• O Não Internacionalista

AS CERIMÔNIAS DE ABERTURA E AS RI

Atualizado: Ago 4


Desde de que os Jogos Olímpicos se tornaram um megaevento internacional, seus países sede veem a tradição das cerimônias de abertura como oportunidade de mostrar ao mundo sua história, cultura e valores. Para os pesquisadores Castro, Mendonça e Grohmann (2020) “megaeventos esportivos tornaram-se recursos, principalmente a partir do Século XX, para construir imagens positivas dos Estados no sistema internacional, em um exercício de soft power".

O formato desse espetáculo de natureza única, unindo teatro, dança, cinema, música e tecnologia, se moldou até a forma como é hoje a partir das iniciativas olímpicas que se organizavam em cada país, levando ao que conhecemos como “comitês olímpicos nacionais”. Assim, o Comitê Olímpico Internacional (COI), com as suas mais de 200 representações nacionais, estabeleceu uma série de protocolos a serem seguidos junto às apresentações artístico-culturais, como o desfile das delegações, o hasteamento da bandeira olímpica, o juramento olímpico, o revezamento da tocha e o acendimento da pira olímpica.

Porém, essa grande exibição nacional não começa mais no dia de abertura dos jogos, mas no processo de construção dos estádios e arenas de cada modalidade. Cada vez mais modernas e deslumbrantes, essas obras já criam grande expectativa sobre os jogos, assim como acontece com a Copa do Mundo da FIFA. Os Estádios Olímpicos de Londres 2012, Pequim 2008 e Atenas 2004 foram grandiosos projetos que puderam impressionar tanto a população como os comitês nacionais durante as cerimônias.

Dessa forma, farei aqui um breve comparação sobre quatro recentes cerimônias de abertura de jogos olímpicos baseando-me na perspectiva de como a imagem dos países sede foram exibidas pelo comitê organizador e recebidas pelo público: Beijing 2008, Londres 2012, Sochi 2014 e Rio 2016. Perceba, todas representando países em diferentes etapas de sua imagem no cenário internacional, a China como superpotência em ascensão, o Reino Unido como ex-potência hegemônica mas ainda influente, a Rússia pós-URSS e o Brasil como potência regional até então emergente.

Em Pequim, as expectativas, que já eram altas, foram superadas. Com seu elenco de mais de 14000 figurantes e um orçamento de 100 milhões de dólares, a “grandiosidade” foi a palavra mais repetida pela imprensa internacional. Dividida em dois atos, Brilhante Civilização e Era Gloriosa, a cerimônia se iniciou com uma das mais marcantes cenas olímpicas, os 2008 percussionistas tocando fous, uma instrumento antigo da China, em perfeita sincronia dando boas vindas aos jogos.

As apresentações seguintes se mostraram igualmente esplendorosas, com longos e espetaculares shows de fogos de artifício e elementos referenciando as quatro grandes invenções chinesas: a pólvora, com as pegadas pirotécnicas chegando do centro da cidade; o papel, quando abriu-se o grande pergaminho no centro do estádio; a impressão, com as 897 teclas movimentando-se em uníssono mostrando-se depois serem controladas por pessoas e a bússola, na performance dos bonecos de marionete. Encerrou-se com a presença de representações das 56 etnias presentes no país e com o acendimento da pira olímpica pelo herói olímpico chinês Li Ning, suspenso por cabos até o topo do Ninho do Pássaro.

Mesmo com algumas críticas sobre presença de militares no elenco, ou por não trazerem crianças de todas as etnias nas representações, o resultado foi certeiro ao utilizar da cerimônia para mudar a visão que o mundo tinha sobre a China, deixando uma tradição fortíssima neste evento: se for sediar uma olimpíada, é melhor se apresentar com uma mensagem forte de quem você é, e é fundamental que seja algo bom.

A partir daquele momento, a China pôde apresentar-se ao mundo como uma grande potência em ascensão, com um passado riquíssimo culturalmente, um presente com uma numerosa e disciplinada população e um futuro poderoso e promissor. Em 2008, isso ainda era necessário, apesar de parecer óbvio em 2021.

Já em 2014, em Sochi, na Rússia, a mensagem que passaram nos jogos de inverno foi através da história da Rússia, mas “a maior parte dessa história era sobre a Rússia se modernizando (…) mas sem Stalin, sem revolução. O que a Rússia tinha muito claro para dizer era: nós somos modernos, nós olhamos para o futuro, nós estamos prontos para sermos líderes no mundo”. Mesmo não tendo o mesmo apelo de grandiosidade chinês, essa cerimônia também quis provar ao mundo quem é a Rússia e qual a história, a cultura e os valores que ela quer que o mundo conheça.

