A inserção de países na política internacional e o que isso significa


Muito se fala sobre a inserção dos países na política internacional, mas é importante entender o que de fato isso significa. Para compreender esse tema, é necessário o domínio de conceitos da área de Relações Internacionais pertinentes à discussão que, muitas vezes, se confundem. À luz da coluna do professor Williams Gonçalves para a edição 342 do Jornal dos Economistas (2018), “Sobre a inserção do Brasil no mundo”, esse texto diferencia esses conceitos e esclarece o que define a inserção internacional de um país na política internacional.

Para Gonçalves, a resposta para o que determina a inserção internacional de um Estado pode ser encontrada na junção de três perguntas fundamentais: O que é o país?; Como é visto?; O que quer ser? A fim de entender melhor o que essas questões significam, faz-se necessário destrinchar cada uma delas com cuidado. Para isso, usaremos o Brasil como exemplo. O que é a inserção internacional brasileira na política internacional? Para assimilar isso, é preciso entender as questões supracitadas em relação a esse país.

Primeiramente, cabe responder o que é o Brasil. Esta é uma resposta muitíssimo complexa, pois parte de diversos aspectos de análise do país: o poder nacional, a economia, a cultura, a sociedade, entre outros. Não é algo simples de se examinar e deve ser muito bem ponderado. Ou seja, a análise do que é um país deve abarcar sua história, incluindo os elementos anteriormente citados, além de dados concretos que o comparem com outros Estados e o posicionem no sistema internacional.

Partimos então para a segunda questão: como o Brasil é visto? Para entender essa pergunta é importante saber como o país entra nos cálculos estratégicos das grandes potências, ou seja, qual é a importância dele no cenário internacional. O Brasil tem relevância significativa no globo, com uma população de mais de 200 milhões de habitantes e grande importância ambiental (independente dos fatores econômicos e culturais), que quando se somam à análise, delimitam o contorno da influência do país no sistema internacional. Economia, política, segurança ambiental, por exemplo, são aspectos que entram em análise quando se procura saber como um determinado país é visto na comunidade internacional. Em suma, a inserção internacional depende do que o país é, mas também dos que os outros países veem. É essa importância que vai determinar a forma como o Estado vai se inserir internacionalmente.

A última pergunta expressa o que o país quer ser. Ela se traduz em qual vai ser o futuro do Brasil, que é projetado pelas suas elites (econômicas, intelectuais, culturais, militares e políticas) e qual a capacidade delas de entrar em um consenso e formar esse país que se quer. Esse “querer” se materializa em política externa. É a política externa que vai representar o projeto nacional elaborado por essas elites. Esse futuro é projetado pelas elites pois são elas que possuem o verdadeiro poder decisório dentro do Estado, visto que, a partir de uma lente de análise que se concentra na desigualdade social brasileira, são elas que compõem a classe dominante.

Com a mudança dos governos, há sempre a possibilidade de que se mudem as políticas para atingir os objetivos do país, que também podem mudar. A política externa exprime-se em objetivos que o governo estabelece para serem alcançados junto ao relacionamento com os outros Estados, é a tentativa de preencher as necessidades internas junto a eles, sendo caracterizada como uma faceta do processo de desenvolvimento nacional, que consiste na evolução da nação a partir de um viés econômico e social.

A partir do somatório dessas três questões elaboradas por Gonçalves, é possível compreender como a inserção de um país na política internacional é determinada. Porém, tendo em vista que essa discussão é permeada por conceitos que muitas vezes se confundem, faz-se necessário esclarecê-los. Em primeiro lugar, o conceito de política externa representa o estabelecimento de objetivos por parte de um governo. A partir dela, visa-se alcançar determinados objetivos e, para isso, deve-se ter uma visão clara de como se estrutura o sistema internacional de poder, quem são os potenciais aliados e os oponentes. A política externa é elaborada a partir de uma visão de o que se quer e como se pode alcançar isso. Cada governo desenvolve a própria, o que significa que ela muda constantemente a depender de quem está no poder em um país.

Muitas vezes, o conceito de política externa se confunde com o de relações exteriores. O último se trata das relações que, seguindo o exemplo fundamental aqui proposto, o Estado brasileiro estabelece com os demais Estados, seja no plano consular ou no das embaixadas. São de responsabilidade do Ministério das Relações Exteriores. As relações exteriores são correntes, não param nunca, enquanto a política externa consiste na fixação de objetivos.

Por último, o conceito de política externa também pode se confundir a mais outros dois. O primeiro deles é a diplomacia. A diplomacia é um meio, já a política externa se faz por meio dos diplomatas, funcionários concursados que tem por objetivo negociar, representar e informar o Estado. Em tese, o diplomata executa qualquer política externa. A diplomacia brasileira nada mais é que o meio para se concretizar a política externa, e não um sinônimo

dela. Por fim, o último conceito é o tema central desta exposição: a inserção internacional. Ela não é sinônimo de política externa. Tem uma densidade maior. A inserção internacional é o que o país é, como é visto e como quer ser. A política externa é apenas parte da inserção internacional.

Em conclusão, o tema abordado por Gonçalves é de extrema relevância para entendermos o porquê é importante compreender a inserção do Brasil na política internacional e qual a influência da política externa nisso. Podemos ver, com o estudo desse tema, que a política externa afeta diretamente o nosso cotidiano, visto que ela influencia a inserção internacional brasileira e, por consequência, a economia e as políticas públicas que se abatem sobre a população, já que dependemos das relações internacionais para preencher necessidades internas, seja por meio do comércio ou da política.

Essa questão fica clara quando se observa as relações comerciais internacionais. Uma boa política externa que seja assertiva e bem articulada, pode fazer com que um Estado mantenha boas relações de comércio com outros. Relações comerciais essas que podem contribuir para o desenvolvimento de empregos dentro do país, o que, por consequência, faz a roda econômica girar e possibilita o crescimento nacional. No aspecto político, movimentos erráticos da política externa são capazes de gerar tensões que, eventualmente, podem desaguar em sanções econômicas que têm efeitos internos e repercutem nos bolsos dos cidadãos brasileiros.

Assim, tendo em vista que a política externa é promovida por governos, faz-se necessário entender que, em um país democrático como o Brasil, ela também deve ser considerada pelos eleitores quando, em anos de eleições presidenciais, os candidatos são estudados pelo povo. Isso deve ocorrer pois, pelos próximos quatro anos, a população entrega as relações internacionais oficiais de seu Estado nas mãos de um governo com valores e propostas específicas que podem trazer consequências benéficas ou tenebrosas para a nação.


Referências Bibliográficas

GONÇALVES, Williams. Sobre a inserção do Brasil no mundo. Jornal dos Economistas: Paulo Nogueira Batista Jr., Williams Gonçalves, Carlos Serrano, Bernardo Kocher, Igor Fuser e Francisco Carlos Teixeira discutem a inserção do nosso país na economia e política global. Rio de Janeiro, n. 342, p. 6-7, fev./2018.