A ''Uberização'' como Expressão da Informalização do Trabalho



Autor: Estevão Pessoa



Como um fenômeno de natureza espacial, a Globalização é um processo com raízes pautadas na evolução tecnológica, ou seja, nos meios de transporte e de comunicação. Ela passou a maquinar uma nova rede geográfica, isto é, a compor uma nova rede de fluxos, dessa forma possibilitando uma maior mobilização e gerando uma materialização das interações globais. Ao nascer alinhada à concepção capitalista, com o decorrer das décadas a Globalização se tornou um conceito paradoxal, sendo compreendida como um processo de integração entre países, mas que exclui aqueles Estados e indivíduos que não possuem capital para acompanhar as suas instâncias.

Em um mundo cada vez mais globalizado, o capitalismo vem se transformando e utilizando o discurso neoliberal como veículo de propagação. Somadas à intensificação da Globalização, as políticas neoliberais1 impactam profundamente a classe trabalhadora do Sul Global. Ao diminuir as distâncias comunicativas e aumentar as distâncias sociais esse fenômeno divisor salienta as diferenças existentes entre as comunidades do globo, dado que insere as pessoas em um mundo onde elas não percebam o exterior, ou seja, não enxergam os indivíduos que estão do lado de fora da “integração”.

Em um território onde políticas neoliberais estão em constante avanço, auxiliadas pelo fenômeno da Globalização, processos de desindustrialização2 e crises econômicas se tornam um cenário recorrente, desarticulando o Estado de bem-estar social e fomentando uma nova organização do trabalho3. Um contexto de flexibilização se torna existente, negligenciando direitos e introduzindo um novo gerenciamento do trabalho, a uberização. Tendo um panorama de instabilidade como veículo, esse processo avança sobretudo nos países do Sul Global onde a baixa empregabilidade é existente.

Como uma alternativa ao cenário de incertezas, o trabalho informal é perpetuado nas sociedades do Sul Global, determinando novas relações de trabalho ao estabelecer o trabalhador como um autogerente-subordinado4. A uberização insere os indivíduos em um panorama em que a jornada de trabalho determinada é inexistente, bem como valores pré-estabelecidos. O trabalhador não é visto como um empregado, mas como um simples prestador de serviço, sendo destituído os vínculos empregatícios entre ele e a empresa. Na uberização, portanto, é estabelecido um “trabalho sem emprego”, sendo os indivíduos uma mão de obra barata, alheia a direitos e vínculos com os seus empregadores.

Alinhada ao avanço tecnológico, o processo de uberização do trabalho é repercutido entre as comunidades do Sul Global, alienando as populações e destituindo direitos: férias, décimo terceiro salário e carteira de trabalho assinada tornam-se uma premissa fictícia para aqueles que estão inseridos nas dinâmicas do trabalho informal. Uma nova associação entre o trabalho e o capital é estabelecida, tendo algoritmos comandando o ritmo de produção em oposição à demanda. Na nova relação de trabalho, um aplicativo é responsável por fazer a conexão entre empregado e empregador. Apesar de ter o seu lucro advindo desse processo de “match” entre aqueles que demandam trabalho e os que precisam trabalhar, o aplicativo não fornece nenhum vínculo empregatício, enriquecendo com a expropriação daqueles que fornecem a mão de obra.

Vale a pena ressaltar que na uberização os meios de produção não estão sobre a posse da empresa, mas dos trabalhadores. Esse aspecto, todavia, não é tão benéfico quanto parece. Ao trabalhar para o iFood, por exemplo, o indivíduo deve possuir uma moto ou uma bicicleta, no caso da Uber é preciso um carro, sendo todos esses meios, bem como a sua manutenção, de responsabilidade dos trabalhadores, que apesar de não possuírem vínculo empregatício com a empresa, devem arcar com as despesas desses meios como manutenção e gasolina. A uberização exige dos seus “funcionários” uma dedicação irrestrita, subtraindo deles longas jornadas. “A uberização traz uma categoria de utilização da força de trabalho que conta com a disponibilidade do trabalhador, mas o utiliza apenas quando necessário, de forma automatizada e controlada"5.

Em um mundo cada vez mais globalizado, a internet é vislumbrada como um auxílio para sair do cenário de incertezas que perpassa alguns países do Sul Global como o Brasil, despertando a esperança de um crescimento e ascensão social. No século XXI, o maquinário digital desponta como regente das relações de trabalho, sendo a uberização uma expressão desse processo. Onde políticas neoliberais são propagadas, um contexto de flexibilização é estabelecido, introduzindo a uberização como expressão do trabalho informal, substituindo velhas relações de trabalho pela inexistência de vínculos entre empregado e empregador. Ao abrigo da tecnologia, o trabalhador comum é substituído pelo proletariado digital.




Referências Bibliográficas:


ABÍLIO, Ludmila. Uberização: Do empreendedorismo para o autogerenciamento subordinado. Revista Psicoperspectivas, vol.18, n.03, p. 41-51, 2019.


BAUMAN, Zygmunt. Turistas e vagabundos. In:____. Globalização: as consequências

humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.


SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. São Paulo: Editora Record, 2001.





Notas Finais:


  1. Compreende -se como políticas neoliberais aquelas ações pautadas no livre comércio, bem como na não-intervenção do Estado na economia. Os defensores dessa teoria pregam a liberdade de mercado e o empreendedorismo como uma forma de sanar as desigualdades sociais existentes.

  2. Compreende-se como desindustrialização a redução da capacidade industrial de um determinado país, consequentemente a diminuição da participação do setor industrial no PIB (Produto Interno Bruto) deste. Esse processo pode gerar graves consequências sociais como a redução dos empregos.

  3. Compreende-se como organização do trabalho as possíveis formas em que o este possa ocorrer como: trabalho formal, trabalho informal e subemprego.

  4. ABÍLIO, Ludmila. Uberização: Do empreendedorismo para o autogerenciamento subordinado. Revista Psicoperspectivas, vol.18, n.03, p. 41-51, 2019.

  5. Ibidem