Em Londres, por outro lado, não havia nada para ser provado. O Reino Unido já é uma grande potência econômica, militar e cultural há séculos, mesmo tendo sofrido uma retração nessa posição e cedido seu lugar aos EUA. O que se pretendeu em sua cerimônia foi revisitar uma série de histórias e referências britânicas que o mundo inteiro, de certa forma, já conhecia, seja através da cultura pop, no segmento sobre o cotidiano de uma família londrina com músicas tocadas há décadas no mundo inteiro, seja pelo seu próprio início, com a história de um país campesino que foi o território para a 1ª revolução industrial, seus processos de urbanização, duas vitórias sofridas em guerras mundiais e berço do movimento sufragista.

Por fim, a Rio 2016 estava com baixas expectativas. O Brasil estava no auge de uma crise econômica e política após o afastamento da presidente Dilma Rousseff, o clima de insegurança na cidade do Rio não era dos melhores e a imprensa internacional deu grande espaço para os atrasos nas entregas das obras. Exatamente por isso, o resultado foi incrivelmente positivo após a abertura, cujo orçamento foi 10% do usado em Londres quatro anos antes. A história do Brasil, sua cultura e exuberância, e seu protagonismo na defesa por um mundo mais sustentável foram muito bem apresentados à audiência global.

De início, pela homenagem à gambiarra, definido pelos brasileiros e realçado pelos diretores como "o talento para fazer algo grande a partir de quase nada", uma referência direta à própria realidade da cerimônia e dos jogos. Figuras mundialmente famosas também fizeram parte presencialmente ou em referências, como Oscar Niemeyer, Tom Jobim, Gisele Bündchen, Elza Soares e Santos Dumont. Este último, com claro e lindo lembrete aos estadunidenses de que foi um brasileiro quem inventou o avião. O samba, a MPB e o carnaval, elementos já conhecidos internacionalmente, foram acompanhados pelo funk carioca e pelo rap, exibindo o tamanho da diversidade cultural do país e sendo recebidos com louvor do público e da imprensa, que qualificou como humilde e calorosa.

O protagonismo climático teve seu auge na tradicional formação artística dos anéis olímpicos simbolizados por árvores sobre uma série de mudas e com o acendimento da chama olímpica em uma pira que teria baixa emissão de carbono, momentos muito significativos para a mensagem de protagonismo do Brasil nesse tema. Ao final, é possível afirmar que esse sucesso pôde, pelo menos naquele momento, redefinir como o mundo via o Brasil e os brasileiros.

Após essa exposição, é importante lembrar também que esse momento é para a celebração da coletividade, da competição, mas sem política e violência. Segundo análise feita pelo veículo Quartz, "é por isso que as crianças sempre estão presentes nas cerimônias de abertura. As olimpíadas são uma visão infantil sobre orgulho nacional e competição internacional,(...). Sim, as cerimônias olímpicas podem ser divertidas, mas há um grande teatro por trás delas há muita coisa em jogo. Para os países sede, os jogos não são somente para ganhar medalhas, mas uma oportunidade de realmente mudar o modo pelo qual o mundo o vê (QUARTZ, 2016)."

Por fim, sugiro que fiquemos atentos aos sinais que o Japão irá nos dar nessa manhã de sexta-feira, apesar dessa situação pandêmica e sem público. Afinal, o que os japoneses querem que nós saibamos sobre eles, neste momento e nestas circunstâncias?





REFERÊNCIAS



CASTRO, Henrique Carlos de Oliveira; GROHMANN, Luis Gustavo Mello; MENDONÇA, Carla. Megaeventos esportivos no Brasil: entre o softpower e a cultura política. Revista Relações Internacionais do Mundo Atual Unicuritiba, Vol. 4, Nº29/2020, Curitiba, 2020.


DERENZO, N. What Was the Best Olympics Opening Ceremony of All Time?. AARP, 2021. Disponível em: <https://www.aarp.org/entertainment/television/info-2021/best-olympic-opening-ceremonies.html>.


OSATO, T. As 5 aberturas de Jogos Olímpicos mais marcantes da história. Revista Galileu, 2021. Disponível em: <https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Historia/noticia/2021/07/5-aberturas-de-jogos-olimpicos-mais-marcantes-da-historia.html>


QUARTZ. Decoding the Olympic opening ceremonies. Youtube, 05 de agosto de 2016. Disponível em: <https://youtu.be/IYmXlKyojiE>.