ARTE E POLÍTICA NO BRASIL, O SINCRETISMO CULTURAL NEGADO

Embora Cultura e Sociedade sejam elementos frequentemente colocados no mesmo contexto, Arte e Política, por outro lado, são tratados como divergentes, ocupando lugares e funções muito distantes numa mesma narrativa. Partindo do ponto que todo pensamento é construído a partir de experiências, este não foge a regra. A política tanto como palavra quanto prática amplamente discutida tem origem na Grécia, civilização também conhecida por ser o berço do teatro enquanto prática artística. Porém, a questão aqui não é o que era feito, mas sim, por quem era feito. As discussões filosóficas e políticas aconteciam na Ágora, símbolo da democracia direta ateniense e um lugar público, onde os cidadãos discutiam e expunham seus pensamentos, bem como o teatro, onde apenas os cidadãos podiam encenar. Entretanto, as mulheres, as crianças, os estrangeiros e os escravos não eram considerados cidadãos, expondo a raiz da associação imediata tanto da política quanto da arte, a um grupo restrito.


Ao longo dos anos e dos caminhos percorridos pela humanidade, algumas coisas mudaram na estrutura política mundial. Houve certa mobilidade social, conquistas de direitos civis por alguns grupos e ocupação de lugares que antes eram atribuídos somente a uma esfera social. Essas reformas, porém, aconteceram de diferentes formas, em diferentes ritmos e intensidades, variando de país para país. A Arte, que etimologicamente significa “maneira de ser ou agir”, consequentemente foi se moldando de acordo com o tempo e sociedade, revelando sua influência -por muitas vezes negada- nos campos intelectual e político, especialmente em contextos críticos como o Golpe Militar de 1964 no Brasil. Durante a ditadura militar, qualquer tipo de manifestação artística de protesto contra o governo era severamente punida e censurada, tal era sua capacidade de conscientização. Eis o principal motivo para que muitas pessoas em posição de poder tenham interesse em separar a arte da política - onde a primeira pode ser uma valiosa ferramenta de emancipação política e consciência de classe.


A complexidade da relação entre arte e política no Brasil não se restringe somente a necessidade de adestramento social, mas também ao fato de que embora o país seja miscigenado e rico culturalmente, segundo Antonio Albino Canelas Rubim, a intervenção estatal no empreendimento de políticas culturais nacionais foi marcada por três tradições: ausência, autoritarismo e instabilidade. Afinal, um país que teve seu território invadido e sua cultura indígena desprezada e posteriormente substituída em grande parte pela europeia, carrega uma ferida exposta que sangra sobre a valorização da cultura brasileira, pelos próprios brasileiros, fazendo com que as referências culturais sejam importadas e estejam em um estado anacrônico com a sociedade. Este tema foi tratado por Roberto Schwarz, como “As Ideias fora do lugar”, no qual o mesmo exemplifica com a importação de ideias liberais durante o séc XIX enquanto o Brasil ainda possuía um regime escravocrata, colocando no mesmo espaço-tempo o liberalismo e a escravisão, que por si só, não podem coexistir, ou seja, a evolução da nação brasileira como sociedade é historicamente atropelada por importações de valores outros.


Essa realidade respinga na noção elitista de cultura no Brasil, onde a periferia produz sem parar em diversos campos da arte como música, dança e cinema, por exemplo, mas encontra barreiras impostas sistematicamente para sua prática, difusão e reconhecimento. Embora sabido que a obra de um artista é reflexo da sua realidade, aqui, quando artistas como Mano Brown e Djonga cantam sobre o que vêem, vivem e viveram, suas letras são tratadas como apologia ao crime e violência. Por outro lado, personalidades estrangeiras como Jay Z e 50 Cent, ambos norte-americanos, que também são rappers e também abordam temas como violência policial, são ovacionados, e consumidos em massa, esbarrando novamente na problemática de quem faz e não o que faz. Recapitulando que mesmo após o lançamento do filme Cidade de Deus, em 2002, que foi sim, reconhecido internacionalmente, a arte nacional ainda não é socializada massivamente e encontra resistência para romper barreiras, como é notado, no ano de 2022, em que apenas um filme brasileiro foi indicado ao OSCAR, a maior premiação do cinema e não por acaso original de Los Angeles - Estados Unidos.


A arte como veículo de denúncia parte da camada marginalizada da sociedade, incomoda - propositalmente - e é duramente criticada pela alta-roda, que se coloca numa posição capaz de julgar o que é arte e o que não é. Ainda sobre heranças de valores impostos, o que é considerado erudito no Brasil, classificado pela Academia, composta em sua grande maioria pela alta sociedade, é toda produção artística que se aproxima de alguma forma do que é feito na Europa e Ocidente, negando mais uma vez a influência da cultura indígena e africana na sociedade brasileira e por vezes desvalorizando quem o faz. Existe uma discussão que aborda qual a distância entre o popular e o erudito, partindo da ideia de que a erudição é alcançada através do estudo de técnicas específicas e teorias existentes apenas em âmbito acadêmico - excluindo deliberadamente grande parte da sociedade - e a cultura popular acontece livre e naturalmente. Porém, pode ser analisado que essa distância não existe uma vez que a arte popular também contém estudo e técnica, portanto, torna-se erudita e em tese possui o mesmo valor. No entanto, quem define o valor e importância da arte é o grupo que consome seletivamente e possui maior poder.


A apropriação da cultura artística nacional pelo povo, torna-se necessária uma vez que ela já é parte da sociedade e o pensamento de que o artista é alguém apenas “talentoso” ou “bem dotado” acaba por reforçar essa separação, favorecendo a alta sociedade que não está interessada na emancipação social da classe trabalhadora, grandes responsáveis pela arte popular no Brasil. Como disse Rita von Hunty, “artista é alguém que teve oportunidade de se desenvolver”, ou seja, todos são artistas em potencial, o que falta é a oportunidade. A Semana da Arte Moderna de 1922 mostrou ao mundo que a arte não acontece dentro das linhas, a criatividade está justamente na quebra das regras e da ultrapassagem dos limites rumo ao desconhecido. Impor normas ao fazer arte é uma limitação desnecessária feita, geralmente, por quem tem interesse no congelamento das estruturas culturais no Brasil.


O desejo de perpetuar a sociedade como está, fazendo uso da arte, é um tema debatido por Adorno e Horkheimer, que expõem a influência do cinema hollywoodiano na anulação do evidenciamento das personalidades das pessoas e da capacidade de levante de movimentos populares contra o sistema capitalista de consumo, que trata a arte como mero entretenimento. A característica de podar pensamentos está presente no Brasil tanto no desincentivo e invisibilização de arte e artistas que criticam o sistema, quanto na propagação para consumo em massa de obras que cooperam com o distanciamento de arte e política. Este movimento reforça a estranheza de relacionar esses dois espectros tão complementares que devem andar juntos para uma maior representatividade coletiva e educação política através da arte.





BIBLIOGRAFIA


ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Indústria cultural. El Cuenco de Plata, 2013.


DE AZEVEDO, Fábio Palácio. O conceito de cultura em Raymond Williams. Revista Interdisciplinar em Cultura e Sociedade, v. 3, n. especial, p. 205-224, 2017.


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RUBIM, Antonio Albino Canelas. Políticas culturais no Brasil: tristes tradições,

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