de mulheres de conforto não causou nenhum questionamento à população japonesa.

Tais mulheres eram levadas às estações de confortos e forçadas a terem relações sexuais com os soldados japoneses, entre 10 a 30 vezes por dia, muito embora podendo chegar a 60 vezes.Também eram submetidas a tratamentos desumanos e brutais como torturas, queimaduras e espancamentos. Recomendava-se o uso de preservativos a fim de evitar doenças sexualmente transmissíveis, porém, esse acesso era limitado e muitas mulheres se viam obrigadas a lavar os preservativos usados e reutilizarem-no (a regra era reutilizar o mesmo preservativo por cinco vezes). As mulheres coreanas eram destinadas aos soldados de patente mais baixas, ao passo que as japonesas eram exclusivas aos de patente mais alta. Todas as mulheres de conforto eram obrigadas a se submeterem a exames para evitar gravidez e doenças sexualmente transmissíveis. Em caso de gravidez, eram obrigadas a abortar e, se não o fizessem, os filhos deveriam ser dados a orfanatos.

O estupro dentro desses bordéis era uma norma: todos os soldados deveriam passar por essas mulheres antes de irem à luta, porque existia uma superstição entre o exército japonês de que o “sexo” antes da batalha faria com que os soldados ficassem a salvo de ferimentos, mais dispostos, felizes e lutariam melhor. Os que recusavam a prática, eram julgados por seus companheiros de batalha.


CONSEQUÊNCIAS

Em 1945, quando o Japão foi derrotado, as estações de conforto tiveram fim. Muitas mulheres foram mortas (sendo assassinadas ou vítimas de doenças sexualmente transmissíveis), outras fugiram ou suicidaram-se (especialmente por causa da vergonha). As que retornaram para a Coreia sentiram-se obrigadas a ficarem em silêncio, devido à vergonha e humilhação das quais foram vítimas, temendo algum tipo de represália, sobretudo porque a sociedade coreana defende a castidade e a virgindade feminina, fazendo com que as mulheres que não são mais virgens sejam submetidas a punições. É possível entender, portanto, o porquê do silêncio dessas mulheres durante tanto tempo, pelo medo da retaliação de sua sociedade conservadora. Todas as sobreviventes enfrentaram/enfrentam problemas psicológicos.

O silêncio dessas sobreviventes durou até 1991, quando uma delas, Kim Hak-Sol, de 67 anos, resolveu se declarar como uma ex-mulher de conforto. A partir desse momento, movimentos feministas coreanos e asiáticos trabalharam para que outras sobreviventes dessem o seu testemunho. Nesse contexto, iniciou-se diversos pedidos de reparação dos governos coreanos e japonês. O Japão pode ser considerado cúmplice no processo de escravidão sexual das mulheres de conforto, visto que esse sistema foi institucionalizado e permitido pelo império japonês naquela época.

Mesmo com vários empecilhos, tanto do governo sul-coreano, como do governo japonês, as sobreviventes desse brutal crime continuam firmes na busca pela reparação e condenação do Estado japonês. Em 1990, foi criado o Conselho Coreano, o qual ajudou mais de 200 sobreviventes na Coreia do Sul e nos países asiáticos, incentivando-as a se pronunciarem. Após o depoimento de Kim Hak-Sol, um grupo de coreanas entrou com ação judicial solicitando que o governo japonês fosse responsabilizado criminalmente pelo caso, além de solicitarem pedidos de desculpas e indenizações. Por falta de respostas do governo sul-coreano e japonês, o Conselho Coreano entrou com um pedido à Comissão de Direitos Humanos, em 1992, solicitando que as atrocidades japonesas fossem investigadas e que o Estado pagasse indenização para as sobreviventes. Em 1993, o governo japonês reconheceu a sua participação nas estações de conforto e afirmou que foi de encontro às leis humanitárias internacionais.

Em 1996, a Organização das Nações Unidas, fortemente influenciada pelos movimentos feministas internacionais, por meio de um relatório, considerou as estações de conforto um crime contra a humanidade. Em outras palavras, o tráfico de mulheres para fins de exploração sexual tornou-se crime contra a humanidade, alterando as percepções de violências contra as mulheres em conflitos armados. É importante ressaltar que, em conflitos armados, as violências contra as mulheres são constantes, inclusive o tráfico para exploração sexual. De acordo com a ONU, a partir de dados de 2016, mais de 70% das vítimas são do sexo feminino, sendo que 49% delas são mulheres adultas e 23% são crianças menores de idade.

O caso das mulheres de conforto é bastante emblemático e reflete as desigualdades de gênero que existem no mundo. Além disso, evidenciam a luta por justiça e como elas foram importantes para mudar o entendimento internacional sobre tráfico de mulheres para fins de escravidão sexual em contextos de guerra.


REFERÊNCIAS

KIM, C. The Comfort Women System: Sexual Slavery during World War II. 2017,Student Research. 67.

OKAMOTO, J. Y. As “mulheres de conforto” da Guerra do Pacífico. Revista de Iniciação Científica em Relações Internacionais, São Paulo, v. 1, n. 1, p. 91–108, dez. 2013.

UNODC. Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas 2018. (Publicação das Nações Unidas, Nº de venda E.19.IV.2).


Escrito por Mainara Gomes (mainaragommes@hotmail.com)