• Lucas Ramos

A política externa dos Estados Unidos e da China: entre a ideologia e o pragmatismo

Atualizado: Mai 4



A política externa é um dos grandes pilares de estudos das Relações Internacionais. Segundo o teórico Marcel Merle: “A política externa é constituída por um conjunto de iniciativas que emanam do ator estatal, tendo em vista mobilizar para o serviço, o máximo de fatores disponíveis tanto no ambiente interno como no ambiente externo.”

Mesmo que essa definição pareça objetiva, percebemos que os Estados demonstram ações radicalmente diferentes dependendo de suas ideologias e dos valores fundamentais do governo que as comanda. Pode-se notar, entretanto, que no esquema internacional, muitas vezes os objetivos anunciados das nações são diferentes de suas ações e, a partir dessas contradições, podemos fazer uma análise clara e concisa, baseada em fatos objetivos.

Levando isso em consideração, atualmente temos em evidência um grande conflito que se mostra não só político e econômico, mas também ideológico, entre dois Estados no esquema internacional. Este é o conflito entre os Estados Unidos e a China e, pela sua relevância no sistema internacional, vale ser feita uma análise de suas propostas de ações em política externa e como isso se mostra na prática.

Propostas

Com a entrada em 2021 do novo governo de Joe Biden nos Estados Unidos, uma nova proposta de política externa foi apresentada pelo secretário de Estado do governo, Antony Blinken, em um discurso proferido no dia 03 de março de 2021. Nesse discurso, o secretário se propôs a falar sobre os principais focos da administração em relação à política interna e externa americana.

Primeiramente, ele ressaltou a necessidade de esforços para o combate à COVID-19, além do esforço para a recuperação econômica. O terceiro ponto apresentado, considerado crítico para o entendimento da política externa americana, é a chamada “Renovação da democracia” ao redor do mundo.

O secretário menciona um ponto importante em seu discurso: “Shoring up our democracy is a foreign policy imperative.” Ou seja, os Estados Unidos se sentem na obrigação de trazer a sua versão da democracia para todos os Estados, tentando exportar sua versão de governo mesmo para aqueles que não tem esse desejo no sistema internacional. Ele também menciona a Rússia e a China como países adversários a esse objetivo.

Outra questão significativa no discurso do secretário é quando ele menciona, por duas vezes, que o foco da intervenção americana, para garantir a “democracia”, tem de ser diplomático e não militar. Portanto, promete uma diminuição de ataques em nações que não concordem com a sua visão de mundo.

Por fim, o discurso menciona a China, que é colocada como o maior teste geopolítico do século XXI. É dito que o relacionamento com o Estado será ora competitivo e adversário, ora colaborativo, quando for preciso. A estratégia da administração para competir fortemente com a China é a seguinte: “trabalhar com aliados para que o peso combinado entre todos seja muito para ser ignorado pela China”.

Para que se possa ter o entendimento completo da proposta de política externa da China, deve ser usado o documento oficial liberado pelo governo chinês, de título “China and the World in the New Era”, lançado em setembro de 2019. Este documento retrata o progresso feito pela China até os dias atuais, e o que deve ser feito no futuro, tanto na política interna quanto na externa.

O início do documento apresenta o sucesso dos esforços da política de Pequim para acabar com a pobreza no país, indo de 96,2% da população rural em situação de pobreza para 1,7% nos dias de hoje. Além disso, mostra muitos outros indicadores de progresso. As conquistas, segundo o documento, são resultado do trabalho duro do povo chinês de 1,4 bilhão de pessoas.

Sobre a política externa, o documento inicia dizendo que a China teve esforços para aumentar suas negociações para o mundo todo, fazendo comércio entre todas as nações. Além disso, o documento fala sobre os esforços para manter suas relações internacionais dedicadas aos interesses do mundo todo.

A China também se propôs a trazer um novo tipo de política externa, chamada por eles de "Belt and Road Initiative”. Essa política consiste na procura de atingir objetivos em comum entre países, além de ser uma que divulga princípios de igualdade, aprendizado mútuo e diálogo entre nações. De acordo com o documento, essa iniciativa tem o objetivo de proteger a paz mundial e o desenvolvimento comum.


Ações objetivas

Apesar das propostas, uma análise de política externa também deve incluir fatos concretos, para que se possa ter uma ideia clara das intenções de cada nação, fugindo da ideologia em função do pragmatismo.

Ações muito noticiadas da política externa chinesa são a abertura de infraestruturas em países ao redor do mundo, com foco no continente africano. Portos, usinas e outros tipos de estruturas são construídos a partir do capital chinês, que muitas vezes conta com cidadãos chineses morando nesses países para a supervisão da construção.

Embora ações como essas da China possam vir de boas intenções, existem dúvidas em relação às reais intenções desses investimentos. Uma teoria a respeito acusa a China de fabricar uma “debt trap”, ou seja, uma armadilha para que países fiquem continuamente endividados à China. Essa hipótese, porém, é rejeitada por teóricos por não apresentar provas contundentes.

Outra hipótese dos motivos chineses para esse tipo de investimento coloca-os como uma jogada de influência a longo prazo para sustentar apoio de cada vez mais países ao sistema chinês em contrapartida ao estadunidense, ou seja, o sistema socialista em contraste ao sistema capitalista. No futuro será entendido de forma mais clara as intenções reais da China, porém as suas ações concretas de modo geral são focadas na cooperação e no investimento.

Quando falamos dos Estados Unidos, seu suposto apoio à democracia é difícil de ser avaliado com tão pouco tempo de governo Biden, porém, sua primeira ação militar nos diz muito sobre o rumo a ser tomado pela potência no esquema internacional. No dia 25 de fevereiro foi tomada a primeira ação militar da administração, que ocorreu na Síria em um ataque em bombardeio a células de apoio ao Irã, outro concorrente dos EUA no sistema internacional.

O Irã é apoiado diretamente pela Rússia, e foi submetido a escrutínio durante o governo Obama em função de sua suposta escalada na construção de bombas nucleares. O governo Obama, que tinha como vice-presidente o próprio Joe Biden, colocava sanções sobre o Irã e ativamente batalhava contra grupos apoiados pelo país.

A intervenção militar na Síria é diretamente uma mensagem ao Irã e à Rússia, mostrando que o governo Biden, apesar de se mostrar pacífico, irá retaliar contra aqueles que vão contra seus interesses. Essa intervenção aconteceu dias antes do discurso do secretário de defesa, e mostra que mesmo se mostrando pacífico, os Estados Unidos tendem a continuar suas intervenções militares ao redor do mundo.

Portanto, resta sabermos mais sobre o futuro das ações das duas potências, para que seja entendido claramente suas intenções iniciais, além das consequências de suas ações no sistema internacional.



Bibliografia:

MERLE, Marcel. Política externa e relações internacionais. In: BRAILLARD, Philippe. Teoria das relações internacionais. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1990. p. 260

A Foreign Policy for the American People - United States Department of State

Full Text: China and the World in the New Era (www.gov.cn)

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