As Mudanças Climáticas de Blade Runner e a Política Ambiental Atual

Atualizado: 1 de fev.

Resenha por Letícia Farias

Em uma Terra decadente coberta por poeira radioativa, Rick Deckard é um caçador de recompensas. Uma missão desafiadora pode ser sua única chance de ascensão: Deckard precisa perseguir e aposentar seis androides foragidos que se passam por humanos. “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” é o título original do livro, mais conhecido como “Blade Runner”, escrito por Philip K. Dick, que revolucionou o universo cyberpunk, com referência aos conceitos high-tech e low life e seu aprofundamento em questões da natureza humana, sociais, autoritarismo e realidade alternativa. Um pouco mais de 50 anos depois de ser escrito, a obra se aproxima cada vez mais da nossa realidade social, política e ambiental. Diante disso, vamos discutir a ligação entre o livro e a política internacional.

“Depois de um apressado café da manhã..., ele subiu vestido para dar uma volta, sem deixar de portar o modelo Ajax de seu Protetor Genital de Chumbo Mountibank, até o pasto no terraço coberto onde sua ovelha elétrica ‘pastava’ ``(DICK, 2015). Assim como Deckard não pode deixar de usar seu `Protetor Genital de Chumbo`, os chineses que vivem em Pequim não podem deixar de sair às ruas sem máscara devido ao alto índice de PM2,5 - partículas nocivas que penetram no pulmão - no ar e precisam reduzir os níveis de atividade externa. O cenário parece de ficção científica, mas é mais próximo do que imaginamos. Assim como na “Terra de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” o único programa de televisão apresentado por Buster Gente Fina informa aos habitantes das possibilidades de poeira radioativa diárias, nós somos informados pelos telejornais das mudanças climáticas que vêm modificando o clima do nosso país e de muitos outros. Como é o caso do que ocorreu no ano de 2021, em que incêndios incontroláveis queimaram até o Ártico; inundações na Alemanha e Bélgica destruíram casas, prédios e deixaram mais de 1.000 pessoas desaparecidas; pessoas morreram em enchentes na China e o noroeste dos Estados Unidos, conhecido por seu clima frio, atingiu 38ºC. Esses fenômenos são decorrentes das mudanças climáticas causadas pelos gases de efeito estufa, principalmente o dióxido de carbono.

A China é o maior emissor deste gás, e, logo atrás, estão os Estados Unidos, a Índia e a União Europeia. Segundo pesquisadores do relatório do “Grupo Rhodium”, um provedor de pesquisa independente que combina dados econômicos e visão política para analisar tendências globais, as emissões chinesas de CO2 chegaram a 25 gigatoneladas, o equivalente à produção de todas as nações consideradas desenvolvidas em 2019, significando um aumento de 11,4% na última década. O governo chinês pretende cooperar com sua política climática e tem o objetivo de tornar o Estado neutro na emissão de carbono até 2060. Mas será que somente o esforço da China é suficiente para a mudança dos efeitos catastróficos do aquecimento global?

Há um esforço dos países para reduzir essas emissões através de acordos, como o Acordo de Paris e o Protocolo de Kyoto, que firmam o compromisso dos Estados, que fazem parte deles, em reduzirem a emissão desses gases em até um determinado período. Porém, esse comprometimento não é levado com seriedade por alguns chefes de Estado, como foi o caso do ex-presidente Donald Trump que, em junho de 2017, declarou a retirada dos Estados Unidos do acordo de Paris alegando “permanente desvantagem” econômica aos cidadãos norte-americanos. Em 2019, o Presidente Jair Bolsonaro também admitiu ter deixado o Acordo de Paris assinado em 2019, justificando sua decisão através da saída dos EUA. De acordo com a COP 26, Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, o Brasil é um país chave para o controle do aquecimento global e de seus efeitos catastróficos. Isso ocorre porque sem o controle do desmatamento da Amazônia e queimadas presentes na região, os ideais de redução das emissões dos gases e controle de mudanças climáticas sairão de controle. Se isso ocorrer, o objetivo de controle da temperatura média da Terra em 1,5ºC será um insucesso, aumentando a frequência de desastres naturais a cada ano, assim como os listados acima.

Nesse possível cenário de efeitos catastróficos, a vegetação e a vida na Terra se tornariam cada vez mais raras, e o planeta inabitável. Quando isso acontece em livros de ficção científica, a saída encontrada pelos humanos é a “colonização espacial”, assim como em Blade Runner. “Um tímido programa de colonização estava em curso antes da guerra, mas agora que o sol havia parado de brilhar sobre a Terra, a colonização entrou em uma fase inteiramente nova. Em conexão com isso, uma arma de guerra, o Guerreiro Sintético da Liberdade, havia sido modificada… aquele foi o incentivo crucial para a emigração: o serviço andróide como cenoura, a precipitação radioativa como chibata. As Nações Unidas facilitaram a emigração; o difícil, senão impossível, era ficar. Vagabundear pela Terra significava, potencialmente, ver-se de súbito classificado como inaceitável biologicamente, uma ameaça à imaculada hereditariedade da raça. Uma vez classificado como Especial, um cidadão, mesmo que aceitasse ser esterilizado, era excluído dos registros da história” (DICK, 2015).

A descoberta de novos planetas parecidos com a Terra e a colonização deles não é mais um assunto da ficção. Programas espaciais como o da NASA e ESA tem como objetivo de longo prazo a colonização de outros planetas. De acordo com Marcelo Gleiser (2012), professor de astrofísica no Dartmouth College e entrevistado do programa O Universo da NatGeo, isso é apenas questão de tempo e dinheiro: “E quando esse lugar estivesse pronto, mandaríamos algumas famílias para lá, sabendo que nunca voltariam. Aí, aos poucos, ia chegando mais gente. E eventualmente criaríamos uma comunidade terrestre lá” (GLEISER, 2012). Já imaginou mudar para algum planeta novo? Na história, não são todos os cidadãos que conseguem isso. É necessário passar por um teste, em que seu QI é avaliado: se sua pontuação for maior do que o mínimo exigido, seu androide estará te esperando para dar boas-vindas longe da Terra; do contrário, você será considerado um “cabeça de galinha” e será condenado a passar seus dias nas ruínas da Terra. Podemos pensar que essa realidade de mudança de seres humanos a novos planetas seja algo possível a todos, mas podem haver muitos impasses. Como as mudanças das famílias que não poderiam custear a viagem, por exemplo, ficariam?

A ficção científica não fala do futuro, e sim sobre o presente. “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” é como uma Bíblia criada por Philip K. Dick. Ele escrevia sobre o que já havia começado, o que se agravaria mais para frente e como seria o futuro, mas independentemente da década que você a lesse, perceberia que se tratava dos caminhos presentes da humanidade. Os problemas sociais, ambientais e políticos estão à nossa volta e algumas pessoas ainda se recusam a enxergar. O papel e compromisso com o futuro da nação e o zelo pelo lugar onde vivemos está passando de mãos em mãos que, em cada canto do globo, enxergam essas mudanças, mas não dão a devida importância. Não podemos negar os avanços tecnológicos e científicos que as pesquisas espaciais trazem. Porém, a busca pelo aprimoramento de melhores condições de vida deveria estar focado no Planeta Terra. Daqui há cinquenta anos, podemos retornar ao livro. E fica a pergunta: Será que estaremos vivendo mais próximos da realidade de Deckard?


REFERÊNCIAS


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